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Pura Connection · Viktor Doria

Viktor Doria explica por que Gordon Ryan joga outro esporte no ADCC

Comentarista do ADCC 2022 e empresário de atletas, ele fala de Gordon, da luta de Felipe Preguiça depois da morte de Leandro Lo e do papel do mestre.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 out 2022 (1:22:42).

O Viktor Doria chegou ao Pura Connection uma semana depois de comentar o ADCC de 2022 na televisão, e com uma tese pronta sobre o assunto que dividiu o jiu-jitsu naquele fim de semana: o Gordon Ryan, segundo ele, está jogando um esporte diferente de todo o resto.

O Viktor é faixa-preta desde 1999 e hoje trabalha como empresário de atletas como Mica Galvão, Gutemberg Pereira e Cyborg. Assisti à conversa e gostei porque ele fala de dentro: treina com esses caras, viaja com eles e ainda compete no Master.

“O Gordon não está fazendo o mesmo esporte nem tem os mesmos objetivos do resto da manada.”

Viktor Doria, no Pura Connection · 0:47:09

O plano de Gordon Ryan, de 2017 a 2022

Para o Viktor, o que o Gordon fez no ADCC não caiu do céu. Ele lembrou que em 2017 o americano apareceu no peso até 88 kg, venceu sete das oito lutas e perdeu a final do absoluto para o Felipe Preguiça. Dali, segundo ele, o Gordon avisou que 2019 seria dele, treinou como condenado, subiu de peso e trabalhou a rede social feito um doido. Em 2019 levou peso e absoluto.

Mesmo assim, contou o Viktor, a estrela daquele evento ainda era o André Galvão. A virada veio quando o organizador percebeu que a atenção estava no Gordon. Com a pandemia, o ADCC ficou para 2022, e o Gordon teve mais tempo para crescer. Segundo o Viktor, ele entrou no tatame com patrocínios de 100 mil dólares só para estampar marcas na camisa.

O resultado, na leitura dele, foi inédito: o Gordon já estava garantido na superluta e mesmo assim pediu para lutar a categoria acima de 99 kg, contra nomes como Cyborg e Nick Rodriguez, e ganhou as duas coisas. Nas 24 horas seguintes, disse o Viktor, fez uns 30 posts no feed, mais que todos os outros campeões juntos, puxando patrocinador, equipe, professor e o próprio evento.

“Ele é o que menos precisa fazer e é o que mais alavancou os patrocinadores.”

Viktor Doria, no Pura Connection · 0:47:40

O Viktor também respondeu a quem diz que o Gordon não é ninguém porque nunca foi campeão mundial de kimono. Ele contou que já criticou o americano quando ele se disse o maior do mundo no sem kimono, porque, para o Viktor, o que o Roger Gracie fez finalizando as oito lutas no absoluto enquanto somava 10 mundiais de kimono ainda pesava mais. Depois do ADCC, porém, admitiu que nem o Roger fez cinco adversários daquele nível parecerem faixa-branca no mesmo dia. E contou que comprou o vídeo do Gordon, de 250 dólares, para aprender a passagem de guarda dele.

André Galvão e a superluta que virou atropelo

Sobre a superluta, o Viktor lembrou a trajetória do Galvão no ADCC: campeão do absoluto em 2011 e, nas superlutas, vitória sobre Braulio Estima em 2013, sobre o Cyborg em 2015, sobre o Calasans em 2017 e sobre o Preguiça em 2019. Segundo ele, o Galvão sempre fez o que quis com os adversários. Desta vez foi o contrário.

O Viktor disse admirar o Galvão como atleta, pai e líder de equipe, e lembrou que o próprio Galvão admitiu estar num período muito escuro quando se envolveu no episódio do tapa com o Gordon, fora do tatame. O que ele não entendeu foi o discurso depois da luta, em que o Galvão citou o joelho machucado. Para o Viktor, não precisava: nem com três joelhos, disse ele, alguém ganharia do Gordon naquele dia.

Felipe Preguiça e a luta que não devia ter acontecido

A parte mais forte da conversa é sobre o Felipe Preguiça, que enfrentou o Gordon em 7 de agosto, um dia depois do assassinato de Leandro Lo. Para o Viktor, o Felipe não tinha condição mental de lutar nem de decidir nada naquela tarde, e faltou alguém ao lado dele para tomar a decisão por ele. Ele citou Rômulo Barral, que via como mentor do Felipe, e disse sentir falta de vê-lo ali.

O Viktor contou que o Leandro tinha mandado mensagem de boa sorte ao Felipe na noite anterior, e que o Felipe só viu ao acordar. Segundo ele, houve oferta de mais 20 mil dólares para a luta sair, e o Felipe ainda tentou limitar o tempo, o que o Gordon recusou. O Viktor fez questão de dizer que o Felipe é um cara ótimo, sem mau caráter, só sem condições de escolher certo naquele momento.

“O mental dele não estava funcionando. Meu trabalho é tomar as decisões certas pelo meu atleta.”

Viktor Doria, no Pura Connection · 0:54:25

Ele estendeu a crítica a outras escolhas. Segundo o Viktor, no ADCC de 2022 o Felipe não lutou o terceiro lugar da categoria para se poupar para o absoluto, e tirou a chance do adversário. E contou que em 2019 o próprio Cyborg, de quem é muito próximo, se recusou a lutar o terceiro lugar por achar que tinha sido roubado contra o Nick Rodriguez. O Viktor disse que falou na cara dele que estava errado.

O mestre que se conhece pelos frutos

O Viktor tem uma imagem que repete: a árvore se conhece pelos frutos. Ele citou o André Pederneiras, que, segundo ele, nunca foi um grande campeão mas formou nomes como Shaolin. E, mais recente, o Melqui Galvão, de Manaus, que levou três atletas ao ADCC, Fabrício Andrey e Diogo Reis na mesma categoria e o filho Mica nos 77 kg, e voltou com ouro e prata.

Pela mesma lógica ele defende o John Danaher: disse que criticava o apelido de Esquadrão da Morte porque só via o Gordon como fora de série, até ver o Nicholas Meregali, com seis meses de sem kimono e três lutas no currículo, sair do ADCC com duas medalhas, e o Giancarlo Bodoni ser campeão um ano depois de chegar a Austin.

E o papel do empresário, na visão dele, é parecido. O Viktor se define como funcionário do atleta. Contou que o Diogo Reis, campeão até 66 kg, parou antes da entrevista para vestir a camisa com o patrocinador e pôr o boné, e que ele quase chorou vendo um menino de 20 anos entender aquilo tão cedo.

“Eu sou um funcionário do atleta. Ele me contrata, ele é a empresa.”

Viktor Doria, no Pura Connection · 0:51:51

No fim, o recado dele para quem só critica é simples: em vez de imitar o Gordon ou falar mal dele, entender o que cada um tem de bom, colocar a própria personalidade e construir o próprio legado.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.