Pura Connection · Neiman Gracie
Neiman Gracie chegou a Nova York com 20 dólares e foi acolhido por Renzo
Bisneto de Carlos Gracie, o lutador de MMA conta como virou profissional, por que nunca brigou na rua e o que aprendeu com o avô Robson.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 31 jul 2023 (1:36:28).
Neiman Gracie tinha 20 dólares no bolso e um sonho de lutar vale-tudo quando bateu na porta da academia de Renzo Gracie em Nova York. Segundo ele, o Renzo não o via havia anos, mas o recebeu como se tivessem se encontrado na véspera, colocou no treino e, no fim, perguntou quanto de dinheiro ele tinha. Deu o suficiente para um mês e arrumou um quarto na casa de alguém. O Neiman ficou 12 anos.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e fiquei com a impressão de um cara que carrega o sobrenome mais pesado das artes marciais com muita leveza. Ele fala da mãe que contava histórias de Gracie na hora de dormir, do pai que largou tudo aos 50 anos, do avô que engoliu um dente no meio da luta e de uma recusa: nunca topou xingar adversário para vender luta.
“Os caras fizeram a parte difícil. Agora eu tô fazendo a parte mais fácil.”
Neiman Gracie, no Pura Connection · 0:13:24
Histórias de Gracie no lugar dos Três Porquinhos
O Neiman contou que teve jiu-jitsu dos dois lados de casa. A mãe foi criada na casa de Teresópolis, com o avô dela, Carlos Gracie, e viu tudo acontecer. Segundo ele, o Carlos teve 21 filhos e mantinha a família unida com o objetivo de espalhar o jiu-jitsu. Na hora de botar o filho para dormir, em vez dos Três Porquinhos, ela contava histórias do Rolls e do tio Hélio.
“Meu herói não foi o Homem-Aranha nem o Super-Homem. Meu herói era o Royce, o Rickson, o Renzo.”
Neiman Gracie, no Pura Connection · 0:15:31
Ele lembrou que, criança, teve um problema na escola e foi de kimono na mochila, trocou de roupa e entrou na escola de kimono para resolver com o outro garoto, porque queria ser igual ao Royce. Diante do espelho, de sunga, ele se imaginava lutador de vale-tudo como o tio Renzo. Fora da família, apontou Murilo Bustamante como herói, justamente por ser um lutador que nunca arrumou confusão na rua.
Sobre os bisavós, o Neiman tem uma opinião firme. Ele disse que fica triste quando entra numa academia que tem só a foto do Carlos ou só a do Hélio. Para ele, o Carlos era a mente visionária e o Hélio era o general na linha de frente, e um não funcionaria sem o outro.
O peso do sobrenome, segundo ele, quem carregou foram os que vieram antes: o Royce, o Renzo, o Rickson. Se tivesse dado errado lá atrás, disse, talvez ninguém estivesse ali hoje. O pai sempre repetiu que ser Gracie não o fazia especial em nada, e que o nome era mais um alvo nas costas.
O pai aos 50 anos e os 12 anos com o Renzo
O caminho até Nova York teve escalas. Com uns 18 anos, contou o Neiman, ele treinava na Gracie Barra quando o tio Carlinhos Gracie perguntou se ele tinha passaporte e visto. Tinha. O Carlinhos pagou a passagem e o levou para a Califórnia, onde ele passou seis meses.
Na mesma época, o pai dele, que tinha uma loja de roupas de jiu-jitsu em Copacabana, conheceu na loja um homem que procurava um faixa-preta para abrir academia nos Estados Unidos. O Neiman disse que as coisas estavam difíceis em casa e que o pai, aos 50 anos, largou tudo e foi para Connecticut, sem falar inglês direito. Ele saiu da Califórnia para ajudar e ficou um ano e meio, dois anos, inclusive quando aparecia gente querendo testar o pai.
Com a academia do pai de pé, faltava treino para quem queria lutar vale-tudo. A do Renzo ficava a uma hora e meia de distância. Ele juntou dinheiro trabalhando em obra e foi. Lá, segundo o Neiman, começou a dar aula com 18, 19 anos, ainda faixa-roxa, ajudando os primos. Recebeu a faixa-marrom do Renzo e depois a preta. Treinou mais de dez anos com John Danaher, que ele diz ter visto formar ali um time muito forte no sem kimono.
A estreia no MMA veio aos 23 anos, no mesmo evento em que lutaram dois primos, Gregor e Rolles. Segundo ele, isso facilitou: a atenção estava nos mais experientes, e ele fez a primeira luta da noite. Contou que foi em 2013, se não se engana, e que dali em diante lutou todos os anos. Ficou sete anos invicto, com nove vitórias seguidas, até disputar o cinturão. Das 12 vitórias, disse, dez foram por finalização.
Só 10% do jiu-jitsu funciona no MMA
Para quem é de jiu-jitsu, essa é a parte mais útil da conversa. O Neiman disse que, com soco na cara, dá para usar uns 10% do jiu-jitsu. Guarda-aranha, berimbolo e boa parte das raspagens de kimono não servem. O que conta é o feijão com arroz: derrubar, passar a guarda pela meia-guarda, montar bem, ter um bom controle.
Ele contou que apanhou bastante no começo até entender que precisava trocar um pouco em pé para conseguir levar a luta para o chão, e que teve de largar o jiu-jitsu de competição, porque não vê como ir bem nos dois ao mesmo tempo. Também reclamou que a molecada hoje só quer rolar e esquece a defesa pessoal. Segundo ele, o pai perdia alunos por insistir nessa parte, e ele pensa nesse público quando abrir a própria academia.
Na hora da luta, disse, a cabeça pesa mais: 90% mental e 10% físico. E o que fortalece a mente é o treino. Ele lembrou de semanas em que treinava de manhã e de tarde e sentia vontade de chorar, de tão quebrado.
Valentia calma e o dente engolido do avô
O Neiman garante que nunca brigou na rua e credita isso ao pai. Ele contou uma história de quando treinava boxe numa academia pesada de Nova York: os colegas armaram para um profissional tentar nocauteá-lo no sparring. Ele só agarrava, até derrubar o rival no ringue. Quando os outros invadiram, tirou as luvas e disse que topava em dobro. A partir dali, segundo ele, ganhou o respeito do lugar.
“A falsa valentia é alta e quer se mostrar. A verdadeira valentia é calma e serena.”
Neiman Gracie, no Pura Connection · 0:29:43
Boa parte dessa filosofia veio do avô, Robson Gracie, que morreu pouco antes da gravação. O Neiman disse que o Robson falava como um filósofo engraçado e repetia que o frouxo é o cara mais perigoso do mundo. Contou também que, numa luta contra o irmão de Waldemar Santana, o Robson levou um soco, perdeu um dente e engoliu para não dar ao adversário a alegria de vê-lo cuspir.
Ele disse ainda que um empresário e pessoas próximas já pediram que ele xingasse adversários e falasse da mãe dos outros para ganhar mais dinheiro. Recusou. Para ele, quem ganha de todo mundo sem falar mal de ninguém chega lá do mesmo jeito.
“Para mim, o bravo é o cara que tem 40 lutas, perdeu 10, foi nocauteado, mas voltou lá e venceu.”
Neiman Gracie, no Pura Connection · 1:34:41
O que fica
O herói que ele citou nessa hora foi Charles do Bronx, que perdeu mais de dez vezes e virou campeão. O Neiman contou que a primeira derrota, depois dos sete anos invicto, foi boa para ver como as pessoas o tratavam quando ele estava embaixo. Hoje ele diz que luta pela mulher e pelas filhas, lê os estoicos e lembra do memento mori antes de entrar na grade. Saí da conversa com a sensação de um Gracie que escolheu ser julgado pelo que faz no cage, e que sabe exatamente de quem herdou isso.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.