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Pura Connection · Guilherme Valente

Gui Valente conta como Hélio Gracie aprovou o currículo dos irmãos Valente

Criado dentro da casa do Grande Mestre, ele explica por que a academia de Miami voltou à defesa pessoal e hoje treina forças especiais americanas.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 18 mar 2021 (1:04:29).

Poucos alunos tiveram com Hélio Gracie a intimidade que Gui Valente teve. Ele conta que, aos 14 e 15 anos, saía da escola numa sexta-feira e ia direto para a casa do Grande Mestre no vale, onde chegou a passar quase dois meses seguidos nas férias. Anos depois, já professor em Miami, foi ao mesmo Hélio que ele e os irmãos entregaram o currículo da academia para ser corrigido, até o velho mestre dar o aval.

Assisti à live dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a clareza com que o Gui separa as coisas. Para ele, o jiu-jitsu que a família Valente ensina tem um objetivo só: defesa pessoal e educação do aluno. Todo o resto, da gestão da academia ao treino com militares, sai dessa escolha.

“A gente sempre enxergou o jiu-jitsu como muito mais que uma luta dentro de uma academia, como uma filosofia de vida.”

Guilherme Valente, no Pura Connection · 0:03:06

Criado perto de Carlos e Hélio Gracie

O Gui conta que não se lembra da primeira vez que vestiu um quimono. Segundo ele, o avô se tornou grande amigo da família Gracie, principalmente de Carlos e Hélio, e o pai, o médico Pedro Valente, levou essa filosofia para dentro de casa desde a gravidez da mãe, inclusive na alimentação.

A casa da família ficava no alto do Cosme Velho, quase em Santa Teresa, e tinha tatame, ladeira para correr, sala de ginástica e piscina no meio da floresta. O pai, segundo o Gui, fazia questão de que os filhos crescessem descalços, subindo em árvore. Além do jiu-jitsu, os irmãos fizeram boxe e judô desde pequenos, e a irmã Joana foi para a equitação, onde virou campeã.

No tatame, os professores principais foram Royler e o próprio Hélio. O Gui diz que ainda pegou a época de Rolls, treinou com Rickson quando era bem novo e conviveu com Royce antes de ele ir embora do Rio. Na escola, pouca gente sabia o que era jiu-jitsu. A turma achava que o negócio era caratê, por causa dos filmes do Van Damme e do Karatê Kid.

O Grande Mestre que muitos achavam ultrapassado

Aqui está a parte que eu achei mais forte da conversa. Segundo o Gui, nos últimos 20 ou 30 anos de vida, Hélio Gracie era visto por muita gente como ultrapassado, inclusive dentro da família. O Brasil, disse ele, valoriza quem está na crista da onda, quem está ganhando campeonato ou vale-tudo, e o Hélio virou o velhinho que ninguém tratava como referência técnica.

O pai dos Valente alertou os filhos contra isso. Por isso, conta o Gui, os irmãos nunca largaram o Grande Mestre. Nas aulas de grupo, nos anos 1980, o treino já era esportivo, começando de joelhos, porque a turma toda competia. A defesa pessoal ficava para as aulas particulares com o Hélio, que os irmãos tiveram o privilégio de fazer.

“Ele me ensinou a montar a cavalo, me ensinou a dirigir, me ensinou a fazer pequenas obras.”

Guilherme Valente, no Pura Connection · 0:17:22

O Gui também lembra de uma história que o Hélio achava engraçada: em três ocasiões da vida, pessoas espiritualizadas disseram a ele que ele tinha sido um samurai em vidas passadas. Para o Gui, isso combinava com o estilo do mestre, muito oriental na disciplina, na higiene, na limpeza dos quimonos e na organização da aula.

O currículo que o Hélio corrigiu até aprovar

A academia nos Estados Unidos nunca foi plano. Segundo o Gui, o irmão Pedro começou dando treino num clube da Universidade de Miami só para não parar de treinar, passou por um galpão e a coisa foi crescendo. Quando começaram a dar aula de verdade, sentiram que o modelo tradicional de aula de grupo não era o que eles tinham aprendido.

O Gui conta que o Hélio não estava contente com o jiu-jitsu que eles ensinavam. Os irmãos deram toda abertura para o mestre corrigir e mudar o que quisesse, até que o Pedro montou um currículo que o Hélio finalmente aprovou. A partir daí, segundo o Gui, o Grande Mestre passou a mandar gente olhar o que os meninos estavam fazendo em Miami: sistema de graduação para crianças, currículo de defesa pessoal e aulas de grupo. O pai dos Valente, além de médico do Hélio, era o melhor amigo dele.

“Nós vimos o Hélio Gracie dar aulas até os últimos dias da sua vida.”

Guilherme Valente, no Pura Connection · 0:23:07

O Gui lembra que o Hélio gostava de ver a turma dos filhos fazendo ginástica antes das lutas, mas depois perguntava quantos eram e mandava lutar com todos. Ele liga isso a um princípio que estudou na ciência do exercício: quem quer lutar bem no chão tem de lutar muito no chão. Por isso os Valente dão aula o dia inteiro, e ele diz que às vezes dorme na academia.

Jiu-jitsu tratado como artesanato

Formado em administração esportiva nos Estados Unidos, com mestrado em marketing, o Gui não esconde que entende de negócio. Mesmo assim, ele diz que trata o jiu-jitsu como artesanato, com a relação entre aluno e professor no centro. Por isso a aula particular é, para ele, o coração de uma academia nesse modelo. Nela o professor vira confidente, e às vezes a aula parece quase uma sessão de terapia.

A frase que ele carrega veio do pai. Anos atrás, vendo o filho focado demais em números e gráficos, o pai disse que, se era para ser empresário de academia, melhor fazer outra coisa e ganhar mais dinheiro. O lugar dele era no tatame, de quimono, suando com os alunos. O retorno, segundo o pai, viria no respeito e nas amizades.

“O jiu-jitsu é para você estar no tatame de quimono, treinando, suando com os alunos.”

Guilherme Valente, no Pura Connection · 0:35:48

Sobre o segredo da academia, o Gui repete a resposta do irmão Pedro: trabalho, trabalho e trabalho.

Do Iraque às forças especiais americanas

O trecho mais inesperado da conversa foi a viagem ao Iraque. O Gui conta que foi em 2007, junto com Rener e o irmão dele, Ryron, a convite de um general do exército americano. Ficaram três semanas, receberam colete à prova de bala e capacete, pousaram num avião militar fazendo manobra em parafuso e, segundo ele, treinaram mais de mil soldados de vários países, inclusive em palácios de Saddam Hussein tomados pelas forças americanas.

Hoje, conta o Gui, os irmãos Pedro e Joaquim também visitam bases, e a família trabalha há dez anos com uma das forças especiais mais importantes da Marinha americana, além de polícias. Eles treinam com operadores de capacete, colete e às vezes armados. Os Valente ainda fazem relatórios com estatística das finalizações, raspagens e quedas que alunos policiais, bombeiros e médicos de emergência usaram de verdade.

A confusão entre defesa pessoal e treino parado

O apresentador lembrou que Fábio Gurgel questionou se quem treina só defesa pessoal aguenta a hora da verdade. O Gui respondeu que existe uma grande confusão: muita gente acha que defesa pessoal é aquele programa quase parado, mão no ombro, aluno em câmera lenta. Para ele, isso é só uma parte da educação do aluno. Na academia deles tem treino de luta, com a diferença de que o aluno treina pensando que o outro pode dar um soco, uma cotovelada ou sacar uma faca.

“Numa briga de rua, é inteligente você virar de quatro para o cara não marcar os pontos?”

Guilherme Valente, no Pura Connection · 0:55:48

Ele citou Xande Ribeiro, que se mudou de Manaus para o Rio cedo e cresceu treinando com os irmãos, e Lyoto Machida, que segundo o Gui saberia explicar bem a importância do kata. Na visão dele, lutar campeonato para provar a eficiência de uma arte marcial não faz sentido, porque futebol americano e boxe também têm situações parecidas com uma briga.

O que fica da conversa é uma defesa aberta de quem veio antes. O Gui pede que se valorize Carlos e Hélio, mas também Jorge Gracie, os japoneses e os alunos de Maeda que ensinaram no Brasil. Para ele, o jiu-jitsu brasileiro é o jeito brasileiro de praticar uma luta japonesa, como o futebol brasileiro é o jeito brasileiro de jogar um esporte que veio de fora. E quem passou a vida no tatame deve isso à história.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.