Pular para o conteúdo

Pura Connection · Francisco Mansur

Francisco Mansur fugiu de casa aos 13 anos para conhecer Hélio Gracie

Um dos poucos faixas-pretas que Hélio formou fora da família conta como virou quase um filho do mestre e por que se tornou o pioneiro do jiu-jitsu para crianças.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 set 2022 (1:20:01).

Aos 13 anos, com um folheto da Aeronáutica na mão e o pai dizendo não, Francisco Mansur fugiu de casa, no interior de Minas. Pegou carona num caminhão até São Paulo, embarcou num ônibus noturno para o Rio e foi direto para a Avenida Rio Branco, 151, 13º andar. Queria conhecer o homem de quem o pai falava o tempo todo: Hélio Gracie.

Assisti à conversa do mestre Mansur no Pura Connection e saí com a sensação de ter ouvido uma testemunha ocular da história do jiu-jitsu. Ele fala do Hélio com a voz embargada, conta histórias que eu nunca tinha ouvido e não esconde a opinião.

“A verdade é que quem criou o jiu-jitsu brasileiro foi o Hélio Gracie, e eu sou testemunha disso.”

Francisco Mansur, no Pura Connection · 0:35:58

O pai que treinava sobre sacos de farinha

O jiu-jitsu chegou antes do Hélio na vida do Mansur. Ele contou que o pai, um empresário de transporte de caminhão, ia toda semana ao Rio buscar carga e tinha aula particular com o Hélio. Voltava para casa e repetia tudo com os empregados, em cima de sacos de farinha cobertos por uma lona de caminhão. Virou, nas palavras do filho, um professor de faixa-branca.

Em 1947, aos 8 anos, o Mansur apanhava na escola de um garoto grandão que todo mundo chamava de Neném. Quis voltar para a roça. O pai disse que não precisava: ia ensinar a ele uma coisa que faria ninguém mais bater nele. Foi a primeira vez que o menino ouviu a palavra jiu-jitsu. Depois de poucas aulas, o Neném veio de novo, os dois disputaram uma varinha de bambu e o Mansur aplicou o pé na barriga que o pai ensinava, jogando o grandão por cima. Levou castigo da professora, mas virou o herói da garotada.

"Que bobagem, sou um homem igual a outro qualquer"

Na academia da Rio Branco, o Mansur ficou deslumbrado com o pé-direito de três metros e as paredes de espelho. A secretária mandou esperar, e ele cochilou no sofá até ouvir uma voz autoritária. Era o Hélio. Segundo o Mansur, ele travou de emoção, e o mestre respondeu com um abraço.

“Que bobagem. Não existe isso, sou um homem igual a outro qualquer.”

Francisco Mansur, no Pura Connection · 0:43:28

A Aeronáutica não deu certo. Orgulhoso demais para voltar derrotado para casa, ele ficou no Rio. Contou que dormia num colchonete no depósito de uma cantina de clube, onde nadava, e que foi ali, subindo uma escada, que encontrou um japonês de cabeça branca dando aula de judô. Começou a treinar e virou faixa-preta de judô. A aproximação definitiva com o Hélio veio depois, e virou uma amizade para a vida toda.

“Foi meu segundo pai.”

Francisco Mansur, no Pura Connection · 0:39:35

Segundo o Mansur, quando ele morava nos Estados Unidos, os dois se falavam duas ou três vezes por semana ao telefone, e sempre que vinha ao Rio ia direto para a casa do Hélio.

O Hélio que o Mansur conheceu

As histórias sobre o mestre são o melhor da entrevista. O Mansur contou que o Hélio foi uma criança doente, que desmaiava à toa. Os médicos disseram que ele viveria oito meses e, depois, que não passaria dos 18 anos. Um amigo cardiologista comentou com o Mansur que devia ser um problema na válvula mitral. O Hélio viveu até os 95 para 96 anos, pesando uns 60 quilos e enfrentando os monstros da academia.

Ele lembrou da luta contra o Kimura, que tinha prometido dar o título ao Hélio se ele aguentasse três minutos. O Hélio aguentou bem mais, até o Carlos jogar a toalha para salvar o braço do irmão. Segundo o Mansur, o Hélio disse a ele depois:

“Eu não ia bater. Eu não ia dar esse gostinho para ele.”

Francisco Mansur, no Pura Connection · 0:38:34

Tem também o lado humano. O Mansur, que se considerava um grande passador de guarda, contou que só conseguiu passar a guarda do Hélio quando o mestre tinha 85 anos, e na hora se arrependeu. E contou que o Hélio não conseguia fazer uma barra, e ele o levantava pelas pernas de brincadeira. A história mais divertida é de trânsito: o Hélio deu uma fechada num sujeito grandão na Rio Branco, o cara desceu gritando, e o mestre, calmo, entregou o cartão oferecendo pagar o prejuízo. Quando leu "Hélio Gracie", o homem desmaiou, e eles tiveram que puxá-lo para a calçada.

O Mansur também defendeu o Carlos como o criador da dieta que o Hélio e toda a turma seguiam, e disse que segue até hoje, sem misturar carboidratos. Para ele, o Carlos era um filósofo e um visionário.

Seis faixas-pretas fora da família

Uma das revelações mais interessantes é sobre as primeiras graduações. Segundo o Mansur, o Hélio deu faixa-preta a seis pessoas de fora da família, entre elas João Alberto Barreto, Hélio Vígio, Pedro Valente, Armando Wriedt e ele próprio, e a 16 da família, somando 22 faixas-pretas originais. Ele sabe porque foi quem mandou fazer os diplomas: arrumou uma pessoa de caligrafia bonita para escrever os nomes e entregou um por um.

Ele contou ainda que, como presidente da federação, deu a faixa-vermelha de nono grau a Oswaldo Fadda. A justificativa: sem o Fadda, o pessoal da Gracie não teria tido com quem lutar nos primeiros torneios.

O pioneiro do jiu-jitsu infantil

Por causa da própria infância, o Mansur sempre achou que criança tinha que aprender jiu-jitsu. O Hélio, no começo, achou loucura e perigoso. Mandou o Mansur mostrar o programa ao Rickson. Em 1965, ele abriu a academia Kioto e começou a dar aula para crianças, indo às escolas junto com os alunos para resolver qualquer problema.

O resultado, segundo ele, foram 19 anos sem perder um campeonato infantil no Rio, 650 crianças matriculadas, um segundo andar construído para caber todo mundo, 102 faixas-pretas formados direto e 314 na linhagem. O próprio Hélio, contou o Mansur, chegou a dizer numa reunião da família que quem quisesse filho bom de jiu-jitsu devia levar para a academia dele.

“Eu acredito que o futuro do jiu-jitsu está na mão das crianças.”

Francisco Mansur, no Pura Connection · 1:17:36

Mesmo com tanta história nas costas, o Mansur segue estudando: disse que tem mais de 200 estrangulamentos no programa dele e que desenvolveu uma defesa própria para eles. E deixa um recado para quem só pensa em competição.

“Faixa-preta que não sabe defesa pessoal, para mim, não é faixa-preta.”

Francisco Mansur, no Pura Connection · 0:00:31

O que fica é o retrato de um menino que fugiu de casa atrás de um herói e acabou virando parte da história dele. Poucas pessoas vivas podem contar o Hélio assim, de perto.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.