Connect Cast · Pedro Valente
Pedro Valente revela o método de Hélio Gracie e o seu maior discípulo
Criado quase dentro da casa do Grande Mestre, o professor de Miami contou como eram as 36 aulas da Rio Branco, por que Carlson foi o aluno mais testado e o que Hélio disse antes de Royce enfrentar Matt Hughes.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 16 out 2023 (3:27:13).
O primeiro lugar onde Pedro Valente dormiu fora de casa, aos cinco anos, foi a casa de Hélio Gracie. Ele chamava o mestre de tio Hélio, passou um fim de semana com ele e com a tia Margarida, e dali em diante cresceu dentro da família. No Connect Cast, o professor que comanda com os irmãos a academia Valente Brothers, em Miami, abriu esse baú de memórias por mais de três horas.
Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi o detalhe. O Pedro fala do jiu-jitsu da academia da Avenida Rio Branco como quem esteve lá, e em boa parte esteve: o avô e o pai treinaram diretamente com os irmãos Carlos e Hélio, e ele passou a vida ouvindo o Hélio na mesa de jantar. Separei o que ele contou sobre o método de ensino, sobre a briga com o judô japonês, sobre o Carlson e sobre a última lição que viu o mestre dar.
“A maior contribuição do Hélio Gracie, na minha opinião, é o método de ensino.”
Pedro Valente, no Connect Cast · 1:33:19
Uma família que entrou na academia em 1953
A ligação começa com o avô do Pedro, um cearense que veio ao Rio estudar medicina e ouviu de um colega japonês as primeiras histórias sobre as lutas do Japão. Segundo o Pedro, o pai dele treinava judô na academia do Cordeiro, mas vivia se metendo em briga na escola por causa do sobrenome. Magrinho, apanhava. O avô então levou o menino para a academia Gracie, e o Pedro diz ter guardada a ficha de inscrição, datada de 27 de abril de 1953.
O primeiro professor do pai foi João Alberto Barreto. O Pedro contou que, depois de poucas aulas, o próprio João Alberto organizou uma revanche com o garoto que tinha batido no pai dele, e dessa vez o pai venceu. Mais tarde, como vice-presidente médico do Vasco, o pai conseguiu levar a academia para a sede náutica do clube na Lagoa, na época em que Rickson começava a atrair alunos.
O Pedro também fez questão de lembrar de onde veio a dieta. Segundo ele, Mitsuyo Maeda já escrevia sobre alimentação, sem fumo, sem bebida e com pouca carne, num livro de por volta de 1908 ou 1909, antes de chegar ao Brasil. Para ele, Carlos Gracie foi o aluno que melhor levou isso adiante.
As 36 aulas da Rio Branco
Aqui está o coração da entrevista. O curso da academia Gracie tinha 36 aulas particulares. Na primeira, o aluno aprendia cinco técnicas; na segunda, revisava as cinco e aprendia mais quatro; depois vinham três por aula e, lá pelo fim, duas. Toda aula revisava tudo o que veio antes. A primeira técnica era a defesa de estrangulamento com as duas mãos no pescoço. Segundo o Pedro, quatro técnicas de cada aula eram em pé e só uma no chão, porque a briga começa em pé.
O Pedro descreveu a organização como coisa de academia de luxo, em plena década de 1950. O aluno pegava a ficha na secretaria, recebia na rouparia um kimono limpo, toalha, sabonete e sandália, e cada passo era anotado com horário. Se o aluno esperasse, o professor atrasado era multado. Ele contou que ministros faziam reunião na sala de espera. Os cinco professores diplomados, segundo o Pedro, eram João Alberto Barreto, Armando Wriedt, Hélio Vígio, Carlson e Robson Gracie.
As faixas também eram outras. Segundo o Pedro, lutador usava faixa branca, porque o Hélio dizia que lutador não tem faixa, tem tempo. Quem fazia o curso de professor usava azul-clara e, depois de sete anos dando aula, recebia o diploma com a faixa azul-marinho, a mesma dos irmãos Gracie. Ele e os irmãos usam essa faixa até hoje, em homenagem.
O Hélio achava que esse método só funcionava em aula individual. Em Miami, com o galpão cheio, o Pedro ouviu dele que existia um jeito coletivo, com até 20 alunos em fila, mas tão difícil que ninguém fazia. Ele tentou, o irmão Guilherme chegou em 1999 e achou a aula chata, e o pai mandou os filhos inventarem outra coisa. Saiu um programa de 27 aulas que o aluno pode começar em qualquer ponto, com 15 minutos de revisão. O Hélio chegou desconfiado, passou o programa em alunos que nunca tinham feito aula particular e mudou de ideia.
“Não é uma aula particular, óbvio, mas eu tô vendo jiu-jitsu.”
Hélio Gracie, no Connect Cast · 2:12:25
O primeiro faixa-preta de judô do Brasil
Uma das histórias que o Pedro disse achar que pouca gente sabe: segundo ele, o primeiro brasileiro a receber faixa-preta de judô foi o Hélio, numa cerimônia da Jendo, federação de lutas japonesas de São Paulo, por causa dos resultados contra faixas-pretas japoneses como Kimura. O Hélio, conta o Pedro, tinha muito orgulho dessa faixa.
“O primeiro brasileiro faixa-preta de judô foi o Hélio Gracie.”
Pedro Valente, no Connect Cast · 1:44:27
Na década de 1950, segundo o Pedro, veio o racha. Os japoneses queriam o judô como nome único, e os irmãos Gracie até pensaram em aceitar, desde que mantivessem as técnicas e o controle da federação. Não levaram. Ele contou que o Carlos chegou a chamar o Cordeiro de poltrão e a desafiá-lo. A saída foi fundar a Federação de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro, e daí veio o sistema de faixas coloridas e até a tese de que o jiu-jitsu vinha da Índia, que o Pedro considera sem fundamento. Na visão dele, a separação do Japão levou junto a filosofia, e o vazio foi ocupado pela cultura de praia e de festa que os Gracie antigos não aceitavam.
Carlson, o maior discípulo
O Pedro avisou que ia dizer uma coisa controversa. Para ele, quem mais bebeu da fonte do Hélio como lutador foi Carlson Gracie, primeiro filho de Carlos, que aprendeu direto com Carlos e Hélio, sem irmãos mais velhos ou primos para ensinar antes. Ele citou uma luta de vale-tudo do Carlson com Waldemar Santana, com chute, soco, queda e chão, e lembrou que o pai dele dizia que o Carlson foi o maior lutador que já viu.
“O maior discípulo do Hélio Gracie, quem mais bebeu da fonte para ser um lutador: Carlson Gracie.”
Pedro Valente, no Connect Cast · 0:57:17
Segundo o Pedro, a relação dos dois era difícil. O Carlson era competitivo e pouco disciplinado, montou uma academia voltada para a luta e ia à praia buscar os fortões para ganhar campeonato. Ele discorda de quem diz que o Carlson democratizou o jiu-jitsu contra um Hélio elitista, e lembrou que o próprio Waldemar Santana aprendeu de graça na academia Gracie.
Sobre Rolls, o Pedro contou que ele era filho de Carlos, mas chegou à casa do Hélio com quatro meses e foi criado com Rorion no mesmo quarto. Para ele, a ideia de que o Hélio favorecia o filho biológico não se sustenta. E sobre o Rorion, lembrou que não era o melhor lutador da família, tinha lesões sérias no joelho e no ombro, e ainda assim foi sozinho para os Estados Unidos desafiar kickboxers e caratecas.
O pai mais feliz do mundo
O Pedro esteve em Denver no primeiro UFC, ao lado do Rorion, de Royce e do Hélio. Mas a história que ele escolheu para falar da fé do mestre foi a do UFC 60, em Los Angeles, quando Royce enfrentou Matt Hughes. Sentado ao lado do Hélio na primeira fila, ouviu do mestre, nervoso, que qualquer resultado o deixaria feliz, porque ninguém recebe o que não merece e nada acontece por acaso.
“Pedrinho, eu sou o pai mais feliz do mundo.”
Hélio Gracie, no Connect Cast · 3:18:15
Depois da derrota, conta o Pedro, o Hélio viu um parente chutando a parede no vestiário e o chamou para dizer que ganhar e perder é normal. O Pedro também contou que o mestre acreditava em reencarnação e que passou pela morte do filho mais velho e do neto mais velho sem perder o jeito positivo.
É desse Hélio que o Pedro tira o código 753 que ensina em Miami: sete virtudes samurais para o espírito, cinco hábitos para o corpo e três para a mente. Fechei a entrevista com a sensação de ter ouvido alguém que aprendeu jiu-jitsu na sala de estar tanto quanto no tatame. O próprio Pedro resumiu dizendo que teve a sorte de conviver quase todo dia com um gênio.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.