Pura Connection · Vinicio Antony
Vinicio Antony conta como tirou Lyoto Machida de três nocautes seguidos
Técnico de Lyoto e de Vitor Belfort, o faixa-preta de karatê e jiu-jitsu explica o erro que via no jogo dos dois e por que a parceria terminou.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 29 jan 2021 (1:39:22).
Quando Lyoto Machida perdeu a terceira luta seguida por nocaute, Vinicio Antony não aguentou ficar calado. Mandou um e-mail dizendo que sabia o que ele estava fazendo de errado. Meia hora depois, segundo o Vinicio, o telefone tocou. Era o Lyoto, querendo saber o que era. A resposta foi um convite: passar duas semanas no Brasil treinando com ele, de graça.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e fiquei preso nessa história. O Vinicio é faixa-preta de karatê e de jiu-jitsu, trabalhou como técnico de Vitor Belfort e do Lyoto e fala de estratégia com uma segurança que impressiona. Segundo ele, depois daquelas duas semanas vieram quatro vitórias seguidas.
O erro que ele via no jogo de Lyoto
O Vinicio conta que conhece o Lyoto desde que o lutador tinha 8 anos. Durante oito anos, ele treinou a seleção brasileira de karatê, onde o pai do Lyoto era o técnico, e lembra do garoto sentado na beira do tatame vendo ele competir. As derrotas para Luke Rockhold, Yoel Romero e Derek Brunson, diz ele, doeram de perto.
O diagnóstico dele começa lá atrás, na primeira derrota para o Shogun. Na visão do Vinicio, o Lyoto passou a duvidar do próprio karatê, foi buscar a trocação do muay thai e se confundiu com a distância. O karatê dele era de controle de distância. O muay thai, de encurtar e trocar. Ele nunca chegou ao mesmo nível na trocação e, ao parar de treinar o fundamento, perdeu o que fazia de melhor.
“A espada, se você parar de afiar, perde o fio.”
Vinicio Antony, no Pura Connection · 1:24:05
Na primeira semana no Brasil, segundo o Vinicio, o Lyoto apanhou dos parceiros de treino e ficou bolado. Na segunda, começou a entender os detalhes. Ele pediu um ano e meio para colocar o lutador na melhor forma da vida. No meio do ajuste, veio a proposta do evento do UFC em Belém contra Eryk Anders, que estava invicto. O Lyoto não queria, achava cedo, mas aceitou.
Quatro vitórias e as previsões
O Vinicio conta que previu as lutas uma a uma. Contra o Anders, vitória por pontos. Contra o Vitor Belfort, um chute na cara, porque ele diz que sabia onde estava a brecha do Vitor. Na estreia no Bellator, contra Rafael Carvalho, vitória por pontos com quedas. Em seguida, ele passou um ano e meio a dois anos com o Lyoto, indo para Los Angeles e ficando seis semanas inteiras na mesma casa que o lutador, cuidando de alimentação, treino físico, técnica e cabeça.
O desgaste veio com o sucesso. Segundo o Vinicio, depois da quarta vitória, o Lyoto e o irmão disseram que achavam o treino pesado demais. A dúvida, na palavra dele a coisa mais corrosiva que existe, se instalou. Na luta seguinte, conta ele, o Lyoto travou, e os dois se separaram para não estragar a amizade.
Vitor Belfort, do Leblon ao Pride
A ligação com o Vitor é mais antiga. O Vinicio conta que se conheceram no Leblon, quando ele tinha uns 27 ou 28 anos e o Vitor, 17 ou 18. O garoto já perguntava tudo sobre chute. Quando o Vitor aceitou lutar no Pride contra Heath Herring, que tinha base de karatê e vinha ganhando de todo mundo, ligou pedindo ajuda. O Vinicio montou a estratégia e ensinou o Vitor a chutar, com uma ideia simples: para defender um golpe, é preciso saber como ele acontece. O Vitor venceu.
Ele diz que depois foram oito anos assim, com o Vitor vindo ao Brasil para treinar estratégia antes das lutas. Numa fase ruim, o Vitor pediu ajuda de novo, e na luta seguinte nocauteou Dan Henderson com um golpe só. Na outra, segundo o Vinicio, o Vitor não fez nada do que foi combinado, perdeu, e os dois se desentenderam.
“Quando está perdendo, é o cara mais humilde do mundo. Quando está ganhando, sobe nas tamancas.”
Vinicio Antony, no Pura Connection · 1:15:44
Jiu-jitsu, judô e o que se perdeu
Boa parte da conversa foi sobre a origem das artes marciais, e aqui o jiu-jitsu aparece forte. Segundo o Vinicio, Carlos Gracie aprendeu com Mitsuyo Maeda, um judoca aluno de Jigoro Kano, numa época em que judô e jiu-jitsu ainda eram a mesma coisa, com soco, chute, queda e chão. Ele conta que o judô depois tirou os golpes e priorizou as quedas para virar esporte olímpico, e que o Carlos teria ficado com a defesa pessoal.
O Vinicio também treinou luta livre na Budokan, no Estácio, com gente como Marco Ruas, Hugo Duarte e Eugênio Tadeu, e diz que foi ali que percebeu que muita coisa do karatê não funcionava na hora da briga. Isso o levou a estudar livros antigos. Num de 1922, de um dos precursores do karatê, achou um capítulo inteiro de quedas.
Ele cita uma frase que atribui a Rickson Gracie: o maior respeito que você pode ter pelo adversário é o quanto você treina. E conta a história de Flávio Canto, que, segundo ele, ganhou o ouro no Pan-Americano depois de passar semanas sem treinar por causa do joelho, assistindo em vídeo a todos os adversários.
O que fica
Sobre defesa pessoal, o conselho dele é direto. O Vinicio conta que trabalhou com o Grumec, o grupo de mergulhadores de combate, e com agentes penitenciários, ensinando desarme. Mesmo assim, para a pessoa comum, ele diz: se você não tem treino específico, não tente tirar a arma de ninguém. Entregue o relógio, a carteira e o carro, e mostre submissão com o corpo.
Saí da conversa com a impressão de que o Vinicio é um técnico de ajuste fino. Ele pega o lutador em baixa, acha o detalhe que se perdeu e cobra disciplina. O preço, pelo que ele mesmo conta, é a relação com atletas que já foram campeões e nem sempre aceitam ser contrariados.
“Na vitória você não aprende nada. Você aprende na derrota.”
Vinicio Antony, no Pura Connection · 1:18:52
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.