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Pura Connection · Flávio Canto

Flávio Canto: regras do judô e do jiu-jitsu formam lutadores pela metade

O medalhista olímpico conta como cresceu treinando chão com a turma do jiu-jitsu no Rio e por que desistiu de competir no kimono aos 19 anos.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 10 jan 2022 (1:14:00).

Flávio Canto acha que as regras estragam os dois lados do tatame. Para o medalhista olímpico, o judô deixa um lutador fraco no chão ganhar medalha, e o jiu-jitsu deixa um lutador fraco em pé virar campeão mundial. As duas modalidades têm praticamente as mesmas técnicas, e cada uma abre mão de metade delas.

“A regra do judô permite que um cara ruim de chão seja medalhista olímpico. Da mesma maneira, a regra do jiu-jitsu permite que um cara muito ruim em pé seja campeão mundial.”

Flávio Canto, no Pura Connection · 0:21:04

Assisti à conversa dele com o André no Pura Connection, gravada no dia de Natal. Flávio é judoca, mas passou a juventude rolando com a turma do jiu-jitsu no Rio, chegou a competir no kimono e hoje comanda o Instituto Reação, onde os dois times treinam juntos. Poucos caras têm tanta autoridade para falar da fronteira entre as duas lutas.

Um judoca criado no chão

Flávio contou que começou no judô para se defender. Ele apanhou na escola e passou um ano sofrendo. Em 1988, viu Aurélio Miguel ser campeão olímpico. O técnico do Aurélio, Geraldo, dava aula numa escolinha a cinco minutos da casa dele, na Barra. Ele começou a treinar no começo de 1989, com 13 para 14 anos.

O Geraldo, segundo o Flávio, tinha um treino fora do padrão de qualquer academia de judô do Brasil. Segunda e quarta eram só de chão. O professor tinha passado alguns meses no Japão no começo da carreira, viu que o chão de lá era muito diferente do daqui e trouxe essa cultura. Também dava aula de defesa pessoal para a polícia havia 40 anos, e levava o Flávio, com 17 anos, para lutar com os oficiais na prova de fim de ano.

O outro nome decisivo foi Paulo Caruso. Com 16 anos, faixa-roxa de judô, Flávio enfrentou o Paulo, já faixa-preta e casca-grossa, numa final por equipes, e jogou ele de ippon logo no começo. No dia seguinte, pediu para treinar com o Paulo na academia dele e levou a pior no chão.

“Nunca apanhei assim. Eu quero aprender com esse cara.”

Flávio Canto, no Pura Connection · 0:15:23

Dali, contou ele, nasceu uma relação para a vida inteira. O Paulo era pioneiro da preparação física, e o Flávio foi o primeiro atleta preparado por ele. Nas férias, os dois chegavam a treinar seis horas por dia: areia, ginástica olímpica, musculação e técnica.

A Suíça das academias

Flávio diz que teve o privilégio do contexto. Ele cresceu numa época em que praticamente não havia jiu-jitsu em São Paulo e todos os melhores estavam no Rio. O pessoal do jiu-jitsu queria melhorar em pé, e a turma do judô dele tinha um chão bom. O resultado foi uma academia onde todo mundo aparecia.

“A gente era meio que a Suíça: todas as academias se encontravam lá.”

Flávio Canto, no Pura Connection · 0:18:30

Segundo ele, a cultura de treino do judô ajudou a manter a paz. No jiu-jitsu da época, conta, ganhar no treino virava assunto, e vencer alguém de outra academia rendia conversa no dia seguinte. No judô, treino sempre foi treino: o que importava era a competição. Então ninguém ligava para quem finalizou quem.

Ele citou Shaolin entre os melhores amigos que fez na luta. Os dois treinaram juntos por muitos anos e combinavam aulas trocadas: um dia um ensinava, no outro, o outro. Na conversa, o André ainda contou que Roger Gracie tinha dito a ele que sempre ouviu falar do Flávio e tinha muita vontade de treinar com ele.

Por que parou de competir no kimono

Flávio competiu no jiu-jitsu com 19 anos, no Estadual e no Brasileiro. Segundo ele, ganhou muita luta só com queda, inclusive de caras que tinham um jiu-jitsu melhor que o dele: os adversários ficavam tensos no começo da luta, que começava em pé. No fim daquele ano, ainda faixa-marrom de judô, entrou na seleção brasileira, e o foco passou a ser a Olimpíada. Ele também lembra que as confederações não gostavam muito da mistura.

Tem um detalhe que achei inteligente. Flávio percebeu que, sem competir no jiu-jitsu, deixava de ser ameaça para os campeões do kimono, e isso abria portas. Todo mundo queria treinar com ele, porque ninguém ia enfrentá-lo num campeonato depois.

Ele reconhece uma falha na própria formação: as chaves de pé. Cresceu num ambiente de preconceito com elas no jiu-jitsu, e no judô elas não valiam. Contou que num seminário ouviu que atacava só metade do corpo e concordou. Se fosse atleta hoje, diz, essa seria uma missão para ele, ainda mais no sem kimono, onde não há onde segurar para se defender. Na conversa, os dois citaram John Danaher, treinador de Gordon Ryan, e a lógica dele de que metade do corpo do adversário é perna.

O melhor chão do mundo no quintal

A crítica mais dura do Flávio vai para o próprio judô brasileiro. Segundo ele, quando ia ao Japão ouvia que lá estavam os mestres do chão, e constatava o contrário.

“O chão do Japão não estava à altura do chão que a gente tinha no jiu-jitsu aqui.”

Flávio Canto, no Pura Connection · 0:58:09

Para ele, é uma falha de método um país com o melhor chão do mundo não ter construído isso no judô. Ele contou o caso do Davi, número 1 do mundo no peso pesado, que foi à Califórnia treinar com André Galvão e Buchecha, voltou maravilhado, com a sensação de que tinha aquilo no quintal de casa. Hoje, no Reação, o Paulo Caruso cuida do jiu-jitsu, e a ideia é que a garotada, até certa idade, compita algumas vezes por ano na outra modalidade.

Ele também fez uma autocrítica. Buscou tanto a finalização que quase não treinou defesa: se alguém pegasse as costas dele, conta, ele tentaria sair na força. Mesmo assim, defende a atitude ofensiva como regra.

O que fica da conversa

Flávio fecha tudo numa ideia que atribui à cultura de Jigoro Kano: quem treina para se aperfeiçoar, e não só para ganhar campeonato, acaba se dando melhor no fim das contas.

“A gente não se aperfeiçoa para lutar, a gente luta para se aperfeiçoar.”

Flávio Canto, no Pura Connection · 0:21:35

Ele acha que o jiu-jitsu não precisa estar na Olimpíada e vê pouca chance de isso acontecer. E aponta o que o esporte tem de melhor: o calor humano brasileiro, o clima de família e camaradagem que, para ele, explica boa parte do sucesso do jiu-jitsu pelo mundo. O judô traz a disciplina e a hierarquia. No Reação, ele junta os dois e às vezes se pergunta se está sendo rigoroso demais com a turma do kimono.

O que fica para mim é a imagem de um judoca que nunca aceitou ser meio lutador. Ele passou a carreira buscando ser bom em pé, bom no chão e bom na transição, e quer que a molecada do Reação cresça do mesmo jeito.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.