Pura Connection · Robert Drysdale
Robert Drysdale alerta que o jiu-jitsu está trocando mérito por dinheiro
O campeão e historiador diz que promotores e influenciadores estão mudando a receita que Carlson Gracie criou e defende faixa difícil, medalha de verdade e combate real.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 6 abr 2026 (1:38:43).
Em 1975, o manual da federação de jiu-jitsu do Rio previa uma faixa-coral que pouca gente imagina hoje. Segundo Robert Drysdale, ela era destinada a quem estivesse representando "a honra e glória do jiu-jitsu dentro dos ringues", e a federação podia tomá-la de volta se o lutador parasse de vencer.
O Robert não sabe se a regra chegou a ser aplicada. Mas, para ele, o simples fato de estar no papel mostra onde estava a cabeça daquela geração: radicalmente meritocrática. E é esse espírito que, na visão dele, o jiu-jitsu está perdendo em 2026.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e saí com a sensação de ter ouvido um desabafo. O Robert diz que quase não se reconhece mais na comunidade, que já pensou em parar de dar entrevista e que se define como um dinossauro, enraizado numa época que não existe mais.
O cliente no comando
O diagnóstico dele começa na academia. Segundo o Robert, com a comercialização houve uma inversão: quem manda passou a ser o cliente, e ele faz questão de dizer que odeia essa palavra. Como o aluno paga, existe uma pressão velada para facilitar a aula, a faixa e a medalha. Ele lembra que, quando começou, em 1998, ninguém culpava o professor pela derrota. Quem fizesse isso com Carlson Gracie ia ser xingado e zoado pelos amigos.
Ele contou que tem aluno bravo com ele por não receber faixa. A resposta foi que estava segurando justamente porque gosta dele.
“Se todo mundo for faixa-preta, qual o valor da faixa-preta? O valor reside na dificuldade.”
Robert Drysdale, no Pura Connection · 0:24:41
O mesmo vale para os campeonatos infantis nos Estados Unidos. O Robert descreveu crianças que perdem três lutas e voltam para casa com três medalhas de bronze, com o pai tirando foto. Para ele, a infância é preparação para a vida adulta, e isso inclui aprender a perder. Uma medalha assim, disse, é de mentira.
A lição dos anos 30
O argumento mais forte da conversa vem da história. O Robert citou as pesquisas de Roberto Pedreira para contar que, na Grande Depressão, havia arenas na Califórnia com mais de 10 mil pessoas vendo luta de catch wrestling contra judô e jiu-jitsu. Segundo ele, o cenário de luta agarrada era mais profissional nos anos 30 do que é hoje.
O problema é o que veio depois. Os promotores assumiram a liderança, perceberam que o público não entendia luta agarrada e passaram a combinar resultados para vender ingresso. Daí, segundo o Robert, nasceu a luta livre de espetáculo que hoje se vê na televisão americana. Ele usa o caso para dizer que o entretenimento é uma ameaça à integridade do jiu-jitsu.
Lembrou também que Jigoro Kano deixou de usar o nome jujutsu justamente porque o termo estava associado a circo e luta profissional, e que Maeda teve problemas com a Kodokan por lutar profissionalmente. A definição que o Robert propõe no livro novo vai nessa linha: uma prática educacional que busca a verdade pela realidade do combate, com entretenimento e comércio como efeitos colaterais.
Na prática, ele aponta para os influenciadores. Segundo o Robert, gente que chegou ao jiu-jitsu ontem está dando forma à cultura porque domina o algoritmo, enquanto os faixas-vermelhas e corais ficam de fora. Ele costuma perguntar aos alunos se querem ser Roger Gracie ou Dillon Danis. Se seguidor medisse sucesso, disse, o segundo seria o maior grappler da história.
Carlson criou a receita, Carlinhos fez o forno
Quando o assunto vira a pergunta que ele acha mais interessante, por que o jiu-jitsu deu tão certo no Brasil, o Robert começa por Carlos Gracie. Na visão dele, foi a ambição do Carlos, a de criar um espaço para a família fora da hierarquia do judô, que deu início à história. Ele também corrigiu uma data que costuma circular, 1925: segundo ele, a academia Gracie é de dezembro de 1931.
Depois vem Hélio Gracie, que segundo o Robert sustentou a crença por décadas e foi muito corajoso ao enfrentar Waldemar Santana, um aluno mais novo e mais pesado, já perto dos 42 anos. E vem Rorion Gracie, que abriu a porta para o mundo com o UFC. Sem ele, acredita o Robert, a arte teria ficado restrita à Zona Sul.
Mas quem ganha mais espaço na fala dele é Carlson. Segundo o Robert, foi Carlson quem levou o espírito brincalhão de Copacabana para o tatame: chegar atrasado, resenha, bagunça. Isso, somado à rivalidade de Carlson com Rolls Gracie, fez o jiu-jitsu brasileiro passar o judô kosen em técnica. Ele ainda lembrou que Carlson empatou com Ivan Gomes e que a luta dele com Waldemar, em 1956, é tecnicamente mais sofisticada que o UFC de 1993.
“O Carlson e o Rolls criam a receita do bolo. Mas quem cria o forno pro bolo crescer? Carlos Gracie Júnior.”
Robert Drysdale, no Pura Connection · 1:28:09
A referência é à organização que veio com a confederação em 1994. O Robert disse que discute com americanos que desdenham desse papel e lembra de árbitro comendo pizza no tatame antes disso.
O campeão que não sabe brigar
A regra de 1975 também explica, segundo o Robert, por que o jiu-jitsu virou uma arte de chão. Até então a pontuação da academia equilibrava queda e chão, como no judô antes da guerra. A regra nova deu quatro pontos para montada e costas e dois para queda, influenciada pelo vale-tudo em ringue, com rounds longos e sem voltar em pé.
Aquela geração tinha preocupação com a realidade da luta. O Robert citou um relato de Royler Gracie: o Hélio o corrigiu numa guarda moderna porque ela não funcionaria numa briga. Hoje, diz ele, isso se perdeu. Ele contou de um campeão mundial, que não quis nomear, que admite em público que provavelmente apanharia numa briga de rua.
“Eu prefiro ser um banana no jiu-jitsu de competição que sabe brigar se precisar do que um cara várias vezes campeão mundial que fala uma coisa dessa em público.”
Robert Drysdale, no Pura Connection · 1:32:51
O que fica
O Robert admite as próprias contradições. Diz que é dono de academia nos Estados Unidos e que esse conflito grita com ele todo dia. Contou também que mudou de ideia desde os dois primeiros livros: antes achava que quem não buscava um Mundial de faixa-preta não pertencia ao jiu-jitsu. Hoje vê avós competindo no Master e pessoas com depressão ou autismo na academia, e reconhece que a guerra delas é outra.
O que ele não abre mão é da dificuldade. Para o Robert, o jiu-jitsu tem de ser difícil dentro da capacidade de cada um, porque é a dificuldade que dá valor à faixa, à medalha e ao próprio treino. Concordando ou não, é raro ouvir alguém com a vivência dele dizer isso com tanta clareza.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.