Connect Cast · Pedro Valente
Pedro Valente diz que judô é jiu-jitsu rebatizado e defende Hélio Gracie
No Connect Cast, o professor de Miami contou o que pesquisou no Japão sobre Jigoro Kano, Tanabe e Maeda, e respondeu quem diz que Hélio não sabia lutar.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 19 mar 2025 (2:38:41).
A briga sobre quem veio primeiro, o judô ou o jiu-jitsu, aparece em toda conversa de academia. Pedro Valente tem uma resposta curta para ela: judô é jiu-jitsu. Na visão dele, Jigoro Kano pegou uma luta que já existia no Japão, organizou, criou regras novas e trocou o nome. Foi o que ele chamou de rebranding.
“Judô é jiu-jitsu. Esse é o problema, ou essa é a solução.”
Pedro Valente, no Connect Cast · 0:09:26
Assisti à conversa inteira dele no Connect Cast, gravada no Rio, e ela vai bem além dessa frase. O Pedro contou o que achou na viagem de pesquisa que fez ao Japão em agosto de 2024, falou de um mestre japonês que resistiu à Kodokan, de Mitsuyo Maeda e de Carlos Gracie, e passou um bom tempo respondendo quem diz que Hélio Gracie não era bom de luta. Vou contar por partes.
O judô como rebranding do jiu-jitsu
Segundo o Pedro, Kano nasceu em 1860, começou a treinar jiu-jitsu ainda adolescente e fundou a Kodokan em 1882. Ele diz que Kano foi um grande mestre e que admira o trabalho dele. Mesmo assim, para o Pedro, Kano deu um nome novo ao que já existia, e durante anos os dois nomes foram usados como sinônimos, judô no Japão e jiu-jitsu no Ocidente.
“O Jigoro Kano simplesmente deu um novo nome para aquilo que já existia.”
Pedro Valente, no Connect Cast · 0:09:57
A mudança real, ele explica, veio das regras. Kano se inspirou no wrestling europeu e passou a dar vitória por queda e por imobilização, o ippon. Antes disso, segundo o Pedro, as lutas de jiu-jitsu começavam em pé e terminavam no chão com uma finalização. E quando o praticante treina para vencer dentro de uma regra, a luta muda com o tempo.
Ele contou também um episódio que tirou dos diários do médico alemão Erwin Bälz, que dava aula na Universidade de Tóquio. Bälz levou o mestre Totsuka e seus alunos para uma demonstração na universidade e escreveu que eles derrotaram com facilidade Kano e os alunos dele. Para o Pedro, isso mostra que já havia academias fortes de luta no Japão antes da Kodokan.
E por que o nome jiu-jitsu sumiu? O Pedro diz que a Kodokan, com muita força política, trouxe os professores de jiu-jitsu para dentro da federação de judô, primeiro no Japão e depois no mundo. Um nome novo era mais fácil de controlar, algo parecido com registrar uma marca. No Brasil, segundo ele, os irmãos Gracie aceitavam usar o nome judô se tivessem controle da federação e das regras. Não tiveram, continuaram com o jiu-jitsu, e foi assim que o nome sobreviveu aqui.
Tanabe, Maeda e a luta que termina no chão
O personagem que mais aparece na fala do Pedro é Mataemon Tanabe, que ele descreve como a figura central da resistência à Kodokan. Tanabe acreditava que a luta se decidia no chão e enfrentava lutadores da Kodokan em desafios. O Pedro conta que recebeu de um pesquisador japonês a autobiografia de Tanabe, que nunca foi publicada, e que um professor universitário no Japão se espantou por ele ter o texto.
Nessa autobiografia, segundo o Pedro, Tanabe conta que Sakujiro Yokoyama, superintendente da Kodokan, o convidou para dar aula na polícia de Tóquio. Ele recusou para não virar judoca por dívida de gratidão. O mesmo Yokoyama, segundo um relato de jornal dos anos 1930 citado pelo Pedro, foi o professor principal de Maeda.
Aí entra a ligação com o Brasil. Segundo o Pedro, Maeda saiu do Japão em 1904 com Tsunejiro Tomita, o primeiro faixa-preta da Kodokan, que em Nova York chamou o jiu-jitsu de primitivo e selvagem. Maeda se separou dele, passou a usar o nome jiu-jitsu, deu aula na Inglaterra na mesma academia de Taro Miyake, discípulo de Tanabe, e abriu no Brasil uma academia de jiu-jitsu.
O Pedro lembra que Miyake publicou na Inglaterra, em 1906, o livro The Game of Ju-jitsu, onde está escrito que a luta começa em pé, cai no chão e continua até alguém finalizar. Ele deixa claro que não tem como provar se os Gracie leram o livro ou se Maeda ensinou assim. Mesmo assim, afirma que o modelo dos Gracie se parecia mais com o de Tanabe do que com o da Kodokan.
“Os Gracie lutavam até pegar, nunca aceitaram o ippon por queda.”
Pedro Valente, no Connect Cast · 2:22:51
Hélio Gracie era bom de briga?
O apresentador provocou com a crítica que sempre aparece: Hélio seria bom professor e divulgador, mas fraco de luta. O Pedro respondeu com a carreira. Segundo ele, Hélio foi um adolescente magro, que desmaiou no primeiro treino e passou uma parte da juventude praticamente abandonado, morando no alojamento dos remadores do Botafogo. Depois de 1930, quando Carlos voltou de São Paulo e abriu a academia no Flamengo, Hélio voltou a treinar e em pouco tempo já fazia desafios.
Aí vem a lista. Com 18 para 19 anos, segundo o Pedro, Hélio fez uma luta de quase duas horas com o americano Fred Ebert, bem mais pesado. Empatou com Wladek Zbyszko, que tinha finalizado Jorge Gracie. Finalizou no estrangulamento Kato, quinto dan da Kodokan. E fez duas lutas empatadas com Ono, que teria dito que nunca tinha visto uma guarda assim e que preferia lutar com o Jorge.
“Por que ninguém venceu ele naquela década de 30?”
Pedro Valente, no Connect Cast · 1:07:37
Para o Pedro, o único que venceu Hélio foi Kimura, já nos anos 1950, quando Hélio voltava de uma aposentadoria. Ele admite, por outro lado, que muitas histórias da família foram aumentadas, como o tamanho de Waldemar Santana, que segundo ele não passava de 80 kg. E ri de quem diz que Hélio era forte: ele pesava entre 63 e 67 kg e era fraco comparado aos adversários. O próprio Hélio, segundo o Pedro, exagerava a fraqueza e dava o crédito ao método.
“Eu sou ignorante, eu não sei nada. Bom é o jiu-jitsu.”
Hélio Gracie, no Connect Cast · 1:46:05
Sobre a ideia de que o jiu-jitsu de competição é criação de Carlson Gracie, o Pedro diz ser grande admirador dele e lembra que Carlson teve mais lutas de vale-tudo que Rickson e Rolls. Mas, segundo ele, Carlson aprendeu a colocar os alunos para lutar entre si com Carlos e Hélio, que faziam isso com os irmãos. E o primeiro presidente da federação foi Hélio.
Carlos Gracie aprendeu com Maeda?
O Pedro também rebateu quem diz que Carlos nunca teve aula com Maeda. Segundo ele, um jornal de Belém mostra Carlos e Donato Pires dos Reis numa apresentação com Maeda presente, chamados de alunos de Jacyntho Ferro, o principal aluno de Maeda e professor da academia dele. Para o Pedro, ser aluno de Jacyntho na academia de Maeda é ser aluno de Maeda.
Ele acrescenta que Carlos contou essa história dos anos 1920 até morrer, e que ninguém desmentiu na época. Nem Yano, rival dos Gracie, que lutou com Hélio e dava aula na academia de Maeda, e que segundo o Pedro chamava Carlos de discípulo de Maeda. Na opinião dele, quem contesta um relato de quase cem anos é quem precisa provar.
A filosofia que se perdeu
A conversa começou e terminou na filosofia. Para o Pedro, os irmãos Gracie usavam o jiu-jitsu para formar campeões da vida, com alimentação regrada, disciplina e horror à covardia. Ele diz que isso se perdeu nos anos 1970 e 1980, quando o objetivo virou ganhar campeonato, e que nos anos 1990 veio o pior momento, com os pit boys no Rio. Contou que Hélio foi ao programa do Faustão condenar essas brigas e que o pai dele, Pedro Valente, escreveu um artigo sobre isso no Jornal do Brasil em 1995.
Ele também separa o jiu-jitsu esportivo da defesa pessoal. Técnicas como puxar para a guarda ou ficar de quatro, diz, servem para competição e não funcionam numa briga. E cita uma frase de Carlson que eu não conhecia.
“Depois de um soco na cara, o faixa-preta vira faixa-marrom.”
Carlson Gracie, no Connect Cast · 1:25:02
O que fica da entrevista é um Pedro que dá crédito a Kano, diz que treinou judô desde a infância e que é grato a ele, mas acha que a propaganda do judô tratou o jiu-jitsu como vilão por um século. Para ele, sem Kano não haveria os Gracie, e sem os Gracie ninguém estaria discutindo nada disso hoje. Ele termina pedindo que quem achar erro na fala dele avise, porque gosta de corrigir.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.