Pura Connection · Bebeo Duarte
Bebeo Duarte revela bastidores de Carlson Gracie e da Brazilian Top Team
Do vestiário tenso no Pride à luta de Wallid contra Royce, o homem do corner conta o que viu por dentro.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 20 jul 2026 (1:30:42).
Bebeo Duarte passou a vida no corner. Foi um dos líderes da Brazilian Top Team, ao lado de Murilo Bustamante e Zé Mário Sperry, e antes disso cresceu na academia de Carlson Gracie. Assisti à conversa dele no Pura Connection e saí com a sensação de ter ouvido uma aula de história contada por quem estava lá dentro, sem filtro.
A equipe nasceu de uma ruptura. Segundo o Bebeo, em 2000 o Carlson expulsou todo mundo. Eles tentaram de todas as formas reverter, mas não teve conversa. A saída foi fazer o que sabiam: dividiram as funções e montaram a Brazilian Top Team.
“O Carlson não nos deu outra opção.”
Bebeo Duarte, no Pura Connection · 1:28:33
O dia em que Zé Mário ignorou a estratégia
O André abriu lembrando a derrota de Zé Mário para o Ninja no Pride. O Bebeo estava no corner e contou que a estratégia era simples: encurtar, levar para o chão e bater. Segundo ele, o Zé Mário vinha treinando muay thai com o Luiz Alves e quis ganhar em pé.
Na hora de botar o protetor na boca, o Zé virou para ele e disse que ia sair na porrada. No fim do primeiro round, sentou no banquinho e avisou que estava vendo tudo dobrado, mas ia até o fim.
“Não tenho joystick, né? A vontade é dele.”
Bebeo Duarte, no Pura Connection · 0:02:34
O pior veio depois. A BTT e a Chute Boxe eram rivais, os vestiários ficavam lado a lado e, segundo o Bebeo, o outro lado provocou de um jeito que incomodou muito. Ele contou que teve de correr atrás do Rudimar Fedrigo, que estava entrando com o Wanderlei para outra luta, e pedir que ele acalmasse a turma dele. Ele próprio estava com vontade de brigar, mas sabia que a conta ia cair nele.
A escola do Carlson
O Bebeo começou no jiu-jitsu com uns 17, 18 anos, porque o irmão de um amigo, faixa-preta do Carlson, mandou a turma parar de fazer besteira e ir treinar. Começou na academia que dividia horários entre Carlinhos e Carlson, na época em que Rolls Gracie tinha acabado de morrer. No primeiro campeonato, ainda pelo Carlinhos, fez a final do absoluto faixa-azul contra o Murilo.
Quando o Carlinhos foi para a Barra, ficou longe. Um dia, sem treino de judô por falta de luz, pegou a moto e bateu na porta do Carlson. Daí em diante não saiu mais. Segundo ele, dizem que foi o primeiro a trocar de lado, antes de existir termo para isso.
Ele descreveu o Carlson como único. Tirava de cada aluno coisas que nem o aluno sabia que era capaz, às vezes no esporro, mas quase sempre no jeito de cobrar. Queria competição saudável para subir o nível, preparava os alunos para ganhar de qualquer um, inclusive dos sobrinhos, mas nunca incentivou briga de rua contra a família. E, segundo o Bebeo, andava por Copacabana perguntando a porteiros se tinham filho. Se o menino fosse bom, não pagava.
Tinha também suas manias. O Carlson não queria que os alunos fizessem musculação. Em Los Angeles, contou o Bebeo, eles iam malhar escondidos às onze da noite, porque se aparecessem cansados no treino das dez da manhã levavam esporro.
Royler, Zé Mário e Wallid contra Royce
Duas histórias mostram a rivalidade com outros ramos da família. Na primeira, o Zé Mário estava machucado e pediu para não ser inscrito no absoluto. Na hora da inscrição, segundo o Bebeo, o Royler olhou a lista e disse que o Zé tinha corrido. O Bebeo desceu, encontrou o Zé Mário com a namorada, contou e voltou correndo para inscrevê-lo. O Zé entrou só para enfrentar o Royler, venceu com um relógio e saiu do campeonato.
A segunda é a luta de Wallid Ismail contra Royce Gracie. O Bebeo contou que o lado do Royce recebeu uma lista com Zé Mário, Murilo, Libório e outros, e que o Wallid, sem avisar ninguém, disse que lutava de qualquer jeito. A turma ficou chateada e quase ninguém quis ajudar. Quem treinou o Wallid, segundo o Bebeo, foi ele com os alunos, a pedido do Carlson, que estava nos Estados Unidos.
Na luta, quando o Royce virou de quatro, o Bebeo disse que soube na hora que tinha acabado, porque o Wallid pegava todo mundo naquela posição. Contou que o Rorion entrou mancando para tirar o irmão e que aquela vitória levou o Wallid a morar dois anos em Los Angeles.
Uma luta só, e o gosto pelo corner
O Bebeo fez uma única luta de vale-tudo, de propósito. Ele disse que não conseguia ensinar o que nunca tinha sentido. Enfrentou um adversário chamado Sombra da Noite, cortou o cabelo no dia da luta e levou três socos que abriram a cabeça. Achou ótimo. Confirmou que rendia mais no corner do que lutando.
Ele também deu crédito à geração anterior do Carlson, gente como Peixotinho, seu ídolo, e Pinduca, que subiu o nível para a turma dele chegar. E contou uma história de vida: conheceu a esposa dando aula na academia de De La Riva. Estão casados há 33 anos.
“Tudo que aconteceu na minha vida, todas as conquistas que eu tive, foi por conta do jiu-jitsu.”
Bebeo Duarte, no Pura Connection · 1:23:19
Aos 62 anos, ele ainda treina pelo menos três vezes por semana e sai do treino com vontade de voltar, como o Carlson ensinava. Ele se incomoda com faixa-preta dada a quem não sabe o básico e sente falta de mais disciplina nas academias. O que fica da entrevista é o retrato de uma época em que, segundo ele, o respeito se ganhava no tatame e quem não lutava não tinha voz.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.