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Pura Connection · Márcio Stambowsky

Márcio Stambowsky relembra Rolls Gracie e a rivalidade com Carlson

Aluno de Rolls da faixa-branca à preta, o mestre conta como era dividir a academia com Carlson Gracie, fala do filho Neiman e da vida dando aula nos Estados Unidos.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 10 out 2022 (0:59:04).

Tem gente que entra no jiu-jitsu por causa de uma luta, de um campeonato ou de um vídeo. O Márcio Stambowsky entrou por causa de uma pessoa: Rolls Gracie. Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me marcou foi o jeito como ele fala do mestre. Para o Márcio, o Rolls batia em todo mundo no treino e, mesmo assim, era o sujeito mais gentil da academia.

“Era um cara que batia em todo mundo, no bom sentido, mas sempre gentil, sempre educado, sempre do bem.”

Márcio Stambowsky, no Pura Connection · 0:07:25

Segundo ele, foi essa mistura de técnica e educação que o deixou fã da arte. Ele conta que o Rolls nunca foi o lutador marrento que finaliza e depois se gaba. Quando ganhava, dizia que tinha sido sorte. E o aluno olhava aquilo e pensava: quero ser assim também.

Como o jiu-jitsu entrou na vida do Márcio

O começo foi quase uma brincadeira. O Márcio contou que, lá pelos 15 anos, gostava de brincar de briga com um amigo. Ele era fã de Bruce Lee e já tinha feito judô. Um dia esse amigo começou a agarrar e ele simplesmente não conseguia sair. Quando perguntou o que era aquilo, ouviu: jiu-jitsu.

O pai dele tinha um amigo que indicou a academia dos Gracie. O Márcio chegou lá, encontrou o Rolls logo na porta, começou a conversar e foi convidado a conhecer a academia inteira. Ele resume assim: deu muita sorte de ter entrado com o Rolls.

Ele foi aluno do Rolls do começo ao fim. Segundo o próprio Márcio, a primeira faixa e a faixa-preta vieram das mãos do mesmo professor.

Dois andares, duas turmas e muita rivalidade

Uma das partes mais interessantes da conversa é a descrição da academia naquela época. O Rolls e o Carlson dividiam o mesmo espaço, que tinha dois andares. Embaixo ficavam a secretaria e duas salas pequenas, mais usadas para aula particular. Em cima, a sala grande.

Pelo que o Márcio contou, a escala funcionava assim: segunda, quarta e sexta, o Rolls dava aula na sala grande e o Carlson ficava nas salinhas de baixo. Terça e quinta, invertia. Em época de competição, as turmas se esbarravam, e aí o treino pegava fogo.

Ele admite que, no início, o Carlson implicava um pouco com ele. A explicação que dá é que representava bem o lado do Rolls. Com o tempo, os dois viraram grandes amigos, e o Carlson chegou a convidá-lo para ser juiz. Para o Márcio, essa rivalidade foi fantástica, porque um puxava o outro e o jiu-jitsu inteiro evoluiu com isso.

“Eu acho que essa rivalidade foi fantástica.”

Márcio Stambowsky, no Pura Connection · 0:12:24

O Rolls fora do tatame

O Márcio lembra que o Rolls morreu muito novo, com uns 30 anos. Ele descreve o mestre como alguém de cabeça aberta, à frente do tempo, talentoso em tudo o que fazia e ligado a outros esportes. E arrisca uma leitura: talvez a própria autoconfiança tenha contribuído para a morte, porque o Rolls não tinha medo de nada.

Tem também umas histórias leves. O Márcio contou que a primeira vez que tomou açaí foi pelas mãos do Rolls, e que o pai dele já fazia a bebida. Na visão do Márcio, a família Gracie ajudou a espalhar o açaí porque as pessoas viam aqueles caras tomando e queriam tomar também.

Outra lembrança é a do Rio Morto, em Vargem Grande. Segundo ele, depois do treino a turma pegava o carro, amarrava uma corda e esquiava de prancha no rio, puxada pelo fusquinha. Ele vê naquilo o começo de um movimento de esportes radicais do Rio que o jiu-jitsu levou junto para o mundo.

Depois do Rolls: vários professores e uma bandeira só

Com a morte do Rolls, o Márcio passou por vários lugares. Ele contou que ficou um tempo com o Carlinhos, depois foi treinar com o Rickson. Quando o Rickson se mudou para os Estados Unidos, voltou para o Carlson, já faixa-preta. Também treinou com o Carlinhos de novo, com o Jean Jacques, com o De La Riva e com o Pinduca.

Ele conta que, logo no começo, um aluno disse que ele precisava escolher uma bandeira. A resposta ficou: a bandeira dele é o jiu-jitsu. Por isso, diz, considera amigos os alunos de todas essas equipes.

“Minha bandeira é o jiu-jitsu e pronto.”

Márcio Stambowsky, no Pura Connection · 0:15:32

O Márcio também lembrou que, na academia do Rolls, quando aparecia alguém de fora para desafiar, ele era o primeiro a entrar no confere. Se desse problema, o mestre entraria, mas segundo ele nem precisava.

Na mesma conversa, o apresentador lembrou de um papo com o Hugo Duarte, que disse nunca ter visto alguém tão valente quanto o Hélio Gracie, no dia em que um grupo invadiu a academia para marcar a segunda luta com o Rickson.

Neiman, o filho que queria lutar no Japão

O Márcio é casado com a Carla Gracie e tem dois filhos, a Débora e o Neiman. Ele fala dos dois com orgulho. A Débora é sócia dele e, segundo o pai, grande professora e administradora de academia.

O Neiman foi para os Estados Unidos antes do pai. O Márcio contou que o Carlinhos perguntou à mulher dele se o garoto tinha passaporte, visto e se falava inglês, e levou o moleque com 16 ou 17 anos. Seis meses depois o Márcio também se mudou. O Neiman ficou quase um ano com o Carlinhos e depois foi treinar com o pai.

A história do primeiro dia é boa. Havia na academia um faixa-marrom que, nas palavras do Márcio, fazia bullying com os outros alunos e todo mundo tinha medo dele. O Neiman chegou, chamou o cara para treinar e o finalizou dez vezes. A partir dali, todo mundo se apaixonou pelo garoto. Depois ele passou um tempo com o Renzo.

O pai conta que o Neiman dizia desde os cinco anos que queria ser campeão de MMA e lutar no Japão, porque via os tios, como o Renzo e o Royce. O Márcio confessa que preferia ver o filho professor e ficava receoso. Até que um dia o Neiman chegou dizendo que já tinha empresário, luta marcada e contrato assinado.

E tem a cena que mais me fez rir. Há poucos dias, na Califórnia, o Márcio foi mostrar uma posição ao filho, fez uma força enorme e ouviu a bronca.

“Pai, você está esquecendo a filosofia do jiu-jitsu.”

Márcio Stambowsky, no Pura Connection · 0:47:39

A vida nos Estados Unidos e o jeito de dar aula

Antes do jiu-jitsu virar profissão, o Márcio passou mais de 20 anos empreendendo no Brasil. Ele contou que, quando o negócio ficou ruim, resolveu se dedicar só ao que amava, e se mudou para os Estados Unidos há 15 anos com a família. Hoje tem duas academias em sociedade com a filha, além de afiliados, e diz ensinar do jeito tradicional, como aprendeu.

Ele também falou de didática. Disse que o que mais melhorou o seu jiu-jitsu como professor foi dar aula para crianças de 3 a 6 anos, porque obriga a achar um jeito diferente de se comunicar com cada grupo. E sobre defesa pessoal, a primeira palavra que vem à cabeça dele é respeito, e só depois atenção.

O que fica da conversa é a imagem de um professor que ainda se cobra. Ele disse que o que o motiva é saber que a aula de amanhã pode ser melhor do que a de ontem. Para quem gosta de história do jiu-jitsu, vale pelo retrato do Rolls visto por dentro, de alguém que esteve lá do primeiro dia até a faixa-preta.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.