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Connect Cast · Crézio de Souza

Crézio de Souza venceu Renzo Gracie e foi o 1º adversário de Dan Henderson

O faixa-preta de Petrópolis contou como chegou à academia de Carlson Gracie, as lutas contra Renzo e a lesão no olho que encerrou a carreira.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 7 set 2023 (2:01:23).

Crézio de Souza passou quase dez anos sem perder no jiu-jitsu, ganhou duas vezes de Renzo Gracie e fez a última luta de vale-tudo da carreira contra um americano que estava estreando: Dan Henderson. Assisti à entrevista dele no Connect Cast e saí com a sensação de ter ouvido a história de uma época inteira da academia de Carlson Gracie, contada por quem estava no tatame.

Hoje com 60 anos e ainda dando aula em Petrópolis, o Crézio contou como chegou ao Carlson com a faixa-preta emprestada do pai, apanhou de um faixa-roxa e voltou mesmo assim. Falou também do lado apostador e generoso do mestre, das brigas que marcaram a época e da lesão no olho que tirou dele a revanche contra o Henderson.

A faixa do pai e os triângulos de um faixa-roxa

O Crézio começou no jiu-jitsu com quatro anos, na academia do pai, em Petrópolis. Segundo ele, o pai tinha sido atleta da academia de Hélio Gracie, e o filho cresceu ouvindo falar dos Gracie como se fossem deuses. Como o pai faltava muito, o Crézio passou a dar aula no lugar dele, usando a faixa-preta do pai.

Um aluno, garoto do Rio que estudava em colégio interno na serra, dizia ser afilhado da família Gracie. Ninguém acreditava, mas era verdade, e foi ele quem levou o Crézio à academia do Carlson. "Para mim era tudo Gracie", ele lembrou. Na época, Carlinhos Gracie ainda era sócio do Carlson e, pouco depois, saiu para montar a Gracie Barra.

O Crézio chegou com a faixa do pai na cintura, de olho no faixa-preta mais invocado da sala. O Carlson chamou um faixa-roxa magrinho e mandou ele passar a guarda. Não passou e, pelas contas dele, levou uns três triângulos.

“Dentro do ônibus eu vinha chorando. Eu não acreditei que tomei aquele pau de um faixa-roxa.”

Crézio de Souza, no Connect Cast · 0:06:18

Jurou que nunca mais vestiria o quimono, mas em casa a raiva virou teimosia. Voltou, apanhou de novo e só depois descobriu que ninguém passava a guarda daquele roxo: era Ricardo De La Riva. Os dois viraram amigos. Depois do treino, o Crézio almoçava na casa do De La Riva, dormia no sofá e voltava com ele para a academia.

O Carlson apostador e o treino sem relógio

Sobre o Carlson, o Crézio foi direto: era um apostador, gostava de apostar em tudo, inclusive rinha de galo. Numa das lutas do Crézio, sem que ele soubesse, o Carlson apostou um jantar com o próprio Hélio Gracie que um aluno do Hélio não passaria por ele. O Crézio ganhou e só ficou sabendo depois.

“Quando vieram me falar que ele apostou na minha luta com o Hélio Gracie, minha perna sumiu.”

Crézio de Souza, no Connect Cast · 0:15:05

O apresentador lembrou que Paulão Filho já tinha dito no programa que o Carlson quase não corrigia posição. O Crézio confirmou: o mestre ficava mais na recepção, olhando, e quem dava aula eram os faixas-pretas dele. O treino não tinha relógio. Durava até alguém pedir para parar, e pedir para parar era como bater. Rolas de 40 minutos, de uma hora, eram normais.

Segundo o Crézio, o Carlson também segurava o aluno muito tempo em cada faixa. Ele ficou três ou quatro anos de marrom, ganhou de todo mundo e ouviu que já era preto, mas que só poderia usar a faixa no fim do ano. Os mais antigos, com Amaury Bitetti à frente, insistiram para ele amarrar a preta na hora. O Carlson acabou dando o nó.

Da turma, o mais chato de treinar, nas palavras dele, era Wallid Ismail. O Wallid não aceitava parar e, se alguém o finalizasse, passava um mês na cola da pessoa querendo revanche. O Crézio contou, avisando que só ouviu de outros alunos, que o Wallid chegou a treinar com Murilo Bustamante para decidir quem era o mais técnico da equipe, e que o próximo da lista seria o próprio Crézio.

Duas vitórias sobre Renzo Gracie

A primeira vitória sobre o Renzo, segundo o Crézio, deixou o Gracie irritado, também porque o Carlson passou a luta gritando e provocando do lado do tatame. Foi nesse campeonato, pelo que ele contou, que o Wallid zoou tanto o Renzo que nasceu a rivalidade entre os dois. Durante um tempo, o Renzo encarava o Crézio em todo campeonato.

Na segunda luta, a chave tinha três atletas. O Renzo finalizou o Serginho, parceiro de treino do Crézio que dava trabalho a ele no dia a dia. O Crézio admitiu que tremeu. Foi um lutão: quase passou a guarda, quase montou, foi colocado por baixo, virou e ganhou por vantagem. No fim, o Renzo apertou a mão dele e chamou para beber.

“Treinei mais de um ano para tirar o troco. Tu conseguiu me vencer, parabéns, tu é bom mesmo.”

Renzo Gracie, no Connect Cast · 0:37:23

O Gracie que o Crézio queria mesmo enfrentar era Royler. Os dois chegaram a se esbarrar num clube em Petrópolis e combinaram de resolver num campeonato, mas o Royler lutava num peso mais baixo e as datas nunca bateram.

Vale-tudo para defender o jiu-jitsu

Pelo relato do Crézio, o vale-tudo na academia começou com o desafio que o Wallid fez à luta livre num programa de televisão, ao lado do Carlson. Vieram os treinos de tapa e soco, e quem ia lutar era proibido de bater: tinha que agarrar e levar para o chão.

Na porta da academia ficava uma foto de Johil de Oliveira desafiando qualquer Gracie do peso dele. O Crézio pediu a luta por cerca de um ano, até que surgiu o evento. Concentrou na casa de Zé Mário Sperry, que lutou na mesma noite, ouvindo a trilha de O Último dos Moicanos. No vestiário, o Royler foi desejar boa sorte, e Fábio Gurgel também apareceu para apertar a mão dele.

“Depois eu podia até lutar com ele no campeonato, mas se é para defender o jiu-jitsu, vai defender o jiu-jitsu.”

Crézio de Souza, no Connect Cast · 0:26:55

Deram a ele uma luva velha de caratê. O Johil viu, tirou as dele e foi para a trocação. O Crézio levou para o chão, e a luta, que ele chama de uma das mais bonitas da época, terminou com ele finalizando o Johil. Para ele, a grande diferença daquele tempo era o estilo contra estilo: o objetivo era agarrar, derrubar e finalizar. Contou ainda que, nos primeiros UFCs, lutador brasileiro de jiu-jitsu de fora da família não entrava, porque o evento servia para vender o jiu-jitsu Gracie.

Dan Henderson e o dedo no olho

O Crézio fez quatro ou cinco lutas de vale-tudo, e a última foi contra o Henderson. Ele tinha lutado pela seleção brasileira de wrestling e conseguiu derrubar o americano. Segundo ele, já tinha passado a guarda, montado e pegado as costas quando ficou com a cabeça presa na grade. Nunca tinha lutado em octógono e estava acostumado a sair pelas cordas. O juiz parou e mandou os dois ficarem em pé. O Crézio saiu do ringue revoltado, recusou recomeçar a luta e perdeu.

Pelo relato do Crézio, o lado do Henderson aceitou a revanche. Treinando para ela em Petrópolis, um aluno de uns 90 quilos empurrou o queixo dele e o dedo entrou no olho. Resultado: descolamento de retina. Foram quatro cirurgias em cinco anos, e quando ele pensou em voltar, o Henderson já era campeão.

“A minha luta contra o Henderson foi a primeira da vida dele e a minha última.”

Crézio de Souza, no Connect Cast · 1:49:24

O coração do Carlson e a explosão do jiu-jitsu

A parte que mais me tocou foi quando ele falou do Carlson fora do tatame. Segundo o Crézio, o mestre não cobrava mensalidade dele. Numa sexta, sem dinheiro nem para comer, o Crézio foi levado pelo Carlson para tomar açaí. No caminho, um morador de rua pediu ajuda e o Carlson deu todo o dinheiro que tinha. Na hora de pagar, quem acertou a conta foi o Crézio, com o dinheiro da passagem, e ele acabou dormindo na academia.

“Era um cara que tinha um coração muito bom.”

Crézio de Souza, no Connect Cast · 0:45:52

Para ele, o Carlson nasceu para morrer pobre, totalmente desapegado de dinheiro. Por isso mesmo, recusou o convite para ir com o mestre aos Estados Unidos: ele já era faixa-preta, e quem acabou indo foi Vitor Belfort, ainda faixa-azul. Quando Murilo e Zé Mário decidiram deixar o Carlson, o Crézio concordou que eles precisavam evoluir, mas ficou. Não quis abandonar o mestre.

O Crézio disse que teve sorte: chegou ao Carlson bem na hora em que o jiu-jitsu explodiu, com os grandes campeonatos patrocinados, tatame de palha e a elite do Rio assistindo quase em cima da luta. Fechou a conversa reclamando que a garotada de hoje não procura saber quem abriu esse caminho. Depois de ouvir essa história, dá para entender a bronca.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.