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Connect Cast · Crézio Chaves

Crézio Chaves, 90 anos, conta como Carlos Gracie o tirou da rua para lutar

Faixa-vermelha de Petrópolis lembra a derrota de Hélio para Waldemar Santana, as 120 lutas pagas e a amizade com Carlson Gracie.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 4 set 2023 (2:03:35).

Aos 90 anos, o grão-mestre Crézio Chaves chegou ao estúdio do Connect Cast andando sozinho, cantou samba antes da gravação e passou duas horas contando histórias de uma época em que o jiu-jitsu se provava no vale-tudo, de mão limpa, dentro do Maracanãzinho. Faixa-vermelha, ele treinou com Carlos Gracie e Hélio Gracie, fez as preliminares das lutas de Carlson Gracie e diz ter lutado umas 120 vezes.

Assisti à conversa inteira e a parte que mais me pegou foi a mais pessoal: segundo o Crézio, foi o Carlos Gracie quem o tirou de uma fase de depressão, deu casa, comida e um caminho dentro da luta. E ele faz questão de repetir: para ele, o maior dos Gracie foi o Carlos.

“Eu tenho a honra de dizer que um dos maiores lutadores de jiu-jitsu do mundo chama-se Carlos Gracie.”

Crézio Chaves, no Connect Cast · 0:22:33

Do circo à Marinha

A história começa longe do tatame. O Crézio contou que perdeu a mãe aos 3 anos, em Mossoró, que o pai foi para a Segunda Guerra Mundial e que ele cresceu praticamente sozinho, comendo o resto dos pratos dos tios e dormindo num buraco cavado na areia da praia. Com 5 anos já trabalhava em circo como acrobata. Ele lembra de ter visto a parceira de número, uma menina, morrer no picadeiro depois de escorregar no arame, e diz que nunca mais conseguiu voltar a um circo.

Da Bahia veio a capoeira: ele nadava atrás das moedas que os turistas jogavam na água até que alguém o levou para jogar com um mestre. Depois entrou na Marinha de Guerra, onde, segundo ele, o comandante Cândido da Costa Aragão era seu admirador. Foi lá que conheceu os Gracie. Ele contou que a Marinha escolheu oito homens entre milhares de fuzileiros para fazer o curso de jiu-jitsu e defesa pessoal com Hélio e Carlos, e que ele foi um dos escolhidos para aprender na academia e ajudar nas aulas do Hélio.

Com três meses de academia, o Hélio perguntou se ele topava lutar vale-tudo. Ele topou.

Carlos Gracie, o cérebro da família

Quando a Marinha o colocou para fora, depois da revolução, o Crézio disse que pensou em se matar. Ele contou que ficava numa ponte perto da Praça Mauá pensando em pular. O Carlos soube, mandou chamá-lo e fez as contas com ele: na Marinha ele ganhava 1 conto e 200; numa luta no Maracanãzinho, 10 contos. Segundo o Crézio, o Carlos ainda ofereceu para ele morar na casa dele na Urca, jantar e dormir lá, ou ficar na academia tocando violão, que a comida estaria garantida.

Por isso o carinho. Ele disse que outros chamavam o Carlos de pão-duro, mas que com ele o Carlos era um pai: deixava queijo catupiri e mel para ele comer à noite quando ficava na academia. E, na visão dele, o Carlos era quem pensava a luta, estudava o adversário e dizia ao Hélio por onde entrar.

“Quem era o top de linha dos Gracie era o Carlos. O cérebro da parada.”

Crézio Chaves, no Connect Cast · 0:57:12

Ele também contou que o Carlos o usava como filtro: quando alguém desafiava Robson Gracie, o Carlos respondia que o desafiante primeiro teria que vencer o Crézio. Segundo ele, o Robson quase não treinava, e o Carlos sabia disso. O Crézio adorou a regra, porque quanto mais lutava, mais ganhava.

A derrota de Hélio para Waldemar Santana

O Crézio estava no Maracanãzinho na luta entre Hélio e Waldemar Santana. Pela versão dele, o Waldemar saiu da academia depois da conversa de um apresentador de TV famoso, de quem ele não lembrou o nome, que prometeu montar uma academia para ele, e em seguida desafiou o antigo mestre. O Hélio, bem mais leve e mais velho, nunca recusava uma luta.

Segundo o Crézio, o Hélio começou batendo com raiva, montado, mas foi cansando. O Waldemar reagiu, acertou um chute na cabeça e o Hélio ficou encostado nas cordas. Ele contou que o Waldemar olhou para o juiz como quem diz que não ia bater num homem cambaleando, o juiz mandou continuar, e veio o chute final.

“Eu chorei para caramba. Foi um silêncio no Maracanãzinho.”

Crézio Chaves, no Connect Cast · 0:31:29

Depois, disse ele, veio o Carlson, que enfrentou o Waldemar várias vezes. O Crézio contou que fez a preliminar de todas as lutas do Carlson, ele como peso médio e o Carlson como pesado.

Cento e vinte lutas e nenhuma de graça

O Crézio calcula umas 120 lutas na carreira e mais de 60 adversários só no Rio de Janeiro. Ele citou o Maracanãzinho, o ginásio do Flamengo, o Monte Líbano, o Serrano e até ringues montados na praia de Copacabana. Segundo ele, havia luta toda semana, com bolsa de 7 mil para o vencedor e 3 mil para o perdedor. Ele situou essa fase por volta de 1956 e 1957.

“Eu nunca lutei de graça. Se eu quebrar um braço, ninguém vai pagar para mim.”

Crézio Chaves, no Connect Cast · 1:32:39

O adversário mais duro, segundo ele, foi Wilson de Vita, o Carbono. Foram cerca de 40 minutos de luta, e no dia seguinte, ao buscar o pagamento na sede da Gracie na Avenida Rio Branco, o Crézio encontrou o rival todo inchado e pediu desculpas. Numa outra luta, ele contou ter quebrado a clavícula no primeiro round; Hélio Vígio e João Alberto Barreto queriam jogar a toalha, ele não deixou e venceu no segundo round lutando só com o braço direito.

Ele ainda foi vice-campeão brasileiro de judô sem conhecer a regra (caiu de costas e não sabia que aquilo era ippon) e vice-campeão brasileiro de boxe, nocauteado na final em Copacabana. Rindo, disse que foi abraçar o adversário depois.

Sobre técnica, ele guardou uma lição do Hélio: a alavanca de Arquimedes. Com um ponto de apoio, cem quilos viram quase nada. O trabalho é tirar o apoio do adversário e usar o seu.

“A força de alavanca é a força técnica do jiu-jitsu.”

Crézio Chaves, no Connect Cast · 1:14:24

Carlson, Rickson e o filho Crezinho

O Crézio se descreveu como uma espécie de irmão mais velho do Carlson, que o ouvia muito. Ele lembra de um Carlson de alma boa e ingênuo, que guardava notas de 50 e de 100 embaixo do colchão e comia sem controle. Também disse ter carregado Rickson Gracie nas costas na praia, quando ele era pequeno, e que o Rickson virou uma fera.

Depois que a turma se espalhou, o Crézio já dava aula em Petrópolis, onde levou jiu-jitsu, capoeira, defesa pessoal e luta livre. Ele disse que o Carlson foi abandonado pelos alunos que mais ajudou e que o único que ficou foi o filho dele, Crézio de Souza, o Crezinho. Segundo o pai, o Carlson o fez usar faixa azul para provar o valor na academia, e o Crezinho foi vencendo todo mundo. O pai afirmou que o filho só não foi mais longe porque perdeu a visão de um olho depois de uma dedada.

Um desafio aos 90 anos

Perto do fim, o Crézio fez um desafio aberto, com testemunhas no estúdio: qualquer lutador a partir de 85 anos, de qualquer país e até mais pesado, pode vir tentar tirar o título dele. O plano, disse ele, é entrar para o livro dos recordes.

“O meu sonho é fazer uma luta antes de morrer.”

Crézio Chaves, no Connect Cast · 1:04:34

O que fica da entrevista é o retrato de um homem que viu de perto a geração que construiu o jiu-jitsu no Brasil e que, aos 90, ainda fala do Carlos Gracie como quem fala de um pai. Ele contou que prepara um documentário e quer lançar um livro com a história da vida dele. Pelo que ouvi, material não falta.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.