Pura Connection · Relson Gracie
Relson Gracie conta como deu aula ao FBI e ataca o jiu-jitsu de competição
Filho de Hélio Gracie, ele diz que a arte do pai nasceu para a rua e que a competição fez muita faixa-preta esquecer disso.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 8 set 2025 (1:06:46).
Relson Gracie chegou ao Pura Connection com um recado e repetiu até o último minuto: o jiu-jitsu foi feito para a rua. Filho de Hélio Gracie, ele diz que a arte criada pelo pai para o mais fraco vencer o mais forte foi deixada de lado pela competição, e que hoje tem faixa-preta que não sabe sair de uma gravata.
Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi a certeza com que ele fala. Com o joelho e o braço já sem condição de treinar, o Relson garante que ninguém consegue chutá-lo na rua. E, para mostrar que defesa pessoal funciona, contou como um aluno de 45 quilos deixou dois agentes federais americanos no chão.
“O jiu-jitsu foi criado para você se defender.”
Relson Gracie, no Pura Connection · 0:03:10
Para que o jiu-jitsu foi criado
Segundo o Relson, o jeito que o pai desenvolveu, lutando por baixo, contra gente mais pesada, pensando na situação de rua, é o coração do jiu-jitsu. Competir, para ele, é uma opção de quem já conhece a arte. O problema é que a ordem se inverteu. Ele cobra a federação: como um professor que não sabe tirar a mão do pescoço pode ser promovido a faixa-preta?
Quando o André perguntou por que o lado esportivo tomou conta, a resposta veio em duas partes. Primeiro, as regras: segundo o Relson, tiraram as regras do Hélio, botaram outras e o jiu-jitsu começou a machucar. Depois, o dinheiro. Patrocinador, televisão, campeonato que arrecada, fábrica de kimono, loja de tatame. Para ele, o garoto que nunca se defendeu entra numa academia sem defesa pessoal, começa a se embolar e passa a sonhar com Mundial, Abu Dhabi e fama.
“O jiu-jitsu hoje virou um mercado.”
Relson Gracie, no Pura Connection · 0:10:36
Ele lembrou como era o ensino na academia da família na Avenida Rio Branco. O curso de defesa pessoal tinha 36 aulas: umas 26 a 28 para ensinar tudo e o resto só de repetição. Cada aula começava repetindo as anteriores, então a primeira posição chegava a ser feita cem vezes até o fim do curso. É dessa repetição, segundo o Relson, que nasce o reflexo automático. Na associação dele, o aluno só começa a treinar livre depois de 15 aulas, quando já sabe montada, passagem de guarda e escapada das costas.
O dia em que ele envergonhou o FBI
A história mais saborosa da entrevista aconteceu nos Estados Unidos. O Relson conta que ensinava defesa pessoal para a polícia no Havaí e que alunos do Serviço Secreto o levaram para uma demonstração no FBI. Ele chamou um voluntário, um professor com mais de dois metros, e montou a cena: o agente protegia o presidente e alguém chegava por trás para matar os dois.
O Relson encostou só o dedo nas costas do homem, como se fosse um revólver. O agente reagiu sem olhar. Segundo o Relson, ali ele já tinha morrido, porque a outra mão estava com a arma de verdade.
“Regra número um na defesa pessoal: você não pode se defender da arma quando você não vê a arma.”
Relson Gracie, no Pura Connection · 0:41:50
Depois veio o segundo teste. Dois agentes, um deles com uns 95 quilos, tinham cinco minutos para algemar um aluno de 45 quilos sem bater nele. Quando faltavam dez segundos, contou o Relson, o garoto estrangulava um dos agentes enquanto o outro só conseguia puxar o braço dele para o colega não apagar. Ninguém foi algemado.
No dia seguinte, segundo ele, o FBI pediu que as aulas fossem na casa dele, já que a base era militar. Durante meses, segunda, quarta e sexta, das 7 às 9 da manhã, carros pretos lotavam a rua. Os vizinhos acharam que era coisa de máfia e chamaram a polícia, que ouviu dos agentes que aquela casa era área de treino do FBI e nunca mais apareceu.
Carlos, Hélio e a origem de tudo
A conversa também voltou às origens. Segundo o Relson, Carlos Gracie era 13 anos mais velho que Hélio e, com a separação dos pais, virou uma espécie de pai dos irmãos: abriu academia, arrumava dinheiro, pagava as contas. Hélio não conseguia levantar os adversários para as quedas que Carlos aprendeu e passou a resolver por baixo, estrangulando. Foi aí, diz o Relson, que nasceu o jiu-jitsu que o japonês nunca conheceu.
Um dia, contou, Carlos olhou para o irmão e disse que dali em diante Hélio cuidaria das aulas e ele cuidaria da saúde de Hélio. Carlos nunca mais vestiu o kimono e foi estudar alimentação, e daí saiu a dieta que a família segue até hoje. O Relson chama o tio de segundo pai e diz que ele morreu aos 94 anos com 96 netos, sem ter conhecido uns 30 deles.
Sobre a luta do pai contra Valdemar Santana, ele destaca as 3 horas e 45 minutos contra um aluno bem mais pesado e diz que Valdemar depois foi pedir desculpa a Hélio. Contou ainda que a primeira luta de Carlson Gracie foi justamente contra Valdemar, e que as últimas foram contra Ivan Gomes, um empate, e Euclides Pereira, quando Carlson quebrou o pé chutando. Em vez da revanche, Carlson e Ivan Gomes viraram sócios numa academia na Rua Toneleros.
O coach que vale metade da luta
O Relson diz que nunca lutou um campeonato sem o pai na beira do tatame. E conta que Hélio só gritava quando ele errava, nunca mandava passar a guarda ou finalizar: esperava acontecer. Para ele, o que Carlos foi para Hélio, ele foi para o filho Rhalan.
“O coach é 50% do campeão, porque tem hora que só o coach pode te ajudar.”
Relson Gracie, no Pura Connection · 0:29:17
Segundo o pai, Rhalan entrou no adulto aos 16 anos e fez 21 lutas com 21 finalizações. Numa delas, encaixou um triângulo, mas o adversário o levantou do chão e ficou sacudindo até ele cansar. O Relson gritou para ele respirar, o filho olhou para ver se era mesmo o pai, respirou e fechou o triângulo. Ele compara com Kron Gracie, que fez 18 lutas e 18 finalizações quando era orientado por Rickson.
Rua, UFC e o pisão do Royce
O Relson fala da rua com propriedade: diz que já levou facada, tiro e já pulou de carro. Na rua, lembra, não tem kimono, não tem categoria de peso e a briga precisa terminar rápido. Por isso ele se incomoda quando vê faixa-preta levando facada ou tiro por falta de noção de distância.
“Campeão de campeonato para mim não é campeão de rua não, senhor.”
Relson Gracie, no Pura Connection · 0:49:39
A crítica chega ao MMA. Para ele, o UFC de hoje mostra muita troca de golpes e pouca técnica. Ele lembra que Hélio escolheu Royce para o primeiro evento, embora Rickson estivesse louco para ir, e que o Relson mesmo não foi porque não lutava por dinheiro. O que Royce fazia, diz, era simples: pisão no joelho para o adversário não chutar, clinch e chão. Segundo o Relson, quase ninguém treina isso hoje.
Para mostrar que a idade não pesa, ele contou uma do pai. Com quase 70 anos, Hélio foi desafiado por um wrestler num programa de TV em São Paulo. Na semana seguinte, o homem veio correndo para a queda, Hélio deu um passo para o lado, montou e deu dois socos. No segundo, quebrou a mão, e a televisão parou a luta.
O que fica da entrevista é um Relson sem vontade de agradar ninguém. Ele sabe que muita gente fica com raiva quando ouve essas críticas. Mesmo assim, segue dando a primeira aula de cada turma com defesa contra soco, faca e revólver, e diz que o jiu-jitsu dele atende criança, mulher e gente de 70 anos. Concordando ou não, é difícil sair da conversa sem pensar na última vez que você treinou uma defesa de gravata em pé.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.