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Pura Connection · Robert Drysdale

Robert Drysdale critica o sindicato dos faixas-brancas no jiu-jitsu

O historiador e faixa-preta defende Carlos, Hélio e Carlson Gracie como os nomes centrais e critica o sindicato dos faixas-brancas.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 6 jan 2025 (1:21:38).

Robert Drysdale passou sete anos lendo e escrevendo sobre a origem do jiu-jitsu brasileiro, e voltou ao Rio com uma tese que irrita muita gente: Mitsuyo Maeda, o japonês que a história oficial coloca como professor de Carlos Gracie, teria pouca importância na formação da arte. Para ele, o professor documentado do Carlos foi um brasileiro, Jacyntho Ferro.

Assisti à conversa dele com o André no Pura Connection e fiquei impressionado com a segurança com que ele fala de fonte, documento e evidência. Ele sabe que é chamado de anti-Gracie e rejeita a acusação por inteiro. Ao longo de uma hora e vinte, quem sai maior da entrevista são justamente os Gracie: Carlos, Jorge, Hélio e, acima de todos, Carlson.

“Eu considero o Conde Koma uma nota de rodapé na história do jiu-jitsu no Brasil.”

Robert Drysdale, no Pura Connection · 0:07:55

Maeda, Jacyntho Ferro e a falta de provas

O Robert conta que começou a pesquisa por esse ponto porque, 15 anos atrás, qualquer praticante resumia a história do jiu-jitsu no Brasil a Maeda ensinando o Carlos. Segundo ele, Maeda formou cinco alunos no Brasil, com Jacyntho Ferro entre eles, e nenhum Gracie na lista. Que Maeda também tenha dado aula para o Carlos é possível, diz ele, mas história precisa de evidência, e as que aparecem são fracas.

Ele dá um exemplo. Takeo Yano disse em 1979 que o Carlos foi aluno de Maeda, falando de fatos que teriam acontecido entre 1916 e 1921. Só que, segundo o Robert, Yano chegou ao Brasil em 1934. Outro argumento comum, o de que o pai do Carlos era amigo de Maeda, também não convence: ele lembra que almoça toda semana com o melhor amigo em Las Vegas e o filho desse amigo não treina com ele.

O Robert repete que a posição dele é de método e não de política. Se amanhã aparecer um documento que ligue o Carlos a Maeda, diz ele, vira uma nota na segunda edição do livro e bola para frente. O que o incomoda é a figura central que Maeda ganhou. Ele descreve o japonês como um especialista em queda, um judoca tradicional, e diz que uma carta pessoal de Maeda deixa isso claro.

Carlos, Jorge e Hélio no lugar certo

“Carlos Gracie é o ponto de partida de tudo.”

Robert Drysdale, no Pura Connection · 0:19:12

Para o Robert, a grande contribuição do Carlos foi a ambição: um homem que seria líder de alguma coisa de qualquer jeito, e que resolveu levantar o nome da família fazendo um judô diferente dentro do judô. Ele também quer resgatar Jorge Gracie, que segundo ele foi o primeiro herói da família e o que mais lutou naquela geração, bem mais que o Hélio. Pelo relato do Robert, Jorge venceu Tico Soledade em 1933, na primeira luta de vale-tudo da história moderna. Ele conta que o filho do Jorge escreveu para agradecer por ajudar a resgatar a memória do pai.

Sobre o Hélio, o Robert é direto. Diz que é balela afirmar que ele inventou a guarda, porque judocas das décadas de 1920 e 1930 já faziam posições parecidas com a De La Riva e até berimbolo. O papel dele, na visão do Robert, foi outro: segurar o grupo unido durante o período de obscuridade que vai de 1951 a 1993, quando pouca gente sabia o que era jiu-jitsu. Ele também credita a Rorion a venda da arte para o exterior.

“Esses caras ficaram quatro décadas batendo na mesma tecla.”

Robert Drysdale, no Pura Connection · 0:21:47

A regra de 1975 e a academia do Carlson

A parte mais interessante da conversa, para mim, foi a leitura que ele faz das regras. Segundo o Robert, no campeonato interno da Academia Gracie de 1954 ainda havia ippon, waza-ari e ponto por segurar o adversário no chão por 30 segundos. Em 1967 a regra começa a pender para o chão. Em 1975 vem o pulo do gato: quatro pontos para montada e para as costas, três para o joelho na barriga, e o imobilizar do judô passa a ser punido. Na visão dele, isso mostra a influência do vale-tudo e explica por que o brasileiro ficou tão bom de posição, de passagem de guarda e de pegada de costas.

O outro personagem que ele coloca no centro é Carlson Gracie. O Robert conta que o jiu-jitsu sofre uma mudança radical quando o centro sai da Rio Branco e vai para a Figueiredo de Magalhães: aula em grupo, público popular, treino competitivo, confere e rinha. Segundo ele, Rolls copiou esse modelo. Ele lembra a frase do Carlson pedindo para não confundir Gracie Jiu-Jitsu com Carlson Gracie Jiu-Jitsu, e diz que o Carlson odiava mutuca porque coragem é o valor mais básico de um lutador.

O Robert também explica a origem da guarda de costas no chão. Nos anos 1980 havia taparia uma vez por semana, e ninguém queria ficar sentado para tomar tapa na orelha. A pressão para só treinar o que funcionasse na briga, diz ele, sumiu nos anos 1990 com a popularização.

O sindicato dos faixas-brancas

É daí que vem o título do episódio. Para o Robert, hoje o algoritmo das redes manda no jiu-jitsu, e ele brinca que existe um sindicato dos faixas-brancas: se não ganharem a faixa-azul, ameaçam sair, e o professor cede para não perder o negócio. Ele conta de um aluno que pediu a imagem da câmera de segurança para postar uma raspagem num faixa-azul, e compara com os anos 1980, quando nem se podia comentar o treino.

Ele diz que Joe Rogan virou o Elvis Presley do jiu-jitsu, com lado bom e ruim, e que depois de Rorion e Royce ninguém popularizou tanto a arte. Ainda assim, confia na Confederação como única saída de longo prazo e defende tratar os valores do tatame como dez mandamentos pregados na parede.

A maior exportação cultural do Brasil

O Robert fecha com uma ideia que achei bonita. Na visão dele, as técnicas já existiam no judô kosen, no catch wrestling e no sambo, e o que fez o jiu-jitsu brasileiro conquistar o mundo foi a cultura praiana da Zona Sul: chinelo, açaí depois do treino, abraço, ninguém gritando com quem chega atrasado. Ele conta que viu lutadores tomando açaí depois do treino na Chechênia, e que o polonês Adam Wardziński disse que a Polônia se apaixonou pelo jiu-jitsu para ficar um pouco mais perto desse estilo de vida.

“A cultura da Zona Sul viajou o mundo com o jiu-jitsu como veículo.”

Robert Drysdale, no Pura Connection · 0:55:26

Ele diz que o projeto custou dinheiro, amizades e portas fechadas, e que a recompensa foram amigos que procurou a vida toda. O pedido final é que ninguém use podcast como fonte definitiva: leia os livros de Roberto Pedreira, o de Reila Gracie, que ele leu três vezes, e os dele também. Numa das visitas ao Rio, contou, foi até a Figueiredo de Magalhães só para entrar no prédio onde Carlson e Rolls davam aula. Estava fechado.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.