Pura Connection · Rodrigo Comprido
Rodrigo Comprido conta os anos em que dividiu quarto com Carlson Gracie
O faixa-preta relembra a chegada aos Estados Unidos em 1996, o começo de Vitor Belfort e como levou o jiu-jitsu da Califórnia a Hong Kong.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 9 ago 2026 (1:58:41).
O Rodrigo Medeiros, o Comprido, desembarcou nos Estados Unidos em fevereiro de 1996 com 800 dólares no bolso e a ideia de passar um mês. Ficou 30 anos. No Pura Connection, ele contou que os primeiros dois anos e quatro meses foram vividos num quarto em Los Angeles, dormindo ao lado do Carlson Gracie.
Assisti à conversa e o que mais me pegou foi o tom. O Rodrigo fala do Carlson como um mestre que virou amigo, que ouvia música francesa com ele numa loja de discos e que chorou num show. Tem técnica, tem vale-tudo, mas tem muita vida no meio.
“Morei com o cara 2 anos e 4 meses, uma cama do lado da outra.”
Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 0:18:54
Do surf no Leblon à academia do Carlson
O Rodrigo nasceu no Leblon numa época em que, segundo ele, surfar fora do horário dava prancha apreendida e jogada num caminhão. Fez judô ainda criança, largou para surfar e só chegou ao jiu-jitsu aos 15 ou 16 anos, por causa do localismo nas praias. Ele contou que viu muita covardia na areia e quis aprender a se defender.
O primeiro professor morava no prédio dele: o Maneco, afilhado do Carlson, que, segundo o Rodrigo, treinava na academia do Carlson desde os 8 ou 9 anos. Foram três anos de aula com ele, e nas horas vagas o Rodrigo entrava também na aula do Cássio Cardoso. Quando o espaço acabou, o Maneco levou os alunos para a academia do Carlson.
Competir não estava nos planos. Mesmo assim, três meses depois de chegar, ele lutou a Copa Rolls Gracie de 1988, no Forte da Urca, e perdeu a final. Ele disse que quem o ensinou a competir foi o Bolão, e que na academia as aulas eram dadas por ele, pelo Marcelo Alonso e pelo Juninho. O Carlson aparecia de vez em quando, perto de campeonato, e mudava tudo com um ajuste.
“Ele tinha uma visão que poucos tinham, de chegar e te corrigir exatamente no ponto que você precisava, sem mudar o teu jogo.”
Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 1:05:34
Los Angeles, Hollywood e o primeiro Vitor
A ida aos Estados Unidos, segundo o Rodrigo, foi por acaso. O Vitor Belfort tinha sido aluno dele na Nova Geração, e foi o Rodrigo quem levou o garoto ao Carlson. Um ano antes, contou ele, os dois tentaram abrir academia em Los Angeles com um empresário que tinha fechado aula conjunta com o Marco Ruas. Eles não aceitaram e o Carlson voltou ao Brasil.
A segunda tentativa veio por um produtor de Hollywood, John Peters, que tinha ficado louco pelo UFC, estudou a família Gracie e bancou a academia do Carlson. O Rodrigo virou o professor e deu aula para atores, advogados e médicos. Ele contou que um dos alunos faixa-branca dessa época foi Joe Rogan.
Foi nesse período que ele presenciou uma cena que resume o Carlson. Antes da primeira luta do Vitor, ainda antes do UFC, meia hora antes de subir no ringue, o empresário apareceu no vestiário dizendo que o adversário, um grandalhão, só entraria se valesse tudo, inclusive dedo no olho.
“O Carlson falou: fala para ele que ele pode entrar com uma faca.”
Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 1:07:07
A família do Vitor se assustou, segundo o Rodrigo, mas o Carlson explicou que era jogo psicológico e manteve o plano. A luta durou menos de um minuto. O Rodrigo disse que essa confiança era o que o Carlson passava aos atletas, e que ele também falava na cara quando alguém não estava pronto para lutar.
Fora do tatame, os dois dividiam a paixão por música. O Rodrigo contou que o Carlson era fã de Yma Sumac, cantora peruana que ele achava que já tinha morrido. Quando viu o nome dela num panfleto da House of Blues, comprou dois ingressos e levou o mestre sem dizer aonde iam.
“O olho dele encheu d'água. É ela, ela está viva.”
Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 0:27:13
O Carlson que abriu o jiu-jitsu
Para o Rodrigo, o Carlson tem o mérito de ter democratizado o jiu-jitsu. Ele contou que, na academia do Carlson, uns 80% dos alunos não pagavam, enquanto quem podia, como ele, pagava todo mês. A outra face disso, segundo ele, é que o Carlson era lutador e treinador, sem preparo para administrar. A academia de Los Angeles fechou quando o investidor desistiu, depois de contratos perdidos e amassados no carro.
O Rodrigo lembrou ainda que o Carlson rejeitava posição que não funcionasse numa briga de verdade, e repetia uma brincadeira: o faixa-preta que toma o primeiro soco vira roxa, no segundo vira azul e no terceiro vira branca. Segundo ele, a faixa-preta veio em casa, no dia seguinte ao Pan-Americano de 1996.
San Diego, Europa e Hong Kong
Depois de Los Angeles, o Rodrigo passou dois anos indo e voltando para San Diego, dando aula numa academia de triatletas e dormindo no tatame ou no sofá de amigos. Em 2000 abriu a academia de Pacific Beach, a dois quarteirões da praia, onde está até hoje. Quando chegou, segundo ele, só havia o Fábio Santos dando aula na região. Hoje, diz, são mais de 150 academias.
O time dele foi seis vezes campeão nacional, mas o Rodrigo contou que chegou a ter 150 alunos com só 40 pagando. Largou a equipe de competição, perdeu metade dos alunos e não se arrepende: a academia virou um lugar de famílias e crianças. Ele também disse ter sido o primeiro faixa-preta a chegar à Grécia e à Eslováquia, e que em 2012 foi para Hong Kong, onde a academia em que trabalhava chegou a 2.200 alunos.
No fim, fica a imagem de um cara que se diz tradicional. Ele só dá faixa de kimono, não aceita desrespeito ao tatame e vê a chave de pé como americanização do jiu-jitsu, embora ensine o ataque e a defesa. Com 31 anos de faixa-preta, nas contas dele, e a coral prevista para o ano que vem, ele ainda compete no Master e não quer ser chamado de mestre.
“Meu jiu-jitsu vai ser sempre brasileiro.”
Rodrigo Comprido, no Pura Connection · 1:24:44
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.