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Connect Cast · Pinduca

Aluno de Carlson Gracie, Pinduka conta por que encarou Marco Ruas em 1984

Faixa-vermelha lembra a escada da Figueiredo Magalhães, os anos como assistente do Carlson e a briga de dez anos para levar o jiu-jitsu à universidade.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 20 jul 2023 (2:04:46).

Em 1984 não tinha bolsa, não tinha patrocínio e ninguém ganhava dinheiro dando aula de jiu-jitsu. Mesmo assim, Fernando Pinduka subiu num ringue para enfrentar Marco Ruas sem luva, representando a academia de Carlson Gracie. Assisti à conversa dele no Connect Cast e o que mais me pegou foi o motivo: ele se ofereceu sozinho, numa escada, sem saber direito o que ia acontecer.

O vídeo apresenta Pinduka como faixa-vermelha e aluno do Carlson. Na entrevista ele passa pela luta com o Ruas, pelos oito anos como assistente do mestre, pelo nascimento da Federação e por uma briga bem menos famosa, que durou quase dez anos: colocar o jiu-jitsu como disciplina num curso de educação física.

A conversa na escada

Segundo Pinduka, ele estava subindo para treinar quando encontrou o Carlson conversando com Robson Gracie sobre um desafio. Ele contou que ouviu o Robson cobrar o irmão: tantos anos dando aula e ninguém para representar a academia? Foi aí que ele se meteu na conversa.

“Eu tô aí, pode botar meu nome.”

Pinduca, no Connect Cast · 0:18:41

Pinduka lembrou que naquela época ele ganhava a vida com a própria academia de ginástica e musculação, aberta em 1979, logo depois de se formar em educação física. No jiu-jitsu ele era assistente do Carlson e, nas palavras dele, se tivesse que pagar pelo que aprendeu ainda sairia barato. Para ele, a luta com o Ruas foi uma forma de devolver isso.

“Mesmo que eu tivesse apanhado, arrebentado todo, eu estaria satisfeito, porque eu me doei. Eu fui lá retribuir.”

Pinduca, no Connect Cast · 0:20:24

Ele não entrou em detalhes sobre o resultado, e os apresentadores também preferiram não mexer nisso. Mais adiante, Pinduka comentou que o vale-tudo tinha ficado proibido por muitos anos no Rio de Janeiro e que, quando voltou, teve aquele evento no Maracanãzinho e depois uma revanche no Grajaú.

Oito anos como braço direito do Carlson

A história começa antes. Pinduka contou que chegou ao tatame aos 12 anos, pelas mãos de Hélio Vígio. Quando o Vígio seguiu carreira de delegado de polícia, chamou o pai do garoto e recomendou levá-lo para o Carlson. Aos 14 ele entrou na academia de Copacabana, ainda antes da mudança para a Figueiredo Magalhães, onde treinavam nomes como Sérgio Iris.

O treino, segundo ele, era pesado. Tinha atemi sem kimono, tapa na cara, exercício de dois contra um e três contra um com o parceiro de luva. Ele disse que apanhou muito, mas “com amor, com gosto”. E contou que o Carlson gostava de fazer uma espécie de rinha: sabia qual era o pior treino de cada um e colocava, por exemplo, Pinduka contra Rosado, emendando parceiros até alguém bater.

Ainda faixa-roxa, Pinduka foi chamado para ser assistente. O motivo surpreendeu os apresentadores: segundo ele, o Carlson era juiz de futebol, apitava o Campeonato Brasileiro e passava dias viajando. Precisava de alguém de confiança para os iniciantes e a turma dos garotos. Nessa turma estavam Amaury Bitetti e Murilo Bustamante, ainda faixas-amarelas. Pinduka dava aula das quatro e meia às sete e meia e depois treinava até as dez da noite, de 1976 a 1984.

Ele citou um relato do próprio Murilo, que teria dito que era um garoto inseguro, mas vinha de uma academia com Pinduka e Rosado e não podia se acovardar porque queria ser igual a eles.

A relação com o Carlson foi além do tatame. Pinduka contou que o mestre o tratava como filho e que, aos 17 anos, o levou a Teresópolis para conhecer o “tio Hélio”, Hélio Gracie. Lá ele também conheceu Carlos Gracie e ouviu as conversas entre os mais velhos.

“A minha relação com o Carlson começou fisicamente, depois passou a ser mental, e no final já era espiritual.”

Pinduca, no Connect Cast · 0:26:43

Quando só existiam duas faixas

Pinduka viu o jiu-jitsu virar esporte de federação. Segundo ele, a Federação foi criada por Hélio Gracie em 1967, mas o primeiro campeonato oficial só aconteceu em 1973. Antes disso havia só a faixa branca para os praticantes e a azul-marinho para os instrutores. Depois veio a hierarquia: branca, amarela, laranja e verde até os 16 anos, e azul, roxa, marrom e preta a partir daí.

Ele contou que lutou o primeiro campeonato infantojuvenil, até 15 anos, no Gurilândia, de faixa-verde, e venceu as quatro lutas. Depois ficou quatro anos na faixa-azul, até os 19. Segundo Pinduka, a Federação nasceu dos clubes dos primeiros alunos de Hélio: João Alberto Barreto, Francisco Mansur, Hélio Vígio e Pedro Hemetério.

Ele também lembrou como a regra mudou. A passagem de guarda valia dois pontos e passou para três. Puxar para a guarda chegou a custar ponto, porque a luta começava em pé e o objetivo era derrubar. Com o tempo a guarda deixou de ser só defesa, vieram os ataques e as raspagens, e o jogo ficou mais técnico para o lutador menor.

Dez anos de briga na universidade

Formado em educação física em 1978, Pinduka contou que tentou por quase dez anos colocar o jiu-jitsu na grade da Gama Filho. Um professor catedrático, que ele chama de Turbina, mandava sempre escrever mais. Segundo ele, a banca apontava recortes de jornal com tudo de negativo que se dizia sobre o jiu-jitsu, numa época de briga e vale-tudo.

O caminho abriu com o professor Pedro Gama Filho, que gostava de luta e leu o projeto. Pinduka deu uma palestra para os reitores, foi sabatinado e, duas semanas depois, recebeu a aprovação. Ele disse que deu a disciplina de 1994 a 2001. Pela Gama Filho, também foi mandado à Europa para seminários na Grécia, em Portugal, na Espanha e na França, onde, segundo ele, o jiu-jitsu local era uma mistura de judô com karatê.

O jiu-jitsu que ele ensina hoje

Hoje Pinduka dá aula em Copacabana com turmas pequenas, de oito a doze alunos, para conseguir olhar cada um. Ele diz que 70% dos praticantes não são competidores e que é para esse público que o jiu-jitsu precisa se preparar: gente tímida, gente com medo, gente que chega cansada do trabalho. Antes de qualquer luta, o aluno aprende a cair, rolar e andar na rua com atenção.

Ele atribui esse olhar ao Carlson, que, segundo ele, escolhia o jogo de cada aluno pelo biotipo.

“Ele olhava pro cara e falava: esse cara não pode jogar por cima, vai ter que ficar por baixo.”

Pinduca, no Connect Cast · 1:04:00

A conversa também passou pela morte de Leandro Lo. Pinduka usou o caso para falar de controle emocional: para ele, quem tem segurança consegue engolir uma provocação, e isso vale mais do que qualquer golpe. Os apresentadores fizeram questão de dizer que isso não torna o Leandro culpado.

O que fica da entrevista é a imagem de um cara que apanhou do jeito antigo e decidiu ensinar de outro. Ele fecha com uma frase que ouviu de Carlos Gracie nas palestras de Teresópolis.

“O jiu-jitsu é dos sete aos 70. Você pode começar aos sete, pode começar aos 70.”

Pinduca, no Connect Cast · 1:58:42

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.