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Connect Cast · Sérgio Bolão

Sérgio Bolão revela como Carlson Gracie forjava campeões no treino

Faixa-coral, aluno do Carlson desde 1981, conta como era o treino que fez da equipe o time a ser batido no Rio.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 9 set 2022 (1:43:45).

Sérgio Bolão entrou na academia de Carlson Gracie ainda garoto, em 1981, e saiu de lá faixa-preta. Hoje ele tem 58 anos, é faixa-coral e soma 32 anos de faixa-preta. Na conversa com o Connect Cast, ele contou por dentro como o Carlson montava o treino que fez da equipe dele a mais temida do Rio de Janeiro.

Assisti à entrevista inteira e o que mais me pegou foi o jeito como o Bolão fala do mestre. Ele morava longe da família nessa época, e o Carlson virou a referência de tudo.

“Foi mestre e pai. Eu entrei na academia novo, em 81.”

Sérgio Bolão, no Connect Cast · 0:50:49

O Bolão chamou aquela academia de divisor de águas da vida dele. E dá para entender o motivo ouvindo as histórias.

Rola de 20 minutos e torcida de mentira

Quem treinou com o Carlson repete a mesma coisa: ele quase não parava para ensinar detalhe de posição. O apresentador lembrou que Paulão Filho contou isso a ele. Segundo o Paulão, o Carlson botava o aluno para rolar e ia corrigindo ali mesmo, ajustando a mecânica do movimento, em rolas de 20 minutos.

O Bolão completou com o que viu de perto. A academia tinha dois tatames e quase 500 alunos. Ele contou que o Carlson dava muita aula particular e, um dia, faltou um parceiro para rolar com um aluno. O Bolão entrou, ficou e acabou assumindo turma. No outro tatame, segundo ele, ficavam a branca, a azul e a roxa, às vezes com ele, às vezes com André Pederneiras e Marcelo Alonso.

A parte mais curiosa é a preparação psicológica. O Bolão contou que o Carlson escolhia os adversários e dividia a sala em torcidas: um grupo torcia para o Bolão, outro para o adversário, outro para Wallid. A ideia era imitar a pressão de um campeonato. Tudo ali era voltado para competição.

A cobrança com faixa era pesada também. Segundo o Bolão, o Carlson segurava muita gente na mesma faixa, e ele resume assim:

“O roxo do Carlson era a preta de atualmente.”

Sérgio Bolão, no Connect Cast · 0:58:08

Para ele, isso acontecia porque na época não havia uma federação forte e organizada como hoje.

O Barcelona do jiu-jitsu

Até a vaga no campeonato era disputada dentro de casa. O Bolão lutava no peso médio e contou que havia oito caras da academia só na categoria dele, então a seletiva interna já era uma competição. Treinar em outra academia, naquela época, nem pensar: o Carlson preparava a equipe para lutar contra as outras.

“A gente era o Barcelona do jiu-jitsu.”

Sérgio Bolão, no Connect Cast · 1:20:00

Segundo ele, a equipe manteve esse domínio até 1995, e o time do Carlinhos não conseguia chegar perto. Depois dos campeonatos, iam direto para a churrascaria com os troféus. Entre os nomes da mesma safra, ele citou Libório, Pinduca e Peixotinho.

O Libório, aliás, virou a régua do Bolão. Ele contou que, em cinco minutos de rola, se o Libório o finalizasse três ou quatro vezes, estava ótimo. Chamou o parceiro de rei do braço, com força natural, e lembrou de uma raspagem de tesoura que ele fazia com o joelho na axila, diferente do comum.

Sobre a origem do espaço, o Bolão contou que o Carlson dividia o prédio com o Carlinhos. Com a ida do Carlinhos para a Barra e a morte de Rolls, o Carlson assumiu as duas salas. O Bolão chegou em 1981 e disse que não chegou a ver o Rolls lutar. Segundo ele, todo mundo fala que o Rolls era o Gracie mais à frente do seu tempo e que morreu em um acidente de asa-delta.

O faixa-preta que voltou para a azul

A história que o Bolão mais gosta de contar para os alunos é a de Crézio de Souza, o Credo. Ele estava no tatame, de faixa azul, no dia em que o Credo chegou de Petrópolis vestindo faixa-preta. O Carlson o colocou para rolar com a turma, descendo das pretas até as azuis. No fim, o Credo pediu para treinar na academia e competir pela equipe.

Segundo o Bolão, o Credo passou a vir toda semana de faixa azul: treinava quinta, sexta e sábado, dormia na casa do Bolão e voltava no domingo para Petrópolis. Para o Bolão, foi uma lição de humildade de alguém que provavelmente já dava aula. A casa dele, aliás, virou quartel-general: ele contou que Zé Mário e outros ficavam lá antes dos campeonatos, e a turma subia as Paineiras para meditar na cachoeira.

Um desafio de botinha na Filadélfia

Entre 2002 e 2004 o Bolão morou nos Estados Unidos, no subúrbio da Filadélfia. Contou que quase desistiu nos três primeiros meses, sem academia e com o dinheiro acabando, até que um americano o viu no supermercado, reparou na orelha e o levou para um treino de amigos com 12 caras. Em um ano, segundo ele, eram 50 alunos pagando 150 dólares por mês.

Foi lá que ele viveu o desafio que achava ser lenda. Um sujeito entrou no tatame de botas e pediu para treinar. O Bolão pesava uns 85 quilos e calcula que o outro tinha no mínimo 100. O desafiante foi direto nas pernas, o Bolão encaixou o estrangulamento em uns 30 segundos e o cara apagou. Quando acordou, quis de novo. O Bolão contou que o finalizou quatro vezes e o desafiante virou aluno.

Ele também repetiu uma conversa com Robson Moura, que hoje mora em Tampa. O Bolão perguntou se um dia o americano iria superar o brasileiro no jiu-jitsu. Segundo ele, o Robson respondeu que os americanos têm muito material e bons professores brasileiros por lá, mas falta outra coisa.

“O americano não tem metade da gana que o brasileiro tem.”

Robson Moura, no Connect Cast · 0:28:56

Do Carlão ao título brasileiro de equipes

Por volta de 1994, com 100 alunos e ganhando pouco, o Bolão pensou em voltar para Manaus por pressão da mãe. Em vez disso, abriu a própria academia perto da do Carlson, com 14 alunos. Distribuiu bolsas para garotos de colégios da região, que trouxeram amigos, e no segundo ano já tinha 80 alunos.

Um dos alunos dessa fase foi Carlão Barreto. O Bolão contou que o Carlão foi aluno dele da branca à preta, mas aprendeu muito com o Carlson também. Ele lembrou de preparar o Carlão para uma luta casada ainda na faixa-marrom, com rodízio de parceiros descansados a cada três minutos, e de colocar os alunos para ajudar o Carlão no desafio de 1994.

Depois veio a sociedade com Murilo Bustamante no Rio Jiu-Jitsu Clube, que passou de 250 alunos. Segundo o Bolão, o treino do meio-dia com Zé Mário e Paulão era lá, antes de eles abrirem a BTT. Dessa fase ele guarda o título brasileiro de equipes como inesquecível e diz ter formado dois campeões mundiais em 1999 e 2000.

O que fica da conversa

O Bolão perdeu o primeiro campeonato por nervosismo. Contou que viu Rickson na televisão, foi procurar o professor de respiração Orlando Cani e, na competição seguinte, lutou uma final em Teresópolis diante de umas 6 mil pessoas sem sentir a pressão. Ele cita o Orlando como precursor de Álvaro Romano e repete o que ouviu do Murilo: com esses treinos, ele chegava ao vale-tudo sem medo e sem euforia.

Hoje ele dá aula no Arouca Barra Clube, diz que mais de quatro mil pessoas passaram pela mão dele e trabalha muito com criança. Contou que os pais procuram o jiu-jitsu atrás de disciplina e que vê crianças com déficit de atenção mudarem em três meses de tatame. O recado dele para os alunos resume a entrevista.

“Eu não vou te formar um campeão, vou te formar para a vida.”

Sérgio Bolão, no Connect Cast · 1:16:13

Saí da conversa com a sensação de ter ouvido um pedaço pouco contado da equipe Carlson Gracie: o treino duro, a seletiva dentro de casa e um mestre que corrigia no rola. E com a história do Credo na cabeça, que para mim vale mais que qualquer medalha.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.