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Connect Cast · Kyra Gracie

Kyra Gracie quer presidir a Federação do Rio e cobra eleição no jiu-jitsu

Neta de Robson Gracie, ela diz que a federação fundada pela família vive sem disputa e promete ir até o fim para ter uma segunda chapa.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 27 jul 2023 (1:57:40).

Kyra Gracie quer ser presidente da Federação de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro. E avisou, numa conversa longa no podcast Connect Cast, que vai até o fim nessa briga, na Justiça se for preciso. Assisti à entrevista inteira e o que mais me chamou atenção foi a firmeza dela. Segundo a Kyra, a entidade fundada pela própria família está há anos sem uma eleição disputada, com estatuto velho e pouca transparência.

O assunto é delicado porque mexe com os Gracie. Hoje, segundo ela, quem preside a federação desde 2019 é uma tia, Kênia Gracie. O mandato termina em 31 de dezembro, que é quando as chapas precisam ser apresentadas. A Kyra quer apresentar a dela.

“Qualquer pessoa que queira se candidatar tem que ter o direito de se candidatar.”

Kyra Gracie, no Connect Cast · 0:48:38

A conversa foi bem além da política. Ela falou da academia que abriu no Rio, a Gracie Kore, dos anos de televisão, da vez em que pensou em lutar MMA, do encontro com Rickson e do primo que ajudou a criar e que hoje é campeão mundial.

Uma federação sem disputa há anos

A Kyra contou que a federação foi fundada pelo mestre Hélio e pelo bisavô dela, Carlos Gracie, e que foi a primeira federação de jiu-jitsu do mundo. Ela competiu lá da faixa amarela até a preta e diz ter um carinho enorme pela casa.

Segundo ela, a última eleição com duas chapas foi vencida pelo avô dela, Robson Gracie. Desde então, nenhuma outra teve concorrência. A proposta da Kyra é ser essa segunda chapa, pela primeira vez em muitos anos.

O retrato que ela faz da federação atual é duro. Ela lembrou que, na época dela, ser campeã estadual era o máximo e os grandes nomes do jiu-jitsu disputavam o estadual. Hoje, segundo a Kyra, não dá nem para fazer inscrição online: você imprime um papel e cola uma foto 3x4. Ela reclamou do estatuto desatualizado e de documentos que os federados pedem e não recebem. Contou ainda que o mestre Chico Mansur, faixa-vermelha, pediu para um professor dele se federar e só ouviu desculpas. Na leitura dela, porque ele declarou apoio à candidatura.

Ela explicou que a federação, pelo estatuto, é uma associação privada sem fins lucrativos, com eleição a cada quatro anos. A Gracie Kore ela pode passar para a filha se quiser, porque é empresa dela. A federação, segundo a Kyra, ninguém herda.

“A Federação não tem dono. A gente precisa ter eleição, ponto.”

Kyra Gracie, no Connect Cast · 0:53:47

Ela disse que procurou a tia para conversar e não houve conversa. Então mandou uma notificação à federação comunicando a vontade de se candidatar, e aí começou a confusão. Para a Kyra, essa pode ser a eleição mais importante da história do jiu-jitsu no Rio. O espelho dela é o surf: ela ligou para gente da confederação de surf, que passou por briga parecida antes de virar o esporte milionário que é hoje.

A academia que os amigos não quiseram bancar

A briga pela federação faz mais sentido quando você entende o que a Kyra montou. Ela contou que parou de competir há 12 anos e, trabalhando sete anos no SporTV, percebeu que só uns 3% ou 4% de quem faz jiu-jitsu compete. O resto quer aprender, mas não se sente bem numa academia pensada só para campeonato.

Para conhecer outro modelo, ela ligou para o Pedro Valente e foi visitar a academia dos irmãos Valente em Miami. Também citou o trabalho de Ryron e Rener Gracie na Gracie University. Dois anos antes de abrir, contratou uma pedagoga formada pela USP para montar a metodologia e fez um estudo de mercado gigante.

Quando mostrou o projeto para amigos empresários que treinam, ninguém quis entrar. Segundo ela, ouviu que o jiu-jitsu não merecia um investimento daquele porte no Brasil.

“Foi como se eu tivesse recebido um soco no estômago.”

Kyra Gracie, no Connect Cast · 0:38:37

O investimento passava de 1 milhão e meio de reais. Quem apostou na ideia foi o marido, Malvino, que pratica jiu-jitsu mas vem de outro meio. Segundo a Kyra, em três anos, com pandemia e oito meses de portas fechadas, a academia passou de 550 alunos. Hoje são duas unidades, 25 professores, 50 colaboradores e mais de 1.200 aulas em grupo por mês. Metade do público é feminino. E uma regra que ela chama de inegociável: professor que der em cima de aluna é demitido na hora.

A inspiração, ela disse, veio da Academia Gracie dos anos 1950, na Avenida Rio Branco, no centro do Rio. Segundo a Kyra, o aluno nem precisava levar kimono, havia currículo na parede, lista de espera e gente como Roberto Marinho e o presidente Figueiredo treinando.

Menina numa família que não queria mulher no tatame

A Kyra cresceu competindo e aos 11 anos já lutava nos campeonatos do Rio. Mas, segundo ela, as mulheres da família Gracie não eram incentivadas. A mãe dela chegou à faixa azul e teve que parar. Ela, faixa amarela, achou que ia ter que parar junto, e só continuou porque acharam que era brincadeira de criança.

“Mulher na família Gracie, eles não incentivavam em nada.”

Kyra Gracie, no Connect Cast · 0:02:38

Ela saiu de casa aos 15 anos para competir fora, foi campeã mundial pela primeira vez aos 19 e voltou a morar no Brasil aos 26. Contou que perdeu a final do Mundial de 2005, ainda faixa-marrom, justo quando o ego tinha subido depois de ficar famosa no meio, e que essa derrota ensinou muito. Também falou da raiva que travava suas lutas. Depois de uma derrota em que jogou o kimono no chão, uma fã veio pedir foto e disse que nunca esperava vê-la daquele jeito. Dali em diante ela passou a trabalhar a respiração.

Na TV, quem abriu a porta foi o Flávio Canto, que a chamou para um teste no SporTV. Ouviu que não havia vaga, mas passou um ano e meio indo ao estúdio toda semana, fazendo curso de teatro e oratória. Num dia de UFC no Brasil, os convidados cancelaram em cima da hora, ela foi chamada às pressas e acabou ficando sete anos.

O MMA que ficou pelo caminho e o encontro com Rickson

Na época em que os eventos no Japão explodiam, o tio Ryan Gracie insistia que ela focasse no MMA. Segundo a Kyra, ele a levava como córner para as lutas no Japão e dizia que ela ia ganhar uma grana que nem imaginava, porque não havia mulher lutando. Ela chegou a treinar MMA quando o Strikeforce fez uma luta principal feminina, mas percebeu que só pensava no tamanho da proposta.

“O dinheiro não pode me motivar.”

Kyra Gracie, no Connect Cast · 1:20:51

Sobre o Rickson, que é primo dela, a Kyra contou que soube do Parkinson havia uns dois anos. Quando foi gravar com ele no podcast dela, viu que a mão já tremia e decidiu não tocar no assunto. Foi ele quem falou, e segundo ela foi a primeira vez que tratou disso em público. Ela lembrou que o Rickson já deu aulas para ela e que o jiu-jitsu dela evoluiu muito com isso.

“A gente tem que estar preparado na vida para as coisas que vêm.”

Rickson Gracie, no Connect Cast · 1:10:59

O primo que brincava com as medalhas dela

O fim da conversa foi o trecho mais bonito. Rayron Gracie é filho do Ryan, que morreu quando o menino tinha seis anos. Segundo a Kyra, ele foi morar com a família dela, e ela trocava fralda, jogava o garoto no tatame e levava para todo lado. Ele brincava com as medalhas dela dentro de casa. Quando Rayron ganhou o Mundial, contou ela, a primeira coisa que fez foi levar a medalha para os filhos da Kyra, e chorou lembrando que fazia o mesmo com as medalhas da prima.

Foi ela também quem mandou o Rayron grudar no Roger Gracie. A Kyra morou meses na sala do Roger em Londres, num colchãozinho, para treinar com ele. Segundo ela, o Roger foi para Londres aos 19 anos, criou treinos específicos saindo de posições ruins, e a academia dele vai fazer 20 anos. Rayron passou três ou quatro meses por lá antes do Mundial, e a Kyra agora ajuda na preparação dele.

O que fica da entrevista é que a Kyra trata a federação com a mesma cabeça com que montou a academia e a carreira: planejamento, gente competente e muita cobrança. Ela diz que não precisa da federação para ganhar dinheiro, porque já tem as empresas dela estruturadas, e que entrou nessa briga pelo jiu-jitsu. Se ela vai conseguir disputar a eleição, a conversa não responde. Mas deu para perceber que desistir não está nos planos.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.