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Pura Connection · Álvaro Barreto

Álvaro Barreto abre os bastidores da Academia Gracie e da faixa de Rickson

Aos 81 anos, o grande mestre conta como funcionava a academia de 700 alunos, a briga de Hélio com Waldemar Santana e o dia em que convenceu Rickson a aceitar a faixa vermelha.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 24 out 2022 (1:06:46).

Tem entrevista que a gente assiste para aprender técnica. Essa eu assisti para aprender história. O Álvaro Barreto tem 81 anos, diz que não toma remédio nenhum e foi criado, nas palavras dele, dentro da família Gracie. Ele dava aula na Academia Gracie desde os 17 anos e, aos 21, foi chamado pelo Hélio Gracie para ocupar o lugar de um dos professores mais antigos da casa.

Na conversa com o André, no Pura Connection, o Álvaro contou como a academia da Avenida Rio Branco funcionava por dentro, relembrou a história de Waldemar Santana e revelou um episódio que pouca gente conhece: foi ele quem destravou a cerimônia em que Rickson Gracie recebeu a faixa de grande mestre, em Las Vegas.

“Eu sou um mestre de jiu-jitsu, sou grande mestre de jiu-jitsu, mas eu sou um grande mestre da vida.”

Álvaro Barreto, no Pura Connection · 0:03:11

Uma escola de 700 alunos com aula particular

O que mais me impressionou foi a descrição da Academia Gracie da Rio Branco. Segundo o Álvaro, eram 700 alunos, todos de aula individual. O Hélio tinha um curso de defesa pessoal de 36 aulas, cada uma de meia hora, sem aquecimento. O aluno saía do trabalho, fazia a aula e voltava para o escritório.

O controle era de empresa. O Álvaro contou que o Waldemar Santana trabalhava na rouparia: entregava o kimono, avisava a secretaria pelo telefone, a secretária localizava o professor e o professor ia até o vestiário buscar o aluno. Entrada e saída da sala eram anotadas. "Era um colégio aquilo", resumiu.

Por trás disso tinha a família inteira trabalhando. Segundo o Álvaro, os kimonos eram fabricados e lavados na casa de Teresópolis, que tinha lavanderia profissional. Quem levava as roupas na caminhonete, todo sábado, era o próprio Carlos Gracie, já com mais de 60 anos. O Álvaro contou até que, numa dessas viagens, o Carlos caiu com o carro de uma ponte, e o carro caiu em pé.

“O professor João Alberto ia lá no vestiário, cumprimentava o seu aluno.”

Álvaro Barreto, no Pura Connection · 0:11:52

Férias em Teresópolis e a mesa dos Gracie

O Álvaro nasceu doente. Ele contou que fez duas cirurgias no pulmão ainda bebê, com sete e com nove meses. A virada, segundo ele, veio aos 12 ou 13 anos, quando passou a passar as férias com os Gracie em Teresópolis, comendo a comida da família e treinando numa lona permanente montada no gramado.

Ele lembra do suco de cenoura com levedura de cerveja, que achava horrível, das cavalgadas com o Hélio e das partidas de pingue-pongue. Também contou que o Hélio aparecia no fim de semana com um dinheirinho para ele ir ao cinema, porque ele era o menino bem comportado da casa. Para o Álvaro, esses hábitos explicam a saúde que ele tem hoje.

O irmão mais velho, João Alberto Barreto, também dava aula lá. E aqui o Álvaro faz questão de repetir uma frase que atribui ao Hélio: o João Alberto era o melhor professor da Academia Gracie. Ele contou que o irmão finalizava o Waldemar várias vezes no treino, enquanto o Carlson tinha mais dificuldade, porque impunha muita pressão e deixava o Waldemar mais esperto na defesa.

Hélio, Waldemar Santana e uma luta de 3 horas e 40 minutos

A história do Waldemar Santana foi uma das partes mais fortes da conversa. Segundo o Álvaro, todos os funcionários da academia treinavam, do faxineiro ao roupeiro, e o Waldemar, fortíssimo e muito rápido, virou sparring da casa. Precisando de dinheiro, ele aceitou uma luta de vale-tudo por fora. O Álvaro acha que o adversário era o Biriba, mas disse que pode estar enganado. Quando o Hélio soube, expulsou o Waldemar da academia.

Ainda segundo o Álvaro, um repórter que cobria a Academia Gracie, o Carlos Renato, do jornal Última Hora, ficou chateado com a expulsão, se juntou ao Waldemar e passou a fazer desafios. O Hélio aceitou. De um lado, ele com 40 e poucos anos e uns 64 ou 66 quilos. Do outro, o Waldemar, com 21 ou 22 anos e força de estivador. A luta durou 3 horas e 40 minutos, sem limite de tempo.

“O Hélio não viu aquilo como uma luta, viu como um acidente de percurso.”

Álvaro Barreto, no Pura Connection · 0:37:04

O Álvaro contou ainda que estava no corner do Carlson, com 14 anos, segurando a perna dele e o calção numa das lutas contra o Waldemar. Guardou isso como uma das experiências que mais o marcaram.

O dia em que Rickson quase recusou a faixa vermelha

Essa eu não conhecia. O filho do Álvaro tinha acabado de ganhar a faixa-preta e quis ir a um seminário do Rickson em Las Vegas. O Álvaro ligou para o Rickson, que não quis cobrar nada e ainda ofereceu hospedagem. No dia, apareceram o Rorion e uns vinte faixas-pretas brasileiros, ex-alunos do Rickson, para entregar a ele a faixa de grande mestre.

Segundo o Álvaro, o Rickson recuou, disse que não tinha idade para aquilo. O Royler insistiu que ele tinha nascido no tatame. Foi aí que o Álvaro pediu a palavra, lembrou que tinha visto o Rickson crescer na academia do pai e disse que a homenagem se justificava. O Rickson aceitou e foi dar um beijo nele.

“Rickson, naquele dia eu salvei essa festa.”

Álvaro Barreto, no Pura Connection · 0:47:36

O detalhe que fecha a história: dez dias depois, o Rickson ligou para dizer que não estava confortável com a faixa. O Álvaro respondeu que ele tinha toda a liberdade de não usar. Contou também que o Rorion agradeceu depois, dizendo que sem ele a cerimônia não teria acontecido.

Jiu-jitsu para formar gente de bem

O resto da conversa é o Álvaro professor. Ele deixou a Academia Gracie aos 21 anos para estudar, virou professor de educação física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se aposentou, e também se formou em direito. Contou que o Hélio aceitou a saída com um aperto de mão.

Ele critica sem rodeio a época em que se passou a vender o jiu-jitsu como coisa de pitbull. Disse que a academia do Carlson virou uma escola de treino, com grandes lutadores, mas poucos bem formados como pessoas, e que orelha estourada é acidente de percurso, nunca troféu. Ao mesmo tempo, chama o Carlson de grande líder e diz que os dois tinham uma ligação muito forte. Contou que, antes do desafio de jiu-jitsu contra a luta livre, foi chamado pelo Carlson para ver os treinos de porta fechada.

O Álvaro contou também que ajudou a fundar a Federação de Jiu-Jitsu do Estado do Rio de Janeiro e que, mais tarde, foi nomeado interventor. Segundo ele, organizou a eleição em que Robson Gracie venceu. E aplica a disciplina na prática: um aluno que brigou na rua ficou afastado. Ele falou em seis meses de punição e chamou o rapaz de volta depois de três.

“Eu não te ensino a brigar, eu te ensino a se defender e não brigar.”

Álvaro Barreto, no Pura Connection · 0:30:13

O que fica da entrevista é um homem que viu a Academia Gracie por dentro e decidiu fazer do jiu-jitsu uma ferramenta de educação. Ele contou que está escrevendo um livro chamado Uma História de Conquistas. Pelo que ouvi aqui, material não falta.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.