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Pura Connection · Leão Teixeira

Leão Teixeira conta como ajudou a criar a CBJJ e o Mundial de jiu-jitsu

Aluno de Rolls Gracie, ele lembra das brigas nos campeonatos, de como trouxe o Carlson para o primeiro Mundial e das 11 finalizações de Roger Gracie.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 12 set 2022 (1:33:08).

Quem hoje se inscreve num campeonato de jiu-jitsu, pesa na hora, luta num ringue marcado e volta para casa sem confusão talvez nem imagine como era antes. Leão Teixeira imagina, porque estava lá. No Pura Connection, ele contou como ajudou Carlinhos Gracie a tirar do papel a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu, o primeiro Mundial e o Internacional Master.

Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi o tom. O Leão fala de tudo isso sem pose de dono da história. Segundo ele, quase ninguém da geração dele imaginava que o jiu-jitsu fosse chegar aonde chegou. Ele se encantou com a luta, botou a vida nisso e foi resolvendo os problemas conforme apareciam.

Aluno de Rolls na salinha de Copacabana

Tudo começou em Copacabana, na academia da Figueiredo. O Leão contou que todo mundo falava de Rolls Gracie e ele resolveu ir conhecer. Isso foi entre 1977 e 1978. No primeiro dia, quem deu a aula foi o Carlinhos, que virou grande amigo e professor dele. No fim do treino teve o geral, como eles chamavam, e ele, que já vinha do judô, foi tão bem que saiu de lá sem conseguir dormir de tanta adrenalina.

Com três meses, o Rolls deu a faixa-azul para ele. Depois disso, segundo o Leão, trocar de faixa ficou difícil: ele treinou de quatro a cinco anos com o Rolls, até a morte do mestre em 1982. O que ficou dessa época foi o jeito do Rolls com as crianças. O Leão lembra de chegar cedo e ver o professor cercado de garotos, fazendo brincadeira, pagando guaraná e dando brinde. Ele diz que muita coisa que faz hoje nas aulas infantis viu o Rolls fazer primeiro.

Anos depois, já sócio do Carlinhos e dos irmãos na Barra Gracie, ele olhou em volta e percebeu uma coisa.

“Caraca, eu sou o único que não sou Gracie aqui.”

Leão Teixeira, no Pura Connection · 0:14:07

Segundo ele, o Jacaré e o Fábio Santos insistiam para ele estudar educação física. Ele entrou na faculdade e começou dentro da academia um trabalho com crianças, dividido por faixa etária. A escola dele fez 30 anos.

De campeonato com briga à Confederação

O Leão não esconde que os primeiros campeonatos eram uma bagunça. Não dava para pesar todo mundo num dia só e as brigas eram constantes. Quando o jiu-jitsu cresceu na Barra, alunos saíram para abrir escolas nos condomínios e nasceu uma rivalidade com o pessoal da Zona Sul. Ele chegou a ir a programa de televisão defender o jiu-jitsu.

A resposta foi fundar uma associação. A ideia era fazer campeonato quase todo mês para a molecada lutar mais. O Banco Boa Vista apoiou, o colégio Veiga de Almeida abriu o pátio e a regra era simples: quem brigasse estava fora. A associação cresceu tanto que, segundo o Leão, eles perceberam que não existia uma confederação. O Carlinhos resolveu criar a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu, com o Leão, o Jacaré e Royler na diretoria.

O primeiro campeonato foi na AX, com camisa em homenagem a Carlos Gracie. No domingo, ele conta, tinha gente saindo por todo lado e o Globo Esporte apareceu para filmar. Dali o evento foi para a Gama Filho e, por um contato no Comitê Olímpico Brasileiro, o campeonato virou oficial do COB. Depois veio o primeiro Pan-Americano, em Huntington Beach, com os Machado nos Estados Unidos e as academias brasileiras todas juntas no mesmo hotel.

As regras também foram feitas no braço. O Leão lembra de um atleta chamado Jamelão que ninguém conseguia raspar, porque ele saía da área. Daí nasceu a regra: se o lutador fugir da área com risco de raspagem, o outro ganha dois pontos; se fugir de uma finalização, é desclassificado. E quando os irmãos Minotauro e Minotouro pularam na grade, ele chamou os dois na mesa e mandou ler o livro de regras.

O dia em que o Carlson entrou para a diretoria

A melhor história da conversa é a do primeiro Mundial no Rio. O Leão conta que já tinha trabalhado com Carlson Gracie na Rio Sport Center e aprendeu muito com ele. Mas, segundo ele, em campeonato o Carlson se transformava. Não aceitava perder e, naquele momento, estava contra a organização, com ameaça de boicote. Havia ainda uma briga entre o Carlinhos e o Robson, e o Leão chamava o Chico Mansur para ajudar a apaziguar.

“Carlinhos, a gente tem que botar o Carlson junto, do nosso lado.”

Leão Teixeira, no Pura Connection · 0:44:02

Com carta branca, ele foi falar com o Carlson e o convidou para a diretoria. Colocou o Carlson ao lado de um delegado, numa cadeira de onde ele podia ver tudo e falar com os alunos, com um pedido só: não deixar ninguém invadir a área. O Leão diz que viu o Carlson botando o Libório para fora. Deu certo. Nesse Mundial, Hélio Gracie, que não ia a campeonato havia muito tempo, foi homenageado, e o Rickson, que estava na arquibancada, pulou lá de cima quando foi chamado.

Um ranking para os velhos não pararem

O Internacional Master, que ele considera um dos campeonatos mais legais que existem, também saiu da cabeça dele. O Leão conta que estudou como o golfe e o judô dividiam as faixas etárias e levou o desenho para o Carlinhos, que estranhou a ideia de colocar velho para lutar. Ele lembra que, no último campeonato que tinha feito, perto dos 30 anos, casado e com filho, já enfrentava garotos de 20 e poucos.

“A gente tem que criar um ranking aqui dos velhos, para ninguém parar de lutar.”

Leão Teixeira, no Pura Connection · 0:36:37

O acordo foi que os dois lutariam. Ele ligou para o Pinduca, que também topou, e com esses três nomes o resto veio atrás. Segundo o Leão, a última vez que ele lutou foi em 1999. Ele conseguiu patrocínio da Telemar para bancar o evento e o Carlinhos voltou a competir. No avião para Buenos Aires, logo depois, brincou com o amigo: se devia alguma coisa a ele, estava paga, porque tinha botado o Carlinhos para lutar de novo, com medalha no peito.

Joelho na barriga, meia-guarda e o Roger

O Leão também tem opinião firme sobre técnica. Para ele, o jiu-jitsu gira em cinco posições: em pé, guarda, lado, montada e costas. Em cima disso escreveu um programa de 40 aulas e as versões para crianças. Ele defende que o joelho na barriga deveria valer três pontos, e diz concordar com Saulo Ribeiro que é a posição de maior domínio numa luta de verdade.

“O jiu-jitsu é a arte da defesa com o poder da finalização.”

Leão Teixeira, no Pura Connection · 1:05:54

Ele reclama que pouca gente ensina a saída básica da meia-guarda antes da meia-guarda profunda, e que o berimbolo nem entra no programa dele. Lembrou que o Crolin avisou, quando falaram em proibir o bate-estaca, que isso ia tirar a eficiência da luta. E se derreteu pelo Minotauro, que fazia meia-guarda no vale-tudo quando todo mundo achava que ele ia apanhar ali.

Mas o maior elogio foi para Roger Gracie. O Leão lembra dele garoto na Barra Gracie, bagunceiro e pouco chegado a treino. Quando o Roger voltou do Sul, o pai, Maurício, pediu para botá-lo numa luta casada num campeonato no Novo Leblon, e ali o Leão viu que ele já era diferente na faixa-azul. Anos depois, chamou o Roger para apresentar um programa de luta na TV. Sobre o ADCC, ele conta que o Roger finalizou oito atletas no evento principal e mais três na seletiva no Brasil.

“O Roger tinha que ter uma estátua dele lá.”

Leão Teixeira, no Pura Connection · 1:29:24

O que fica da conversa

A pandemia pegou o Leão em cheio. Segundo ele, a academia foi de quase 800 alunos a zero, e ele chegou a pensar em não voltar. Voltou para reorganizar tudo, hoje com a maior parte dos horários voltada para as crianças, e para retomar o instituto social. Saí da conversa com a sensação de que boa parte do jiu-jitsu organizado que a gente conhece passou pela mesa dele, e que ele continua de olho no aluno iniciante.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.