Connect Cast · Rorion Gracie
Rorion Gracie conta como saiu da faxina em Hollywood para criar o UFC
O criador do UFC fala de Mel Gibson, da Playboy, da dieta Gracie do Royce e do motivo de ter vendido o evento.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 12 jun 2025 (2:03:00).
Rorion Gracie foi para os Estados Unidos para ensinar jiu-jitsu e acabou limpando banheiro em Hollywood. Foi numa dessas faxinas que a porta do cinema abriu, e foi o cinema que colocou o jiu-jitsu na frente de gente que ele nunca teria alcançado sozinho. Essa história, contada por ele no Connect Cast, é o melhor pedaço de uma conversa de duas horas que ainda passa pela dieta Gracie, pelo primeiro UFC e pelo motivo de ele ter vendido o evento.
Assisti à entrevista inteira e o que mais me chamou atenção foi a clareza com que o Rorion liga tudo: a garagem, os desafios, a revista Playboy, o UFC e, no fim, o jeito de viver que ele aprendeu com o pai, Hélio, e com o tio, Carlos. Hoje com 73 anos, ele contou que um exame de bioimpedância deu a ele idade biológica de 45.
Do balde de faxina ao set de Máquina Mortífera
O Rorion desmentiu de cara a versão de que teria ido para a América tentar a carreira de ator. Segundo ele, a primeira viagem era para 15 dias de férias. Quando voltou, anos depois, ficou hospedado na casa da mãe de um amigo, que era atriz. Para não ficar parado, fazia faxina, cozinhava, cortava grama e lavava janela. Uma amiga indicava para a outra, e ele foi parar na casa de uma senhora casada com o assistente de direção da série Starsky & Hutch.
Ela olhou para ele na porta e perguntou como um sujeito tão boa-pinta não estava no cinema. Mandou tirar fotos e o marido arranjou papéis de figurante. O Rorion contou que passou 10 anos fazendo figuração, com pontas em A Ilha da Fantasia e O Barco do Amor.
A virada veio de uma luta. Ele tinha estrangulado em um minuto e meio um campeão de karatê chamado Ralph Alegria, e um assistente de direção estava na plateia sem que ele soubesse. Um ano depois, quando o diretor de Máquina Mortífera quis saber que luta o personagem do Mel Gibson deveria usar, esse assistente respondeu na hora.
“O melhor tipo de luta que existe é o jiu-jitsu brasileiro, e a única pessoa que ensina nos Estados Unidos é o nosso figurante.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:19:23
Foi assim que ele passou a treinar o Mel Gibson, na cena do triângulo debaixo de chuva. No terceiro filme, o Rorion treinou a Rene Russo durante dois meses e meio. Na hora de gravar, ela não conseguia jogar o dublê pesado por cima da cabeça e avisou que só fazia a cena se fosse com ele. O diretor mandou o Rorion vestir a roupa de bandido e entrar em cena.
A garagem, a Playboy e o encontro com Art Davie
Enquanto trabalhava no cinema cinco dias por semana, o Rorion dava aula na garagem de casa nos fins de semana. Quem levava um amigo ganhava uma aula de graça. Ele vendia quimonos de judô e karatê comprados numa lojinha perto de casa, e à medida que os alunos cresciam, ia largando a figuração.
Nos sábados de manhã, juntava 30 ou 40 alunos para tomar suco de melancia e assistir a vídeos de lutas que chegavam do Brasil, sempre narrando do mesmo jeito. Foi a mulher dele quem sugeriu editar tudo numa fita só. Assim nasceu o primeiro Gracie Jiu-Jitsu in Action, que, segundo ele, começou a ser vendido nas revistas de artes marciais no começo dos anos 1980.
Um aluno campeão mundial de braço de ferro indicou o Rorion ao jornalista Pat Jordan, que passou três dias acompanhando a rotina dele para uma reportagem da Playboy publicada em setembro de 1989. O texto dizia que Rorion Gracie estava disposto a lutar até a morte com qualquer um. Quem leu foi Art Davie, que trabalhava numa agência de publicidade. Ele apareceu na academia, virou aluno, viu alguns desafios e concluiu que o mundo precisava ver aquilo.
Os desafios, segundo o Rorion, aconteceram na garagem durante 10 anos, centenas de vezes, e continuaram na academia da Carson Street. Apareciam wrestlers, caratecas, boxeadores. Ele explicou a matemática da coisa: o adversário precisa acertar o soco perfeito na distância exata, enquanto ele só precisa agarrar mais ou menos. Depois disso, o outro cansava em 30 segundos, pedia revanche e quase sempre terminava como aluno.
Os bastidores do primeiro UFC
O dinheiro para o primeiro evento saiu de uma reunião com alunos na academia, onde ele distribuiu o plano de negócio e levantou a grana na mesma noite. Não havia matchmaker. Os lutadores respondiam a anúncios nas revistas de artes marciais, mandavam currículo, e a escolha seguia um critério simples: quanto mais bravo, mais feio, mais perigoso e mais pesado, melhor. Os confrontos saíam de nomes sorteados num chapéu. No meio disso tudo, ele colocou Royce de quimono branco, "parecendo um anjo".
O Rorion também lembrou o caso da luta entre Royce e Dan Severn, quando a transmissão foi cortada porque o evento passou 3 minutos das 2 horas contratadas. Ninguém em casa viu o triângulo. A organização teve de exibir a luta de novo, de graça, para quem pagou.
“Perdeu-se dinheiro naquele evento. Mas a publicidade que a gente ganhou, o dinheiro não compra.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:58:44
Sobre o título do episódio, que fala do segredo do Royce, a resposta dele foi curta. Perguntado se o irmão lutou o primeiro UFC seguindo a dieta Gracie, estranhou a pergunta.
“Quando é que o Royce não fez a dieta Gracie? Ele nasceu fazendo isso a vida inteira.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 1:28:16
Por que ele vendeu o UFC
O Rorion vendeu a parte dele ao sócio, Bob Meyrowitz. O motivo, segundo ele, foi a mudança de regra que o sócio queria: tempo de luta, luva, categoria de peso e juízes. Para o Rorion, sem limite de tempo o pequeno tinha chance de cansar o grandão e virar a luta. Com rounds, o grande descansa. E um estrangulamento bem encaixado faz o adversário apagar em seis segundos; se o gongo toca antes, o cara volta e às vezes vence.
“A gente vai vender o show, vai continuar ganhando muito dinheiro, mas não vai ser uma briga de verdade.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 1:51:11
Depois da saída dele, contou o Rorion, o senador John McCain fez campanha contra o evento, as emissoras recuaram e o Meyrowitz chegou a mudar a sede de um evento para outro estado na véspera. Sem saída, vendeu o UFC para os irmãos Fertitta, com Dana White à frente do negócio. O Rorion disse que tem boa relação com o Dana e que ele sempre reconheceu quem começou tudo.
“A impressão que eu tenho é que eu tive uma criança, você adotou a criança, mandou o moleque para Harvard.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 1:47:04
Dieta Gracie, defesa pessoal e o que fica
Boa parte da conversa foi sobre o estilo de vida. O Rorion segue a dieta criada pelo tio Carlos sem mudar nada. Carne de porco continua proibida, e ele brincou que tem medo de o velhinho reencarnar e vir estrangulá-lo. Não toma suplemento, nem whey nem creatina, e não bebe. Para ele, a pergunta que o Hélio fazia aos alunos, "tá disposto?", já resume tudo: dormir cedo, comer bem, não ter farreado.
Ele também contou que o Carlos Gracie criou a dieta para que a família estivesse sempre pronta, já que às vezes alguém batia na porta às 10 da noite querendo desafiar um Gracie. E lembrou que na academia da Rio Branco os alunos recebiam quimono limpo a cada aula, lavado numa lavanderia da família em Teresópolis que dava conta de 650 quimonos por semana.
Na parte técnica, o Rorion está gravando um curso de formação de professores com o método antigo da academia: quatro movimentos na primeira aula, repetição de tudo e três novos a cada aula seguinte. A defesa pessoal, na opinião dele, sumiu da grade das academias porque o professor não quer cair. Ele disse que o pai dava aula com mais de 90 anos.
“Eu quero um jiu-jitsu que eu possa fazer aos 73, como eu tô hoje. O meu pai fazia aos 90 anos.”
Rorion Gracie, no Connect Cast · 0:04:12
O que fica da entrevista é um Rorion que se vê mais professor do que lutador e que considera a missão cumprida. Ele contou que ajudou a reescrever o currículo de combate corpo a corpo do exército americano e que há polícias nos Estados Unidos que exigem faixa-azul. Agora trabalha numa autobiografia, a conselho do diretor John Milius, e disse que a ESPN prepara um documentário sobre a família. Pelo que ele contou, essa história ainda vai chegar às telas.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.