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Pura Connection · Pedro Sauer

Pedro Sauer conta a surra que o levou ao jiu-jitsu de Rickson Gracie

Arrastado para a academia pelo amigo, ele virou aluno de Hélio Gracie e levou o jiu-jitsu para milhares de alunos nos Estados Unidos.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 23 fev 2022 (1:24:33).

A primeira vez que Pedro Sauer pisou na academia Gracie da Rio Branco, no Centro do Rio, ele saiu direto para o banheiro. Levado à força por Rickson Gracie, calçou luvas de boxe, tentou acertar os garotos que vieram treinar com ele e acabou no chão em todas as vezes. Um deles, segundo o próprio Pedro, era o Royler, ainda pequeno. Depois de uns trinta minutos daquilo, ele conta que passou 40 minutos vomitando.

Dessa surra saiu um dos professores mais respeitados do jiu-jitsu fora do Brasil. Pedro diz que pratica há quase 50 anos, que já formou perto de 200 faixas-pretas e que dá aula sete dias por semana há 32 anos. O Pura Connection foi até a casa dele em Petrópolis, e a conversa aconteceu em volta da mesa que veio da casa de Hélio Gracie.

Assisti à entrevista e o que mais me pegou foi a coerência dele. Tudo o que o Pedro fala, da defesa pessoal ao jeito de tocar uma associação com milhares de alunos, sai da mesma ideia que ele diz ter recebido do Hélio: entender o jiu-jitsu em vez de só praticar.

“Eu fui pro banheiro e fiquei vomitando durante 40 minutos.”

Pedro Sauer, no Pura Connection · 0:37:30

O amigo que o arrastou para o tatame

Pedro conta que é um ano mais velho que o Rickson e que, na adolescência, era cabeludo, agitado e metido em confusão. Já tinha feito boxe, taekwondo, judô e capoeira, mas não conhecia o jiu-jitsu. O Rickson passava pela turma dele, puxou conversa e insistiu durante muito tempo para levá-lo à academia.

Na primeira visita, Pedro só assistiu. Ele lembra de ver o Rickson, faixa-verde e pequeno, treinando com um homem faixa-roxa que agarrava o pescoço dele, enquanto o garoto dava cambalhota no ar e virava pirueta. Achou aquilo impossível para ele e levou mais de um ano para voltar.

A volta foi quase um sequestro. Aos 15 anos ele já tinha um Chevrolet 1949, e o Rickson pediu carona até a academia. Tinha vaga bem na porta. Lá dentro, o professor Hélio estava sentado numa mesinha, cumprimentou o amigo do filho e o Rickson foi arrastando Pedro para dentro. Depois da surra, ele pediu para aprender na mesma hora. O primeiro quimono foi o Rickson quem deu, com o nome de outra pessoa escrito embaixo.

A estratégia do Hélio para o magrinho

Pedro diz que começou pesando uns 60 e poucos quilos, pele e osso, e que apanhava todo dia de parceiros como Rickson, Rorion, Relson e a molecada que vinha atrás. Foi aí que o Hélio mudou a cabeça dele.

“Pedrinho, você é pequenininho, não adianta ir pra academia levantar peso.”

Pedro Sauer, no Pura Connection · 0:04:24

Segundo o Pedro, a lição do Hélio era que a força não dura, e que para entender o jiu-jitsu é preciso entender como se defender de qualquer agressão. Ele conta que o Hélio treinava muito com ele justamente por ele ser pequeno e calmo, e descreve o mestre como alguém de mão macia, cheio de truques, que botava o peso num lugar e fazia você achar que estava em outro.

Tem uma história da academia que eu não conhecia. Pedro conta que um prédio estava sendo construído na Rua do Ouvidor, ao lado da academia, que ficava no 18º andar. Quando a obra chegou à mesma altura, o Hélio chamava os operários, perguntava quanto tinham ganhado no dia e oferecia o dobro para quem conseguisse segurar o Pedrinho numa gravata sem largar. Se o Pedro não saísse, brincava o Hélio, ele ficava devendo. Para ele, foi ali que aprendeu a lidar com gente sem técnica e com muita raça, o tipo de adversário que encontraria depois nos Estados Unidos.

Nas competições, a história também começou apanhando. Pedro entrou para a equipe Rickson Gracie e fez a primeira luta numa eliminatória na academia do Carlson. O adversário passou a guarda dele umas 20 vezes e terminou montado, com as duas mãos no pescoço, mas não conseguiu finalizar. O Rickson saiu dizendo que ele tinha ido muito bem por não ter batido. Em outra competição, ele conta que foi finalizado rápido por Márcio Stambowsky, o Macarrão, que virou parceiro de treino.

Mil dólares e um wrestler em Utah

Quando foi para os Estados Unidos, Pedro diz que era testado o tempo todo. Havia um desafio de mil dólares, anunciado em revista, para quem vencesse um faixa-preta de jiu-jitsu. Ele morava em Salt Lake City, em Utah, e conta que desconhecidos entravam na casa dele com a revista na mão, falando de dinheiro, enquanto ele ainda nem falava inglês.

A luta que ele mais lembra foi contra um wrestler conhecido como Mister Utah, que segundo ele levantava 600 libras e tinha a perna da largura da cintura do Pedro. A briga seria num estacionamento e acabou dentro de uma academia. Ele foi de sapato de wrestling, emprestado por um lutador que depois virou aluno dele. Pedro conta que chegava a entregar 50 quilos para os adversários.

O que o salvou, diz ele, foi uma orientação do Hélio: quem luta com alguém muito mais pesado precisa de uma guarda excelente, porque se a guarda for passada, acabou. Por isso eles quase não treinavam chave de pé e de joelho. Nos Estados Unidos, segundo o Pedro, ninguém passava a guarda dele. Na academia do Rio era diferente: o Rickson passava quando queria.

“Sem o Rickson, nós não teríamos feito nada na América.”

Pedro Sauer, no Pura Connection · 0:32:47

Ele lembra ainda que, naquela época, o jiu-jitsu tinha de ser anunciado na letra K das páginas amarelas, junto com o karatê, porque ninguém procurava pelo nome.

Currículo, lealdade e 20 mil alunos

A associação que leva o nome dele chegou, antes da pandemia, a quase 200 academias afiliadas e perto de 20 mil alunos, segundo o Pedro. A covid atrapalhou muito o negócio e ele se mudou do norte da Virgínia. Para ele, sobreviveu quem tinha uma academia estruturada em currículo.

O currículo é rotativo e cada aluno vê a mesma posição pelo menos três vezes. O treino livre existe, mas não conta para a graduação, só as aulas de instrução. Pedro diz que na associação ninguém pede desculpa no treino, porque ninguém dá cotovelada nem cabeçada, e que ele ensina os alunos a perder primeiro. Quando for finalizado, a orientação é sorrir, elogiar a posição do parceiro e pedir para ser pego de novo, para praticar a saída.

A frase que mais me marcou foi sobre lealdade.

“Em 32 anos que eu dou aula, eu nunca pedi a nenhum aluno na minha vida lealdade.”

Pedro Sauer, no Pura Connection · 0:30:45

Para ele, lealdade se conquista, e o aluno que quiser mudar de academia tem de sair com a mão aberta e com votos de sucesso. Pedro também explica por que o aluno precisa se apegar ao currículo e não ao professor: quando o aluno depende de você, você vira escravo e não consegue nem tirar férias. Ele cita o modelo dos Valente, em que a aula particular segue o mesmo padrão seja quem for o instrutor.

Um mês antes da entrevista, ele conta que refez o currículo para incluir as chaves de pé e de joelho, que considera uma estratégia incrível. O conselho, porém, é conhecer esse jogo sem praticá-lo logo no começo, porque senão o aluno nunca desenvolve uma guarda eficiente.

O que fica da conversa

Pedro fecha dizendo que entra em qualquer tatame com uma faixa branca mental, e que aprendeu isso treinando todo dia com o Rickson, que o finalizava como se ele fosse uma criança. Para ele, o maior benefício do jiu-jitsu é social: ser mais tranquilo, mais tolerante e tratar as pessoas com respeito.

E ele guarda uma previsão do Hélio. Nos Estados Unidos, o mestre disse que o dia em que uma senhora qualquer, num estacionamento de supermercado, respondesse jiu-jitsu quando alguém perguntasse pelo lugar onde as pessoas vestem pijama e faixa, a arte ia explodir no mundo.

“Pedrinho, no dia que uma mulher falar jiu-jitsu, o jiu-jitsu vai explodir.”

Pedro Sauer, no Pura Connection · 1:21:24

Pelo que ele contou, esse dia ainda não chegou. Mas ouvindo o Pedro, dá para entender por que tanta gente nos Estados Unidos aprendeu jiu-jitsu do jeito que o Hélio ensinava.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.