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Pura Connection · Rorion Gracie

Rorion Gracie conta como criou o UFC e por que saiu quando vieram as regras

Da fome no Havaí às aulas na garagem da Califórnia, o filho de Hélio Gracie refaz o caminho até o octógono.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 31 out 2022 (1:13:02).

O UFC nasceu de uma briga que Rorion Gracie não conseguia mais conter na garagem de casa. Segundo ele, os desafios de professores de outras artes marciais eram tantos, e a plateia crescia tanto, que um dia caiu a ficha: um grupinho de 50 ou 100 pessoas vendo aquilo era pouco para um país inteiro. Foi aí que ele resolveu levar a briga para a televisão.

Assisti à conversa do Rorion no Pura Connection e o que mais me prendeu foi o caminho até lá, que tem pouco de plano e muito de sufoco. Tem passagem roubada, fome no Havaí, faxina em casa de gente de Hollywood, coreografia para o Mel Gibson e, no fim, uma briga com o próprio sócio que fez ele sair do evento que criou.

Os desafios na garagem da Califórnia

O Rorion conta que voltou aos Estados Unidos em 1978 com uma missão: plantar o jiu-jitsu lá. Segundo ele, havia arte marcial de todo tipo no país, mas nada parecido com o que a família ensinava. Ele morou primeiro na casa de uma amiga atriz e, para não ficar parado, lavava janela, cortava grama e cozinhava. Depois virou faxineiro das amigas dela.

Numa dessas casas, contou, a dona era casada com um assistente de direção e achou que ele devia estar no cinema. O Rorion pendurou a vassoura e virou figurante. Foi como figurante que ele ganhou o trabalho de coreógrafo da luta de Mel Gibson com Gary Busey em Máquina Mortífera: alguém disse ao diretor que a melhor luta que existia era o jiu-jitsu brasileiro e que o único cara que ensinava aquilo no país era o extra do set. No terceiro filme da série, ele aparece como um dos bandidos.

Com o dinheiro do cinema, ele alugou uma casinha, botou tatame na garagem e passou a dar a primeira aula de graça para todo mundo que conhecia. Quem trouxesse amigo ganhava mais aula. Segundo o Rorion, chegou um ponto em que ele dava 600 aulas particulares por mês na garagem, com 87 pessoas na lista de espera.

Aí vieram os desafios. Alunos que tinham largado o kung fu voltavam dizendo que o antigo professor queria brigar com ele. O Rorion marcava dia e hora, chamava a turma e resolvia no chão, sem machucar ninguém. Segundo ele, foram centenas de desafios ao longo de dez anos, e boa parte dos desafiantes virou aluno.

“Alguém tem que ser o melhor. O jiu-jitsu é a arte marcial mais eficiente que existe.”

Rorion Gracie, no Pura Connection · 0:55:22

Do vídeo de vale-tudo ao octógono

Quem sugeriu a televisão, segundo o Rorion, foi o amigo Art Davie. Os dois montaram uma empresa chamada WOW, de Guerra dos Mundos das artes marciais. A ideia era juntar oito lutadores de estilos diferentes num torneio eliminatório, em que o vencedor lutaria três vezes na mesma noite, sem luva.

As emissoras recusaram. O Rorion conta que só fechou negócio em Nova York, com Bob Meyrowitz, depois de mostrar um vídeo que ele mesmo editou com lutas de vale-tudo no Brasil. O chefe ficou horrorizado, mas viu os funcionários do escritório se amontoando para assistir e decidiu na hora. O acordo era simples: o Rorion montava o show, a empresa de Meyrowitz botava na televisão. Para bancar a parte dele, o Rorion reuniu os alunos numa noite e vendeu 10% da companhia para eles.

O formato do ringue saiu de conversas com o diretor John Milius. O Rorion não queria ringue de boxe, porque, segundo ele, na briga o cara que está perdendo quer fugir. Chegaram a brincar com um tanque cercado de jacarés e com cerca elétrica. No fim, ficou o octógono, sem canto para prender ninguém.

Na véspera do primeiro evento, contou, quase tudo desandou numa reunião sobre as regras. Na primeira luta, o perdedor saiu de ambulância. Na segunda, também.

O UFC 4 e a briga com o sócio

As três primeiras edições duraram exatamente as duas horas reservadas no satélite, mesmo sem tempo de luta. No UFC 4, segundo o Rorion, a luta de Royce com Dan Severn passou do horário, e quem pagou o pay-per-view não viu o fim. Foi preciso devolver dinheiro e mandar vídeo de graça, mas, na conta dele, a publicidade valeu mais do que qualquer dinheiro.

O sócio não pensou igual. Exigiu tempo de luta, ou não transmitiria mais. O Rorion explica por que achava que isso mataria o show: sem limite de tempo e sem categoria de peso, o pequeno tinha chance de caçar o grande. Com tempo, viriam categorias, e com categorias viriam jurados decidindo do lado de fora. E um estrangulamento encaixado podia ser salvo pelo gongo.

“Deixou de ser uma briga de verdade para ser um show de entretenimento.”

Rorion Gracie, no Pura Connection · 1:08:31

Para ele, foi questão de princípio: não queria estar num evento que tinha deixado de ser a visão original só para ganhar dinheiro. E ele diz que o maior presente que deu ao pai foi ver a arte dele reconhecida no mundo através do Royce. Segundo o Rorion, Hélio ficou emocionado. E, logo depois do primeiro evento, o exército americano ligou pedindo um currículo de combate, que ele criou.

Fome no Havaí aos 17 anos

A primeira viagem para os Estados Unidos, conta o Rorion, foi aos 17 anos, depois que o irmão mais velho Rolls voltou de lá com uma mala cheia de novidades e descreveu a decolagem de um avião. Ele juntou o dinheiro das aulas e foi. No hotel da ACM, pediu para guardar o dinheiro e a passagem no cofre, e o recepcionista roubou tudo. A companhia aérea levaria seis meses para liberar outra passagem.

Ele ligou para o pai dizendo que tinha mudado de ideia e ia ficar seis meses. Sem dinheiro, sem inglês e sem conhecer ninguém, foi da Califórnia para o Havaí, arranjou emprego de construção e, enquanto o primeiro salário não saía, chegou a pedir esmola na rua e dormir em cima de jornal na calçada. Ele também diz que foi o primeiro Gracie a surfar, no Havaí, em 1970.

O Rorion voltou ao Brasil com 18 anos, segundo ele, outra pessoa, confiante nas próprias possibilidades. Depois fez faculdade de direito e virou advogado, mas nunca exerceu.

Hélio, Carlos e a dieta Gracie

Boa parte da conversa foi sobre o pai e o tio. Segundo o Rorion, Carlos era o homem da espiritualidade e da filosofia, e Hélio o homem da ação. Ele conta que o pai, criança, tinha desmaios e vertigens, a ponto de os médicos proibirem atividade física e ele largar a escola aos oito anos. Os desmaios sumiram quando começou a fazer jiu-jitsu. O Rorion lembra também que Hélio desafiou Kimura sabendo que ia perder, só para ver o que o campeão do mundo faria.

Sobre a dieta, o Rorion diz que Carlos começou a estudar alimentação na década de 1920 e que escreveu ele mesmo o livro da dieta Gracie, porque o tio nunca escreveu. As regras básicas, segundo ele: não misturar cereais, não misturar comida de panela com doce e esperar quatro horas e meia entre as refeições. A prova, para ele, está em casa: Carlos viveu até os 92 ou 93 anos e Hélio até os 95.

“Vamos pro tatame que eu vou te mostrar um estrangulamento que eu estou aperfeiçoando.”

Rorion Gracie, no Pura Connection · 0:18:25

É assim que o Rorion lembra da última visita ao pai, em Itaipava, seis meses antes de ele morrer. Hélio tinha 94 anos e meio e, segundo o filho, estava ótimo. Para quem queria saber de onde veio o UFC, a resposta dele passa por essa cena: um velho de 94 anos ainda querendo provar, no tatame, que o jiu-jitsu funciona.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.