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Pura Connection · Relson Gracie

Relson Gracie conta por que recusou lutar com Sakuraba e nunca foi ao MMA

Invicto por 22 anos, o filho de Hélio Gracie fala da cabeçada que fechou o olho de Royce antes do UFC e da luta de 3 horas e 45 minutos do pai.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 14 ago 2023 (1:07:35).

Ofereceram dinheiro ao Relson Gracie para lutar com Sakuraba. Ele recusou. E fez uma contraproposta que só um Gracie da velha guarda faria: que mandassem o japonês até a casa dele, com um cinegrafista, para uma luta sem plateia e sem bolsa. Segundo o Relson, ninguém ligou de volta.

Assisti à conversa dele com o André Freitas no Pura Connection, gravada em inglês, e o que mais me chamou atenção foi a coerência. Filho de Hélio Gracie, o Relson passou a vida inteira repetindo que não usa o jiu-jitsu para ganhar dinheiro em cima de briga. Hoje com mais de 70 anos, morando no Havaí, ele diz que continua pronto para se defender na rua.

“Eu não luto por dinheiro. Nem por um bilhão de dólares.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:43:38

A proposta para enfrentar Sakuraba

O Relson contou que foi procurado para enfrentar o Sakuraba e que a conversa girou em torno de quanto ele queria. A resposta foi que não tinha mais intenção de lutar por dinheiro. Do outro lado, falaram em algo perto de um milhão. Ele então propôs outra coisa: o Sakuraba chutaria a porta da casa dele, com uma câmera gravando, e os dois lutariam ali.

Segundo o Relson, ele ainda apostou do próprio bolso. Se o japonês aguentasse mais de cinco segundos, ele pagaria. A única coisa que ele queria era o vídeo. Contou que se colocou à disposição até para o dia seguinte, e que depois disso nunca mais o procuraram.

Para ele, a questão é de princípio. O Relson disse que nunca lutou vale-tudo para TV, nunca fez luta para patrocinador ganhar dinheiro e que isso vem do exemplo do pai. Ganhou a vida ensinando, principalmente crianças, e diz que dorme tranquilo por isso.

A cabeçada em Royce antes do UFC

A história que eu não conhecia é dos bastidores do UFC. O Relson já dava aula no Havaí havia uns seis anos quando o Royce fez a primeira luta, em 1993, e contou que foi ele quem ficou no corner do irmão na primeira, na segunda e na terceira edição.

Segundo o Relson, o convite chegou primeiro para o Rickson, que acabou indo lutar no Japão. O Hélio preferiu manter o Royce, porque um lutador magro vencendo gente muito maior mostrava melhor a eficiência da técnica.

Antes de uma das edições, o Royce treinou em sequência com vários parceiros, dez minutos com cada, e o Relson entrou por último. Ele contou que avisou o irmão para tomar cuidado com a cabeçada, mostrou o golpe e, no meio da troca, as cabeças bateram. O olho do Royce fechou. O Hélio, segundo ele, não gostou nada.

“O Royce não conseguiu treinar por uma semana, porque o rosto dele fechou.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:37:18

Depois disso, o Relson passou a mostrar ao Royce como se defender da cabeçada e dos golpes por baixo, na guarda. Ele contou que a melhor luta da carreira do irmão foi contra Dan Severn, no quarto UFC: um adversário muito mais pesado, com o Royce quase 17 minutos por baixo, esperando a hora de fechar a finalização.

Rolls, a surra e a amizade

O Relson se descreve como o que mais brigou na família quando era menino. Contou que, pequeno, vivia apanhando do Rolls, que era mais velho. Numa dessas, ficou trancado no banheiro e chegou a pegar uma faca para ir atrás do primo. Levou a primeira surra da vida e ficou um mês de castigo no quarto.

Ele diz que mereceu e que aprendeu a ser humilde. Depois disso, o Rolls virou o melhor amigo dele.

“Ninguém foi melhor no jiu-jitsu do planeta do que o Rolls, depois do Hélio.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:23:43

Segundo o Relson, a morte do Rolls mudou muito o jiu-jitsu. Cada um seguiu um caminho, abriu a própria escola, criou a própria marca. Na visão dele, se o Rolls estivesse vivo, seria ele quem manteria a defesa pessoal forte no Brasil.

22 anos sem perder e a luta de Hélio contra Waldemar

O Relson competiu, segundo ele, de 1961 a 1985 sem perder uma luta. Contou que aos 16 anos, ainda faixa-marrom, já era colocado no absoluto contra adultos. No peso, ele e o Rickson dividiam a mesma categoria: apertavam a mão, ele ficava com o ouro e o Rickson com a prata. Foram cinco anos assim, até que ninguém mais se inscrevia para enfrentá-lo.

“Fiquei 22 anos sem perder uma luta.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 1:05:15

Ele também relembrou a luta do pai contra Waldemar Santana, que segundo ele treinou com o Hélio por 13 anos antes de desafiá-lo. O Relson disse que o Waldemar tinha 24 anos e uns 85 quilos, e o Hélio, com 41 ou 42 anos, pesava uns 50. Sem limite de tempo, a luta durou 3 horas e 45 minutos, com o Hélio por baixo o tempo todo.

O Relson contou que tentou reproduzir parte disso: treinou uma hora e 40 minutos seguidos com vários parceiros e passou três dias sem conseguir andar direito. Para ele, isso mostra que o pai lutava com técnica e sem força.

“Três horas e 45 minutos, sem água. É impossível.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:41:00

Sobre a origem, ele contou que o Hélio era franzino na adolescência, e que o Carlos não deixava o irmão treinar, com medo de que ele passasse mal. O Hélio ficava assistindo. Um dia, com o Carlos fora, chegou um aluno e o Hélio deu a aula. Foi a partir daí, segundo o Relson, que ele adaptou o jiu-jitsu para quem não tem força.

Defesa pessoal aos 70 anos

Hoje o Relson diz que só ensina defesa pessoal. Contou que, já com 70 anos, dois homens o empurraram na porta do clube dele no Havaí, sem motivo. Ele se defendeu, levou a briga para o chão e saiu sem levar um golpe.

“Eu ainda sobrevivo na rua.”

Relson Gracie, no Pura Connection · 0:15:52

Ele contou que ensinou agentes do Serviço Secreto, do FBI, dos Marshals e militares no Havaí, e que inclui a cabeçada no programa, coisa que diz não ver em outras escolas. Segundo ele, um aluno policial se salvou numa briga pela arma justamente com uma cabeçada. O governo do Havaí, contou, criou o Dia Relson Gracie, em 6 de abril.

A graduação na associação dele também é à moda antiga. O Relson disse que tem cerca de 140 escolas e que só ele promove os faixas-pretas, em pessoa. Para ganhar grau, o aluno precisa mostrar o programa completo de defesa pessoal a cada dois anos. Ele não aprova graduação por vídeo.

O que fica da conversa

Saí da entrevista com a impressão de ouvir alguém que não mudou uma vírgula do que aprendeu em casa. O Relson fala do pai com devoção, do Rolls com saudade e do dinheiro com desprezo. Pode-se concordar ou não com o estilo, mas a história do Sakuraba resume bem o personagem: ele topava a luta, desde que fosse do jeito dele e de graça.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.