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Pura Connection · Feitosa

Márcio Feitosa revela como a Gracie Barra saiu de um galpão para o mundo

O faixa-preta que cresceu em frente à matriz conta a quebra da primeira escola nos Estados Unidos, os meses em que morou dentro do quartel-general e a vitória sobre Royler.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 mar 2026 (1:55:04).

A primeira escola da Gracie Barra nos Estados Unidos era um galpão, e fechou depois de dez meses. Quem conta é o Márcio Feitosa, que foi para lá em 2005 com a missão de montar o quartel-general da equipe fora do Brasil. Anos depois, quando essa mesma escola já tinha passado de 600 alunos e despencou para 40 e poucos, ele tirou os móveis de um escritório, colocou uma cama e foi morar dentro dela até a situação melhorar.

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi isso: a Gracie Barra que a gente vê hoje em todo canto do mundo passou por tropeço atrás de tropeço. O Feitosa fala com a calma de quem viveu tudo de dentro, desde menino, morando literalmente na frente da matriz.

Criado na esquina da matriz

O Feitosa descreveu a rua como um mapa: ele morava no prédio 295 da Comandante Júlio de Moura, a primeira escola da Gracie Barra era o número 300, do outro lado, e pouco depois o Carlinhos Gracie foi morar no 276, na mesma esquina. Ele contou que ainda mora lá.

Queria ser jogador de futebol. Aos 12 anos um amigo da escola chamou para treinar, e ele gostou logo de cara. A virada veio na faixa-laranja, por volta dos 14: segundo o Feitosa, a família passou por uma separação e um problema financeiro grande, e ele foi até a porta da academia avisar o mestre que ia parar por falta de dinheiro. A conversa não foi muito didática, ele lembrou, mas a mensagem ficou.

“Se você quiser treinar aqui, a falta de dinheiro não vai ser um problema.”

Feitosa, no Pura Connection · 0:23:07

A partir daí, contou ele, passou a ser tratado como assistente de instrução: organizava fila, ajudava aluno com o detalhe da técnica, segurava a turma até o professor chegar. Hoje ele enxerga isso como uma escola de liderança que ninguém disse que era. E contou que o primeiro e único emprego da vida dele foi dar aula na Gracie Barra.

Os professores com quem ele mais aprendeu técnica, segundo o próprio Feitosa, foram o Leão Teixeira, o Zé Beleza, e o Hélio Moreira, o Soneca. Mas o mestre é o Carlinhos. Ele lembrou que, depois de muitos treinos, o Carlinhos puxava uma cadeira de plástico e ficava quase uma hora conversando com a turma, perguntando por que o aluno tinha ficado nervoso quando foi pego, e mostrando que a finalização sofrida era um sinal do caminho a seguir.

“O jiu-jitsu mostra a sua personalidade.”

Feitosa, no Pura Connection · 0:40:30

Pedra da Gávea, confederação na sala e a luta com Royler

O Feitosa contou que era faixa-roxa em 1993, quando o Carlinhos criou a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu dentro de casa. Os atletas iam se pesar lá, um dia antes da luta, e as chaves impressas em papel ficavam penduradas na parede. A primeira competição dele foi num gramado com lona por cima, em Teresópolis. O treino incluía subir a Pedra da Gávea de manhã, tomar água de coco e comer banana nas barraquinhas, treinar, almoçar, descansar e voltar.

Ele disse que só foi perder uma luta já na marrom, quase preta, no primeiro Pan-Americano, em 1995. Na época, segundo ele, gente de outras equipes dizia que o Carlinhos estava maluco por inventar um Pan. Nos anos seguintes veio a rivalidade na categoria com Léo Vieira e Shaolin: cinco lutas com um, seis com o outro. Ele fez questão de dizer que a rivalidade era gigante, mas ficava dentro do esporte, e que hoje todos conversam numa boa.

A história que ele escolheu como a mais marcante tem duas partes. No primeiro Mundial dele, que situou em 1995, ele vinha voando no peso pena. O Carlinhos chamou e pediu que não lutasse com o Royler, por quem tinha profunda admiração e que, na visão do mestre, não tinha mais nada a provar. O Feitosa subiu de peso e perdeu para o Saulo. Não gostou, e fez um compromisso consigo mesmo: segundo ele, de 1996 a 2003 subiu ao pódio do Mundial sete vezes seguidas, com três ouros e quatro pratas.

Dois anos depois, no evento chamado Oscar do Jiu-Jitsu, estava marcada uma luta do Royler com o Amaury Bitetti, bem mais pesado. A luta caiu, e o Carlinhos chamou o Feitosa de novo: agora ele tinha sido desafiado, e podia ir. Foram 20 minutos, e o Feitosa venceu. Ele contou que essa vitória foi uma injeção enorme de confiança e que a lição foi entender que a gente não enxerga a jornada inteira.

O quartel-general que quebrou duas vezes

Em 2005, segundo o Feitosa, o Carlinhos decidiu que a Gracie Barra precisava de um quartel-general nos Estados Unidos, onde o jiu-jitsu crescia forte, especialmente na Califórnia. Não havia muito dinheiro nem conhecimento de gestão. Foram ele e o André Fernandes, que dividia o tempo com a organização de competições da IBJJF. A escola tinha uns mil pés quadrados e ficava num galpão.

“Essa primeira escola, depois de dez meses, ela quebrou. Eu já participei de quebrar umas três vezes, no mínimo.”

Feitosa, no Pura Connection · 1:10:42

Ele explicou que a escola tinha alunos e entusiasmo, mas faltou experiência com o que acontece fora do tatame. Uns seis meses depois reabriram, já entendendo o básico de gestão que hoje, segundo ele, é senso comum. Chegaram o Marcos Joca e o Flávio Almeida, e a escola lotou a ponto de os alunos não caberem.

O segundo tombo veio em 2014. O Feitosa, que liderava o quartel-general, tentou passar o bastão para se dedicar às escolas do Brasil. Ele assume o erro: faltou visão na transição, a escola começou a desabar e quem estava à frente não quis continuar. Ele voltou e foi morar num escritório que depois virou o terceiro tatame.

“Eu só vou sair de lá quando a escola estiver bem.”

Feitosa, no Pura Connection · 1:30:41

Os alunos foram voltando e, em 2015, a liderança passou para o Felipe Della Monica, o Furão, que estava com a equipe desde 2008 e fechou a própria escola, a uns quatro quilômetros dali, para assumir. Segundo o Feitosa, está lá até hoje.

Valores na parede e a faixa-coral

Para o Feitosa, o que segurou a Gracie Barra nesses tombos foram os valores que a equipe tentou traduzir do Carlinhos desde cedo: irmandade, integridade, desenvolvimento. Ele contou que muitas escolas colocam esses valores na parede, que existe um curso de instrutores com primeiros socorros e exigência de certidão de antecedentes criminais todo ano, e que nos Estados Unidos a equipe tem um comitê de ética para receber relatos de incidentes. Toda escola precisa ter à vista uma etiqueta de comportamento no tatame, e o aluno assina que entende os riscos antes de treinar.

Ele também tem uma explicação para a força da família Gracie que vale ouvir. Segundo o Feitosa, a primeira geração foi sábia e pensou no longo prazo, e o próprio Carlinhos nasceu quando Carlos Gracie tinha por volta de 56 anos e cresceu perto do pai, que lhe deu o próprio nome.

“Não foi acidente que o Carlos Gracie teve 21 filhos.”

Feitosa, no Pura Connection · 0:09:48

Perto de fazer 50 anos, o Feitosa contou que vai receber a faixa-coral em abril e que encara a graduação como o começo de um ciclo. O que fica da conversa é a imagem de um cara que entrou pela porta da frente de casa, atravessou a rua e nunca mais saiu. A Gracie Barra ganhou o mundo, e ele continua morando na mesma esquina.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.