Pura Connection · Hélio Soneca
Hélio Soneca revela a história da Gracie Barra que tentaram apagar
Da primeira turma de faixas azuis à rivalidade com Carlson Gracie, ele conta como a geração dele fez o nome da equipe na base do tatame.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 25 set 2023 (1:28:50).
Hélio Soneca diz que a Gracie Barra de hoje existe por causa de uma turma de garotos que só queria ganhar de Carlson Gracie. Ele fazia parte dela. No Pura Connection, o faixa-preta que vive há cerca de 20 anos nos Estados Unidos contou os bastidores da equipe nos anos 1980 e disse, sem rodeio, que muita gente dessa história foi deixada de lado.
Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi o jeito como o Soneca mistura gratidão e mágoa quando fala de Carlinhos Gracie. Ele diz que deve tudo ao Carlinhos e, na mesma frase, conta que hoje não tem mais contato com ele.
“Eles tentaram apagar os Machados e tentaram apagar a gente da história da Gracie Barra.”
Hélio Soneca, no Pura Connection · 0:54:11
O goleiro de hóquei que virou Soneca
O Soneca entrou no jiu-jitsu aos sete anos, em Teresópolis, na serra do Rio. Ele diz que dos sete aos 15 só perdeu em campeonato. Numa dessas derrotas, contra um garoto bem mais velho, os colegas de academia riram dele. A resposta foi uma promessa: ia ser melhor do que todos ali. Hoje, segundo ele, muitos daqueles colegas aprendem com ele.
O apelido veio de outro esporte. Ele era goleiro de hóquei sobre patins, levou bolada na cabeça e desmaiou algumas vezes. Foi no hóquei também que conheceu Jean Jacques Machado, que segundo o Soneca era um dos melhores jogadores do Brasil na época.
A mudança para o Rio aconteceu por causa de uma briga. O Soneca conta que Renzo Gracie, que passava fins de semana em Teresópolis, viu o garoto encarar outro na quadra e gostou da valentia. Convidou para passar um fim de semana na casa dele. O Soneca diz que nunca mais saiu: aos 14 anos virou um agregado da família e passou a andar com Ryan e Ralph Gracie.
A primeira turma e a guerra contra Carlson
Segundo o Soneca, a academia a ser batida naquela época era a de Carlson Gracie. Ele conta que a Gracie Barra começou com um timezinho de faixas azuis: ele no peso galo, Ralph no pluma, Gordo no pena e Libório ganhando peso e absoluto. Depois veio a segunda geração, com Draculino e Soca, e em seguida a terceira, com Nino Schembri e Feitosa.
A regra da turma, pelo que ele contou, era só trocar de faixa quando sabia que podia ser campeão na seguinte. E quem puxava a competição eram os próprios alunos. O Soneca diz que Carlinhos nem gostava que eles lutassem campeonato, e que ele e o Gordo juntavam o nome de todo mundo, pegavam ônibus sem dinheiro para a passagem e iam fazer as inscrições.
“O Carlson sozinho fez mais campeões que toda a família Gracie junta.”
Hélio Soneca, no Pura Connection · 0:04:21
A rivalidade era de torcida de futebol. Mesmo assim, o Soneca chama Carlson de sol do jiu-jitsu e diz que também o considera um mestre, porque o jeito provocador dele fez a turma ficar forte. Ele contou que ficou com Carlson em Chicago no fim da vida dele e que perdeu até a vontade de ir a campeonato depois que ele morreu.
Os Machado, o nome Barra Gracie e a briga de família
Para o Soneca, os irmãos Machado são parte central dessa história. Ele diz que Carlos Machado foi o melhor professor que teve e que tenta dar aula do jeito dele, que Rigan Machado foi quem criou o drill e que Jean Jacques é um gênio do jiu-jitsu. Quando Jean Jacques saiu, segundo ele, o grupo se dividiu: ele, o Gordo, Draculino e Ryan foram com os Machado, enquanto Renzo e Ralph ficaram com Carlinhos.
Ele também contou de onde veio o nome. Como já existia a Gracie Humaitá, a turma usou Barra Gracie. E um amigo apelidado de Big Head fez casacos com o nome da equipe e vendeu para ajudar a pagar o aluguel atrasado da academia.
Havia ainda a briga de família. O Soneca conta que, por causa do desentendimento entre Carlson, Crolin e Carlinhos, os alunos das academias nem se falavam, mesmo dividindo o mesmo prédio. Com o tempo, diz ele, a turma percebeu que aquela briga não era deles. Ele abriu uma academia na Gávea com um sócio e deixava a sexta-feira aberta para todo mundo, e por lá passaram Vitor Belfort e Amaury Bitetti.
Carlinhos Gracie, o pai com quem ele não fala
É quando fala de Carlinhos que o Soneca se emociona. Ele diz que o considera um pai, que Carlinhos deu o primeiro emprego a ele e que tudo que tem na vida, inclusive a família, deve a ele. Carlinhos, segundo o Soneca, nunca foi de ficar mostrando posição, mas ajeitava um detalhe aqui e outro ali, no tatame e na vida.
“Por ele eu mato e morro.”
Hélio Soneca, no Pura Connection · 0:57:53
O afastamento veio depois. O Soneca conta que chegou aos Estados Unidos pela Gracie Barra, teve desentendimentos e saiu, e admite que era um filho rebelde e que talvez estivesse mais errado do que certo. Hoje ele é independente. Sobre o slogan jiu-jitsu para todos, ele brinca que o dele é só para quem ama o jiu-jitsu. Ele também lembra de Ralph, que segundo ele foi dos primeiros a fazer propaganda da equipe lá fora e de quem muito professor da Gracie Barra deveria se lembrar.
O que fica da conversa
O Soneca define a geração dele como a ponte entre o jiu-jitsu antigo e o moderno: a turma que foi atrás de boxe, sambo, luta olímpica e muay thai e que teve de provar a arte na base da porrada, incluindo as brigas em boate que foram parar nos jornais. Ele reconhece os erros e agradece até aos rivais da luta livre, como Eugênio Tadeu e Wallid Ismail.
Com 46 anos de jiu-jitsu e 33 dando aula, ele diz que quer voltar para Teresópolis e dar aula de graça em comunidade, usando o jiu-jitsu para mudar a cabeça dos jovens da cidade. Saí da entrevista com a impressão de que ele ainda fala como aquele garoto que prometeu ser melhor do que todo mundo.
“A geração do seu Hélio veio com facão e abriu a rua. A minha geração botou asfalto para essa galera agora se dar bem.”
Hélio Soneca, no Pura Connection · 0:08:32
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.