Pura Connection · Pinduca
Pinduka conta como aceitou o desafio da luta livre com 10 dias de treino
Aluno e assistente de Carlson Gracie por oito anos, o mestre lembra o vale-tudo de 1984, os tempos com Rolls e a briga para pôr o jiu-jitsu na faculdade.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 16 ago 2024 (1:17:51).
O desafio já estava marcado e ninguém tinha se apresentado para defender o jiu-jitsu. Fernando Pinduka subia a escada da academia para treinar quando ouviu Robson e Carlson Gracie discutindo o assunto. O pessoal da luta livre tinha desafiado o jiu-jitsu e faltava gente para lutar. Ele não pensou duas vezes.
“Põe aí meu nome que eu vou. Não sabia nem o que estava acontecendo.”
Pinduca, no Pura Connection · 0:26:04
Assisti à conversa do Pinduka no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi isso: um cara que sempre se ofereceu para a briga e, ao mesmo tempo, passou a vida estudando. Nos anos 1980 ele foi um dos nomes do jiu-jitsu nos confrontos contra outras lutas. Depois foi para a universidade, fez pós-graduação e hoje, passando dos 70 anos, dá aula em Copacabana e toca um curso próprio de defesa pessoal.
Dez dias para treinar e uma regra: não perder
Segundo o Pinduka, a decisão de quem ia lutar passou por Hélio Gracie. O Hélio avisou que ninguém da família entraria: quem ia eram os alunos, porque aqueles caras não estavam à altura de desafiar os Gracie. O Carlson contou que o Pinduka tinha se oferecido e o Hélio aprovou o nome na hora. Depois vieram Marcelo Behring, um lutador chamado Inácio e Renan, que o Pinduka descreve como um surfista de ondas gigantes que nunca tinha brigado na rua, mas foi corajoso.
A luta estava marcada para dali a 10 dias. O Pinduka perguntou ao Carlson como iam treinar e a resposta foi "é assim mesmo". Ele conta que o Carlson confiava tanto nos alunos que não queria preparação especial. Foi o Robson quem resolveu: levou o grupo para treinar com o tio, na academia do Hélio. Lá eles fizeram um mutirão com Rickson e os alunos da casa, com o Hélio supervisionando tudo.
O adversário, segundo ele, era preparado: tinha noção de luta em pé, de chão e batia bem. O Pinduka levou a luta para o chão e controlou nos três rounds, mas não finalizou. O problema foi o relógio. Faixa-preta estava acostumado a lutar 10 minutos, e ali eram rounds de 5, valendo golpe.
“Na hora que foi para o chão e eu comecei a pensar no que ia fazer, acabava o round.”
Pinduca, no Pura Connection · 0:38:37
Mesmo assim ele saiu satisfeito. Para o Pinduka, o objetivo do lutador de jiu-jitsu contra outras artes marciais era um só: não perder. E ele lembra que nos vale-tudos antigos, na época do Hélio e do Carlson, não havia limite de tempo, o que dava ao lutador de jiu-jitsu uma tranquilidade que ele não teve.
Vizinho dos Gracie em Copacabana
A história dele no jiu-jitsu começa em 1966, aos 12 anos. O pai o colocou para treinar porque o menino apanhava dos garotos mais velhos nas ruas de Copacabana. O primeiro professor foi Hélio Vígio, aluno do Hélio Gracie. Quando o Vígio passou na prova para delegado e ficou sem tempo, pediu ao pai do Pinduka que levasse o filho para o Carlson. Segundo o Pinduka, o Carlson gostou dele logo de cara e começou a investir no garoto.
O Carlson virou mais que professor. O Pinduka foi assistente dele durante oito anos e o chama de segundo pai. Ele morava perto da casa da família, na esquina das ruas Figueiredo Magalhães e Domingos Ferreira, e virou uma espécie de agregado: passava verões em Teresópolis com os Gracie e via Carlos Gracie dar aula na grama, em cima de uma lona. Ele conta que aprendeu a dieta com o Carlos e que o velho mestre o curou com ervas de uma infecção que quase fez ele perder a perna.
Em 1974, servindo no Exército, ele só tinha a quarta-feira livre. O Carlson dava aula terça e quinta; Rolls Gracie dava segunda, quarta e sexta. Com a bênção do Carlson, o Pinduka passou um ano treinando só às quartas com o Rolls, das 4 da tarde às 10 da noite. Foi o Rolls, segundo ele, quem trouxe o sambô e a luta olímpica para o grupo, numa época em que ninguém sabia o que era sambô, e montou uma equipe de luta olímpica.
“O Carlson foi um segundo pai para mim. Foi um cara que me deu milhões de oportunidades.”
Pinduca, no Pura Connection · 0:25:01
Quando a queda valia ponto
O Pinduka viu o jiu-jitsu virar esporte. Ele conta que a Federação foi inaugurada em 1967 e que, em 1970, houve um campeonato experimental no Gurilândia. Ele tinha 15 anos, ainda não existia hierarquia de faixa, e o Carlson o inscreveu de faixa verde. Venceu quatro lutas, foi campeão e passou para azul juvenil. Depois veio o primeiro campeonato oficial, com Hélio Gracie de presidente e João Alberto Barreto de vice.
Naquele tempo, segundo ele, a luta em pé era muito disputada: queda valia dois pontos, passagem de guarda três, montada e pegada nas costas quatro, joelho na barriga três. Ele pegou a faixa-preta em 1978 e, em 1983, foi campeão do meio-pesado e do absoluto num campeonato em Niterói.
Ele também lembra que a chave de pé era vaiada nos anos 1970. Nas lutas contra o pessoal da zona norte, o Rolls dizia que aquilo não era técnica de jiu-jitsu, que o certo era estrangular, pegar o braço ou a chave americana. Hoje o Pinduka acha que a chave de pé evoluiu por causa do estudo da anatomia. O que ele não engole é a vantagem:
“Na minha época a gente lutava pelo todo. Hoje a luta é para trás.”
Pinduca, no Pura Connection · 0:54:59
O jiu-jitsu que entrou na Gama Filho
A parte acadêmica é onde o Pinduka mais se orgulha. Formado em Educação Física na Gama Filho em 1978, ele viu um colega colocar o karatê no currículo e decidiu fazer o mesmo pelo jiu-jitsu. Segundo ele, o reitor era karateca e exigiu que ele provasse o valor educacional de uma luta que, naquela época, aparecia nos jornais por causa de briga de praia. Ele conta que o jiu-jitsu só entrou porque Pedro Gama Filho bancou a ideia.
Foi dessa disciplina que nasceu o curso que ele dá hoje. Pedro Gama Filho passou a fazer aulas de defesa pessoal com o Pinduka, que anotava tudo num caderno para não repetir. Em 2018, relendo aquelas anotações, ele montou o Master Class. João Alberto Barreto foi o padrinho da primeira turma. São 50 situações de ataque e defesa, quase 400 posições divididas em 10 módulos, com 15 vagas por turma. Ele diz que já está na sexta turma.
“Enquanto o pessoal procurava se valorizar pela faixa, eu estava me aprofundando no estudo.”
Pinduca, no Pura Connection · 0:23:14
O que fica da conversa
O Pinduka é daqueles que ligam as pontas da história. Ele lembra do confronto contra o karatê no Olímpico Clube, em que lutaram Rolls, Rickson, Rorion e Serginho, o principal aluno do Carlson na época e ídolo dele quando garoto. Lembra também da briga contra a equipe de judô da Gama Filho que terminou 3 a 3, com o Robson jogando o troféu no meio do ringue.
Mas o recado dele é para o presente. O jiu-jitsu, na visão do Pinduka, tem uma parte terapêutica, uma de combate, uma filosófica e uma de defesa pessoal, e muita gente chega à faixa-preta conhecendo só a esportiva. Para quem quer entender a geração que carregou o jiu-jitsu nos anos 1970 e 1980, vale ouvir alguém que esteve lá e ainda está no tatame.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.