Pura Connection · Ana Rodrigues
Ana Rodrigues: expulsa de casa aos 15, campeã mundial de jiu-jitsu
Ela chegou a São Paulo com 100 reais no bolso e hoje comanda uma academia de jiu-jitsu só para mulheres.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 4 mai 2026 (1:19:38).
Aos 15 anos, Ana Rodrigues brigou com o pai porque queria viver de jiu-jitsu. Segundo ela, ele disse que, se fosse para fazer jiu-jitsu, ela não podia morar na casa dele. No dia seguinte ela foi embora para São Paulo com 100 reais no bolso.
Assisti à conversa dela no Pura Connection e fiquei impressionado com a franqueza. A Ana contou que o pai ainda disse, na saída, que ela não seria campeã mundial nem faixa-preta. Ela foi campeã mundial em todas as faixas até chegar na preta. Hoje, aos 27 anos, toca a Organic House, uma academia de jiu-jitsu feita só para mulheres, a maioria delas gente que nunca tinha pisado num tatame.
“Ganhar mundial é 80% cabeça e 20% jiu-jitsu.”
Ana Rodrigues, no Pura Connection · 0:37:52
Da comunidade no Rio à primeira aula
A Ana cresceu numa comunidade no Rio, numa família muito pobre. Ela contou que viu de perto a criminalidade, o abuso infantil e meninas engravidando com 10, 13 anos, e que tudo aquilo era tratado como normal.
Com 8 anos decidiu que seria atleta profissional, só não sabia de quê. Aos 13, uma amiga a levou para assistir a um treino de jiu-jitsu e foi amor à primeira vista. Na primeira aula, segundo ela, o professor Márcio Rodrigues chamou a mãe dela para conversar e pediu que não a tirasse do jiu-jitsu, porque ela tinha futuro. A mãe dava um jeito de pagar a mensalidade.
O Márcio fez mais do que ensinar. A Ana contou que, quando a mãe avisava que ela estava num baile funk, ele ia lá, a tirava de lá e a levava para casa. Para ela, ele impôs disciplina e respeito numa fase em que isso fazia falta.
A conversa com o Guigo e a vida dentro da academia
Em São Paulo, a Ana apareceu na academia do Guigo sem avisar. Esperou ele chegar, subiu ao escritório e pediu que ele acreditasse nela, porque ela ia ser a melhor do mundo. Segundo a Ana, ele perguntou se ela tinha uns 16 anos. Ela respondeu que ele podia mandá-la embora no primeiro problema que desse.
“Ele falou que nenhum homem na vida falou com ele como eu falei naquela sala.”
Ana Rodrigues, no Pura Connection · 0:33:43
Ela passou a morar na academia. Descreveu a fase como um pesadelo. Morava com um monte de homens, se isolava e tratava todo mundo mal de propósito, para ninguém atrapalhar. A única pessoa com quem era gentil era o Guigo. Ela sabia que o primeiro erro significaria voltar para o Rio.
O dinheiro veio depois, quando surgiram os Grand Slams e ela começou a lutar de faixa-marrom e ganhar tudo. Juntou os prêmios em dólar, ajudou a fundar a equipe Dream Art, que tinha um investidor apostando em atletas, e aprendeu a investir. Ela disse que lutava o que aparecesse, no peso de cima ou no de baixo, e que quebrou muito o corpo nessa fase.
A mãe teve um papel enorme. A Ana contou que a vontade de ganhar dinheiro nasceu quando a mãe foi diagnosticada com câncer. Hoje a mãe mora em São Paulo, trabalha na academia da filha e é faixa-marrom.
Cabeça de atleta e provocação na internet
A Ana se descreveu como uma atleta muito egoísta. Contou que desligava na cara da mãe quando ela ligava, para não sentir saudade e não pensar em voltar. E disse que a dúvida do pai sempre funcionou como combustível.
Ela também admitiu que provocava de propósito nas redes. Anunciava que ia vencer, gerava haters e usava a dúvida dos outros para se motivar. Os eventos gostavam disso e a contratavam por causa da presença nas redes. Ela fez questão de dizer que nunca quis desrespeitar a adversária.
“No dia não ganha quem tem o melhor jiu-jitsu.”
Ana Rodrigues, no Pura Connection · 0:39:54
Hoje o título pesa menos. Ela não lutou o Mundial do ano passado porque tinha feito cirurgia e decidiu não lutar este ano. Segundo a Ana, o título mundial deixou de significar muita coisa para ela.
Uma academia só para mulheres
A virada veio no contato com mulheres fora do mundo da competição. A Ana contou que cresceu cercada de mulheres bravas, que brigavam com qualquer homem, e achava que todas eram assim. Quando começou a dar aula, percebeu o quanto muitas eram vulneráveis e ouviu relato atrás de relato de problemas em academias.
Ela também reconheceu que já foi machista com outras mulheres no tatame, desprezando quem não aguentava o treino. Disse que conversou sobre isso com a Kyra Gracie, que também pensava assim na época.
Quando anunciou a academia, ouviu que não daria dinheiro, inclusive de uma faixa-preta campeã mundial que disse que onde tem mulher tem problema. Abriu mesmo assim. Na Organic House, homem e mulher nunca dividem o tatame: os alunos homens, quase todos maridos, namorados e pais das alunas, treinam num horário separado.
“Primeira aula de mulher tem que ser com mulher.”
Ana Rodrigues, no Pura Connection · 0:52:32
O trabalho, segundo ela, vai muito além do tatame. Ela contou que se trancou no banheiro com uma aluna em crise de ansiedade, que no primeiro momento a viu como agressora por causa de um trauma. Para evitar qualquer problema, nunca dá aula particular sozinha e, quando precisa ter uma conversa séria, chama testemunha ou grava.
A Ana contou que a academia já deu prejuízo de mais de um milhão, mas que o último mês foi o melhor desde a abertura e que um estúdio em São Bernardo já está pronto. O plano é ter um espaço assim em cada estado. O que fica da conversa é a história de uma atleta que se definia como egoísta e hoje passa o dia ouvindo, uma a uma, as mulheres que chegam ao tatame dela.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.