Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Ana Carolina Schmitt
Ana Schmitt conta a estratégia que a fez campeã mundial de jiu-jitsu
A faixa-preta de Blumenau fala da lesão que encerrou a ginástica, do tendão rompido, dos dois anos com Letícia Ribeiro e do plano para a final de 2019.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 15 fev 2021 (0:39:35).
Fazer guarda, segurar o jogo e explodir no fim. Foi com esse plano, simples de falar e difícil de cumprir, que a Ana Carolina Schmitt chegou ao título mundial de jiu-jitsu em 2019. E agora, segundo ela mesma, o que ela quer é justamente o contrário: soltar o jogo e lutar para finalizar.
A Aninha, como é chamada, foi a convidada do episódio 19 do podcast do Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, gravado no estúdio, com o marido e o filho pequeno assistindo. O apresentador treinou com ela em Blumenau e conhece a história de perto. Assisti e gostei de como ela fala do caminho até o título sem enfeitar nada.
A ginástica que ficou para trás
Antes do jiu-jitsu, a Aninha era atleta de ginástica rítmica desde os seis anos. Ela contou que competia em nível alto, estava entre as primeiras da turma a se classificar para o Brasileiro e já se planejava para estágios fora do país. Para ela ter noção da concorrência, explicou que na ginástica uma categoria podia ter 70 ou 80 meninas, enquanto no jiu-jitsu feminino dificilmente passa de dez.
A rotina era pesada: treino de segunda a sexta até a noite e competição no sábado o dia inteiro. Por volta dos 12 anos, segundo ela, veio uma lesão séria na coluna, uma escoliose que ela liga ao próprio treinamento, bem na fase de crescimento. Ela parou e ficou fazendo esporte na escola, handebol e vôlei.
O jiu-jitsu apareceu aos 14 anos, em Blumenau. Ela estudava no mesmo colégio de Amanda Neves, irmã do Gui Neves, que ia abrir uma turma de adolescentes. A Aninha foi fazer a aula experimental com outras três meninas. Nenhuma delas continuou. Ela nunca mais parou.
“Eu fiz uma aula e aí eu nunca mais parei. Já me apaixonei.”
Ana Carolina Schmitt, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:04:46
Da turma de adolescentes ela passou para a de adultos e, mais tarde, foi treinar na Casa da Luta, perto da Vila Germânica. Foi lá que conheceu o apresentador do programa: ela era faixa-azul e ele, faixa-roxa. Desde cedo, contou, gostava de desafio e de treino pesado, e competir era parte disso.
De hobby a profissão, com Letícia Ribeiro
Por muito tempo, o jiu-jitsu foi hobby. A Aninha contou que vem de família tradicional de Blumenau, daquelas que querem ver a filha formada, pós-graduada e fazendo carreira numa empresa. Quando falou em gravar vídeo para o YouTube, a reação em casa foi de espanto. Ela também disse que demorou para entender o tamanho do jiu-jitsu fora do Brasil, onde, segundo ela, o aluno investe muito e não tem medo de pagar aula particular.
A virada veio com a troca de equipe e a ida para os Estados Unidos. Ela morou dois anos na casa da Letícia Ribeiro, trabalhando e treinando, e contou que ali encontrou uma das equipes femininas mais fortes do mundo. Treinou com a Gabi Pessanha e com a Maxine Thylin, com quem, segundo ela, fechou a categoria no Mundial de 2017.
“Quando tu tem um grupo assim, a energia de campeão vai passando.”
Ana Carolina Schmitt, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:13:13
O tendão rompido e as finais perdidas
O caminho teve um tropeço sério. Em 2015, contou a Aninha, ela rompeu completamente o tendão patelar num treino. Operou entre o fim de novembro e o começo de dezembro daquele ano, voltou a treinar em maio e em maio de 2016 foi morar nos Estados Unidos, onde ficou até 2018. Ela diz que o joelho nunca voltou a 100%.
Depois disso, as finais bateram na trave. Em 2017, ela e a Maxine fecharam a categoria. Em 2018, segundo a Aninha, ela perdeu a final do Mundial na decisão dos juízes. Ela também lembrou de uma viagem da Austrália para Abu Dhabi, com mais de 24 horas de voo, chegando um dia antes de lutar: não dormiu, perdeu o apetite, emagreceu e o fuso atrapalhou a luta.
Como veio o título de 2019
No Mundial de 2019, a primeira luta foi contra a Larissa, que a Aninha descreveu como muito dura por baixo. Ela venceu na vantagem. A segunda foi contra a Ariadne, que costuma lutar no peso pluma e tinha subido para o pena. A Aninha contou que ficou por baixo, com o braço preso, e que a luta inteira foi a adversária dando blitz e ela se defendendo.
Na final, contra a Bia Mesquita, entrou o plano. O apresentador lembrou que estava na arquibancada e ouviu a estratégia do córner: fazer guarda, segurar o jogo e explodir no final. A Aninha confirmou que foi assim que ganhou, na estratégia. Ela lembrou que a categoria era muito equilibrada, com meninas do mesmo nível.
O apresentador comentou que não teria sangue-frio para lutar desse jeito, porque atacaria o primeiro braço que aparecesse. A Aninha concordou que no nível da faixa-preta qualquer erro abre espaço para o contra-ataque.
Soltar o jogo, a maternidade e o projeto
Com o título na mão, a motivação mudou. A Aninha disse que antes queria ganhar a todo custo e que isso passou. Agora quer lutar um jiu-jitsu aberto, para finalizar ou ser finalizada, e tem treinado passagem e jogo por cima com o marido.
“Eu não me motivo mais pela medalha.”
Ana Carolina Schmitt, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:22:59
Ela contou que fez drill na academia durante a gravidez e que o filho, que chora em casa, fica calmo quando chega ao tatame. Também falou do projeto que mantém com o marido na Gracie Barra Blumenau para formar atletas da região. Segundo ela, o projeto começou em abril, oferece treino, alimentação e preparação física e já recebe jovens de Brusque, Itajaí e do Rio de Janeiro, como um faixa-azul de 17 anos e um faixa-roxa de 21.
O que fica da conversa é o retrato de uma campeã que chegou lá fazendo o que precisava ser feito e que agora quer lutar do jeito que gosta. Fiquei curioso para ver essa versão dela.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.