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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Alexandre Nascimento

Árbitro gaúcho em Abu Dhabi revela o caminho olímpico do jiu-jitsu

Alexandre Nascimento saiu de moto de madrugada de Rio Pardo para uma entrevista no Rio e hoje dirige a arbitragem de três federações de jiu-jitsu nos Emirados.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 18 jan 2021 (1:16:28).

Numa quinta-feira de madrugada, entre duas e três da manhã, o Alexandre Nascimento subiu na moto em Rio Pardo, no interior do Rio Grande do Sul, e foi até o aeroporto de Porto Alegre. Perdeu o primeiro voo, pegou o seguinte e chegou ao hotel em Copacabana onde uma comitiva de Abu Dhabi entrevistava professores de jiu-jitsu. Foi contratado na primeira tentativa.

Hoje, segundo ele, é diretor de arbitragem de três federações de jiu-jitsu nos Emirados Árabes e trabalha num projeto que muita gente no Brasil nem sabe que existe: levar o jiu-jitsu para os Jogos Olímpicos pelo caminho dos comitês olímpicos. Assisti à conversa dele no podcast do Muito Mais Ação Jiu-Jitsu e saí sabendo bem mais sobre esse lado do esporte.

Três federações e o foco olímpico

O Alexandre está em Abu Dhabi desde 2012. Ele explicou que cuida da arbitragem da federação nacional dos Emirados, da união continental asiática e da federação internacional, a JJIF, que é a que tem o foco olímpico. Os grandes eventos internacionais, contou, passaram a ser feitos por uma empresa, a AJP, e o trabalho dele ficou do lado das federações.

Ele fez questão de dizer que a regra usada é a do jiu-jitsu brasileiro e que cuida para manter a régua o mais original possível. Segundo o Alexandre, o jiu-jitsu já participa de vários eventos ligados ao Comitê Olímpico da Ásia. O primeiro de que ele participou foi o Beach Games de 2014, e 2018 foi um marco, com a entrada nos Asian Games, que ele comparou aos Jogos Pan-Americanos.

Ele contou também que, num Beach Games no Vietnã, em 2017 se não se engana, o presidente do Comitê Olímpico Internacional foi assistir às lutas de jiu-jitsu e entregou medalhas. Para o Alexandre, o gesto tem um valor simbólico enorme.

“Ele sentiu a emoção de ver uma luta e ele viu que tem um público que assiste.”

Alexandre Nascimento, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:10:30

Na visão dele, o jiu-jitsu vai se dividir entre a versão olímpica e a tradicional, como aconteceu no boxe, que tem o olímpico e o profissional. Ele discorda de quem acha que o apoio do governo mataria as academias.

Regra que muda a cada evento

O Alexandre é crítico das mudanças de regra que surgem nos eventos de luta casada. Segundo ele, elas quase sempre vêm do organizador, que quer deixar a luta mais bonita para a televisão, e nunca de um grupo de árbitros. O atleta treina um movimento a vida inteira e, de repente, num evento ele vale e no outro não. Para o árbitro, que tem meio segundo para decidir, é a mesma confusão.

Ele lembrou de um evento sem tempo e quase sem regra em que os atletas ficaram 40 ou 50 minutos lutando, cansados, sem conseguir fazer mais nada. Na opinião dele, ninguém quer assistir a isso, e a história do UFC mostra que o tempo de luta importa.

O exemplo que mais gostei foi o do Augusto Tanquinho. O Alexandre contou que o Tanquinho, que também arbitrava, conhecia a regra de amarração melhor do que ninguém. Chegava a uma posição, segurava, e contava os 20 segundos na cabeça. Quando dava 16, soltava, o adversário se mexia, e ele voltava a apertar. Segundo o Alexandre, ele sabia exatamente o que o árbitro estava pensando. O Alexandre também lembrou que o Tanquinho é aluno do Francisco Mansur.

“Ele sabia exatamente o que eu tava pensando.”

Alexandre Nascimento, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:28:20

Conselhos para quem quer apitar

Para quem pensa em ser árbitro, o conselho é arbitrar eventos menores e competir. Os dois lados, segundo ele, ensinam a enxergar a luta de outro jeito. E fazer curso de regra, que hoje, diz ele, tem até completo no YouTube.

Ele pediu respeito dos professores. Uma coisa é o torcedor gritar, outra é alguém que vive da luta tentar induzir o árbitro ao erro. Um árbitro experiente deixa passar, mas um iniciante pode ficar mal o dia inteiro. O Alexandre disse que não conhece árbitro que roube de propósito, que a regra é difícil e que sempre tem gente nova chegando. E contou que o próprio grupo de árbitros afasta quem age de má-fé.

Do avião ao tatame

O inglês, que ele chama de diferencial, veio da aviação. O Alexandre contou que fez faculdade ligada à escola de aviação da Varig, passou até por treinamento em câmara hiperbárica numa base no Rio, e dava instrução no aeroclube do interior. A aviação quebrou, a esposa ficou grávida e ele escolheu o jiu-jitsu, que até então era um complemento. Ainda faixa-roxa, já dava aula para os amigos.

Em 2011, viu o anúncio da comitiva num site de jiu-jitsu numa quarta-feira. Exigiam faixa-preta, experiência com criança e inglês. Na quinta já estava na estrada. Ele lembra que, ao chegar ao hotel, disseram que as vagas de entrevista estavam cheias, e ele insistiu com a moça do RH e depois com o supervisor, um brasileiro, até ser atendido.

O Feijão, que divide a apresentação e também passou pelo projeto em Abu Dhabi, deu o contraponto. Contou que as promessas do contrato mudaram quando chegou, que a família só podia ir depois de um ano e que pediu a conta umas cinco vezes. O Alexandre concordou que o custo de vida é alto e que tudo depende da expectativa de cada um.

Jiu-jitsu da China a Israel

A parte final foi a que mais me surpreendeu. O Alexandre contou que viu quatro brasileiros treinando seleções nacionais de Singapura, Malásia e Indonésia num evento do sudeste asiático, que a China está montando a estrutura do jiu-jitsu no ministério do esporte com gente vinda do judô olímpico e que ele passou duas semanas lá dando seminário. Segundo ele, o livro de regras já foi traduzido para árabe, russo e chinês, e agora vai para o hebraico, depois de um acordo de Israel com os Emirados.

O que fica da conversa é que o jiu-jitsu abriu uma porta para o Alexandre que ele nem sabia que existia. E ele faz questão de responder dúvida de regra de todo mundo, porque lembra de quando, lá em Rio Pardo, a novidade só chegava quando alguém voltava de um campeonato no Rio.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.