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Pura Connection · Bernardo Mastrangelo, Léo Beta

Bernardo Mastrangelo abre os bastidores da seletiva do ADCC e da Rasta Hale

Faixa-preta de 23 anos conta as sete lutas até o bronze, a estratégia com o pai e como nasceu a marca que une jiu-jitsu e surf.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 27 abr 2026 (1:37:09).

Bernardo Mastrangelo chegou à arena da seletiva do ADCC às 7 da manhã, com o pai, quando a luta dele estava marcada para as 9h30. Fez ponte de pescoço na área de concentração e prometeu a si mesmo que seria um dos últimos a sair. Não foi campeão, mas cumpriu a promessa: ficou em terceiro, depois de sete lutas, e comemorou a disputa de bronze como se fosse final.

Duas semanas depois, ele sentou no Pura Connection ao lado de Léo Beta, o amigo que criou a Rasta Hale, marca de roupa que junta jiu-jitsu, surf e reggae. Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a clareza com que um faixa-preta de 23 anos fala de respeito, de estratégia e de lutar se divertindo.

“Se eu perdi a semifinal e depois ganhei a disputa de terceiro, eu acabei de ser um vencedor, porque ganhei a última luta.”

Bernardo Mastrangelo, no Pura Connection · 0:12:08

Sete lutas, 66 quilos e um pai no ouvido

Bernardo contou que a chave tinha perto de 200 pessoas e que ele pensava luta por luta, nunca na final. Na primeira, finalizou com um triângulo de mão. Na segunda, pegou uma chave de tornozelo em 30 segundos. A terceira foi contra um companheiro de treino da Nova União, lutador de MMA, com a base alta. Ali ele encaixou o imanari roll, a posição de que mais gosta.

Ele lembrou que o adversário forte da chave, Kauan Gabriel, tinha finalizado em 20 segundos. O pai chegou no ouvido dele e mandou finalizar mais rápido. Bernardo diz que finalizou em 9 segundos.

Contra Kauan, a estratégia montada com o pai era atacar o tornozelo por cima. No meio da luta ele mudou o plano, passou a buscar a passagem de guarda e, quando derrubou Kauan num arm drag, preferiu não colar no chão. Segundo ele, a guarda de Kauan é muito chata, e o público queria ver briga em pé.

A derrota veio na semifinal. Bernardo reconheceu o erro: aceitou a briga num body lock quando devia ter circulado e trocado pegada. Ele lutou leve, com 66 quilos, enquanto muitos caíam de 74 ou 75. O pai já tinha avisado que aquele ADCC seria para se divertir, porque ele estava fora do peso ideal. O foco dele era o kimono: tinha lutado o Europeu no peso pluma.

Nos intervalos, o pai cuidava de tudo. Mandava vestir o casaco para não esfriar e, 30 minutos antes de cada luta, dava um shot de beterraba. Bernardo aquecia com acrobacia de wrestling e tapa na cara, para acordar o corpo.

Nova União, Miltinho e o treino de wrestling

A rotina que Bernardo descreveu tem até três treinos por dia. De manhã, kimono na Nova União, onde, segundo ele, Dedé Pederneiras ensina detalhes pensados para o MMA, de onde machuca e onde se posicionar para incomodar o oponente. Duas vezes por semana, wrestling com o Pirata. À noite, sem kimono na Rio Fighters, com Miltinho.

Ele contou que Miltinho deu atenção especial no camp para o ADCC e, na própria área de concentração, ensinou um gatilho para entrar no tornozelo, jogando o cotovelo para trás como numa braçada de costas. Foi com essa entrada que Bernardo finalizou a disputa de terceiro.

“É o treino que mais melhora a minha mobilidade, meu condicionamento, tudo. É o treino de wrestling.”

Bernardo Mastrangelo, no Pura Connection · 1:11:48

Bernardo disse que o sparring de MMA tirou o medo de entrar em queda e que ainda quer lutar MMA. Para faixa-branca, porém, o conselho é outro: treinar de kimono até a azul e aprender o básico, sem berimbolo.

Nasceu no tatame, com o pai faixa-preta

A primeira lembrança de Bernardo com grappling é de quando tinha 7 anos. Ele contou que chegou no escritório do pai, faixa-preta há muito tempo, e o encontrou assistindo à final do ADCC entre Rafael Mendes e Cobrinha. Depois vieram os vídeos de Ricardo Arona. Pouco tempo depois o pai montou uma turma infantil, e ele começou a treinar com uns 8 anos.

Segundo Léo, Bernardo passou por todas as faixas infantis, amarela, laranja, verde, até chegar à preta. Bernardo disse que nunca ficou mais de uma semana sem treinar e que nunca se machucou. Para ele, a regra de idade das faixas é o que faz o jiu-jitsu perfeito.

“Um garoto de 17 anos tem que ser faixa-azul. Independente dele finalizar todos os faixas-pretas, ele tem a maturidade de faixa-azul.”

Bernardo Mastrangelo, no Pura Connection · 0:27:33

O André, apresentador do Pura Connection, lembrou que Pedro Sauer diz algo parecido: quem começa aos 7 anos chega aos 17 com dez anos de tatame, horas de faixa-preta numa faixa-azul.

A Rasta Hale e o grito de respeito

Léo contou que a marca nasceu no quintal da casa dele, com um tatame decorado com bandeiras do Havaí, numa fase em que tinha rompido um ligamento e precisava fazer dinheiro. A casa recebia gente de fora do Rio para surfar e treinar. Hale, explicou, é casa em havaiano. A primeira produção, de 60 rashguards, vendeu toda para fora do Rio de Janeiro. Bernardo morou ali dois meses e os dois viraram irmãos.

Léo, que estudava direito, disse que viu no jiu-jitsu uma corda de resgate: conhecia muita gente que vivia em lugar paradisíaco dando aula, e no Havaí, segundo ele, o faixa-preta brasileiro tem total respeito.

O assunto mais comentado da seletiva também apareceu. Bernardo contou que, depois da primeira luta, deu um berro de "respeito, rapaz" para um adversário que o encarava. Disse que se voltasse no tempo não faria, e que a filosofia dele é zero trash talk. Ele citou a luta de Anderson Silva e Chael Sonnen como provocação que funcionou para o público, mas acha que provocação forçada é falta de respeito gratuita.

Léo viu no episódio uma coleção. O nome já está escolhido: Pitbull Aloha. No fim, Bernardo se definiu como alguém da nova geração com cabeça das antigas, e o que fica da conversa é justamente isso: um atleta que ataca o tempo todo no tatame e trata a hierarquia do dojô como coisa séria.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.