Pura Connection · Eduardo Brigadeiro
Brigadeiro conta o teste de Jorge Pereira que mudou sua vida no jiu-jitsu
Faixa-marrom aos 16 anos e dono de academia na Barra, ele passou anos com uma história mal resolvida até uma mensagem no Facebook.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 27 dez 2021 (1:13:10).
O Eduardo Brigadeiro tinha 16 anos e era faixa-marrom quando assumiu uma academia de jiu-jitsu na Barra da Tijuca. Pouco depois, recebeu a visita de Jorge Pereira, que foi lá, nas palavras dele, para testar se aquele garoto estava pronto. O clima ficou tenso e a história ficou mal resolvida por muito tempo. Anos depois, os dois se reencontraram pelo Facebook, e o Brigadeiro aproveitou para agradecer.
Assisti à conversa dele com o André Freitas no Pura Connection, e o André tem um motivo especial para receber esse convidado: o Brigadeiro foi o mestre dele, quem ensinou tudo o que ele sabe de jiu-jitsu. Por isso o papo tem cara de reencontro. Fala de graduação, de medo, de doença, de mudança de país e de uma frase que eu quero pendurar na parede da minha academia.
“Você me testou para ver se realmente eu estava pronto para representar esse jiu-jitsu.”
Eduardo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:23:55
O dia em que Jorge Pereira apareceu na academia
O Brigadeiro contou que foi um dos primeiros a ter uma academia de jiu-jitsu com o próprio nome na Barra. Segundo ele, as referências da época eram a Gracie Barra, a turma do Carlson e o grupo do Jorge Pereira. Ele era um garotão de 16 anos, faixa-marrom, com uma galera do clube que abraçou a ideia. E, como ele mesmo disse, era necessário passar pelo teste.
O teste veio com o Jorge Pereira. O Brigadeiro não entrou em detalhe do que aconteceu naquele dia, só disse que o clima foi pesado e que aquilo ficou pendurado na vida dele durante anos. Cerca de um ano e meio antes da gravação, chegou uma mensagem no Facebook: "E aí, Brigadeiro". Ele contou que gelou por dentro. Só que o tom era amistoso, o Jorge quebrou o gelo e os dois conversaram.
Foi aí que o Brigadeiro disse o que guardava. Segundo ele, a vida dele mudou completamente depois daquele dia, porque foi obrigado a agir em cima do próprio medo, da insegurança e da falta de maturidade. Ele contou que passou isso para os alunos da forma mais direta possível: tem que estar pronto, porque a vida pode trazer um desafio a qualquer momento.
Faixa se amarra em dois segundos
A conversa foi gravada no fim do ano, época de graduação, e o Brigadeiro tem opinião forte sobre isso. Para ele, o aluno que conta aulas e posições como se fosse uma cartilha está olhando para o lugar errado. O que conta é a maturidade de tatame, que ele descreve como cicatrizes: de frustração, de persistência, de apanhar hoje e voltar amanhã.
“O jiu-jitsu tem que criar cicatrizes em você.”
Eduardo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:10:50
Ele contou uma cena ótima. Uma menina chamada Luna pegou uma faixa-preta na academia e amarrou na cintura, de brincadeira. A resposta dele foi pode botar, só que a partir dali ele ia olhar para ela como faixa-preta. A faixa tem peso, e quem veste vai ter que sustentar.
“Pode botar, não tem problema. Amarrar faixa é a coisa mais fácil.”
Eduardo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:09:17
O André lembrou de quando era faixa-roxa e as vitórias não vinham. Segundo ele, o Brigadeiro o chamou num canto para lembrar que um aluno graduado vira referência para os outros: pontualidade, atitude, higiene, quimono limpo. O Brigadeiro completou com uma frase que atribuiu ao saudoso Robson Gracie: tem que ter garrafa para vender. Não adianta achar que basta botar a faixa na cintura.
E a faixa-preta, para ele, marca o começo da maturidade. O mestre também tem que conhecer o aluno de verdade: ele disse que não admite conviver dez ou vinte anos com alguém sem saber quem essa pessoa é, e que vê a academia como uma paternidade.
Leucemia, covid e quatro faixas-pretas guardadas
A parte mais forte da entrevista veio do nada. O Brigadeiro contou que tinha passado pela covid, ficou internado e mal. Depois, no dia do aniversário, 12 de novembro, foi fazer um exame de rotina e ouviu do médico que havia noventa por cento de chance de ele estar com leucemia. O médico pediu novos exames e marcou o retorno para quatro semanas depois.
Ele não contou para ninguém. Passou as quatro semanas sozinho, chorando no banho, e só falou com a esposa três dias antes do resultado. No dia, segundo ele, o médico ficou uns dez minutos olhando para o computador em silêncio antes de dizer que os números tinham mudado completamente e que estava tudo limpo. O médico perguntou o que ele tinha feito. A resposta foi que chorou e orou muito.
Sobre a internação, ele usou a linguagem do tatame. Disse que ali dentro do hospital seria fácil desistir, e que ele pensava nos filhos o tempo todo.
“Ali eu não podia dar os três tapinhas.”
Eduardo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:44:13
Quando saiu do hospital, ele comprou quatro faixas-pretas da Mizuno, uma para cada filho, e guardou em casa. Contou que olha para elas todos os dias. É a meta que ele se deu: graduar os quatro na faixa-preta, com maturidade suficiente para que eles não achem que chegaram ao fim da linha.
“A faixa-preta é o início de tudo.”
Eduardo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:45:47
Duas semanas dormindo no carro nos Estados Unidos
Na época da gravação, o Brigadeiro estava perto de completar sete anos morando nos Estados Unidos. Ele contou que no Rio tinha apartamento, academia com dez, quinze faixas-pretas e um emprego de carteira assinada na Secretaria de Segurança. Foi embora porque se sentiu numa zona de conforto e queria colocar em prática um jeito de ensinar que não conseguia implementar aqui.
O começo foi duro. Segundo ele, a família dormiu duas semanas dentro do carro, com duas crianças e um bebê, dividindo sanduíche, porque não havia dinheiro para hotel nem aluguel. Ele contou que se surpreendeu com quem estendeu a mão e com quem, ao ver que ele podia crescer, tentou abafar. Para se legalizar no país, teve que voltar a competir.
Lá fora ele mantém a língua. Contou que faz a contagem em português, numera as posições em vez de inventar nomes em inglês e manda os alunos para o Duolingo: se ele precisa aprender inglês, eles podem aprender português no tatame.
O pai que nunca viu o filho treinar
O Brigadeiro é de uma geração em que o jiu-jitsu, como ele descreveu, era quase uma gangue. Sexta-feira ele botava o protetor de boca no bolso da calça e ia para a boate pronto para se testar na rua. Os pais, segundo ele, deram educação, comida, casa e exemplo, mas nunca apoiaram o jiu-jitsu. Foram a uma competição só, no Barra Shopping. Ele mora a dez passos da academia há 30 anos.
“Acho que meu pai nunca me viu treinar na vida.”
Eduardo Brigadeiro, no Pura Connection · 0:59:21
Em 2019, a mãe passou uma temporada com ele nos Estados Unidos. Num momento em que ficaram sozinhos, ela disse que ele era motivo de orgulho e pediu perdão por não ter apoiado mais. Ele também lembrou do dia em que recebeu a chave da academia, quando o antigo responsável foi para os Estados Unidos: sentou com os irmãos e propôs que um fizesse administração, a irmã fizesse nutrição e o mais novo fosse para o marketing. O raciocínio dele era simples: os Gracie conseguiram, por que a gente não pode?
O que fica da conversa
Tem um trecho em que ele conta uma crise de pânico num voo voltando de um seminário em Israel. Trancado no banheiro do avião, se acalmou respirando, e hoje faz cinquenta respirações antes de dormir. Ele disse que o jiu-jitsu já tinha ajudado com a claustrofobia que sentia até no banco de trás do carro.
Saí da entrevista com a sensação de ter ouvido um professor que leva a sério a parte do jiu-jitsu que não aparece em medalha. O Brigadeiro anunciou um livro com a própria história, chamado Muito além de um faixa-preta. Pelo que ele contou ao André, o título faz sentido: o teste do Jorge Pereira, as faixas guardadas para os filhos e o carro nos Estados Unidos dizem mais sobre a faixa dele do que qualquer campeonato.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.