Pura Connection · Márcio
Da Cidade de Deus ao Mundial: o professor que formou Gabrieli Pessanha
Márcio de Deus começou com tatame de papelão e banner de lan house. Hoje reúne centenas de alunos e seis campeões mundiais.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 10 jul 2023 (1:31:37).
O primeiro tatame do Márcio de Deus foi feito de caixa de papelão. Ele pegou as caixas na padaria da esquina, juntou com durex e cobriu parte do chão de uma salinha anexa a uma igreja evangélica na Cidade de Deus, no Rio. O banner da academia foi uma folha impressa numa lan house, pendurada numa parede mofada. E a impressão ficou no fiado, porque ele estava duro.
Dezesseis anos depois, segundo ele, a última graduação reuniu 347 alunos, o projeto já tem seis campeões mundiais e uma delas é a Gabrieli Pessanha, que o Márcio chama de filha. Assisti à conversa dele no Pura Connection e saí com a sensação de ter ouvido um professor que leva o papel de pai a sério.
“Tatame de papelão, minha calça branca, gandola azul e uma faixa roxa. Uma coisa horrível, mas foi o início.”
Márcio, no Pura Connection · 0:07:33
Competição como motivo para treinar
O Márcio contou que mora na Cidade de Deus há 36 anos. Começou a dar aula ainda faixa-roxa, com autorização do professor dele, e as crianças treinavam de graça. Ele saía pela rua chamando a molecada. Segundo ele, a comunidade não tinha quadra, praça ou centro esportivo, e a garotada ficava à toa.
A ideia dele foi colocar todo mundo para competir logo de cara. Ele mesmo gostava de campeonato, apesar de brincar que é o cara com mais medalha de bronze do mundo, porque muitas vezes tinha só três na chave. Criança enjoa, disse ele, e o campeonato dava um motivo para estar ali.
Tem um detalhe que achei genial. Na época em que o UFC explodia, o Márcio comprou uma balança de banheiro e transformou a pesagem para inscrição em evento. Filmava cada aluno subindo na balança, anunciava o peso e o campeonato, a turma batia palma e o vídeo ia para o Facebook. Segundo ele, os pais começaram a aparecer dizendo que o filho melhorou na escola, parou de brigar e não queria mais sair no fim de semana.
O pai que foi embora
A parte mais pesada da conversa é pessoal. O Márcio contou que tinha 6 anos quando o pai saiu de casa para outro relacionamento. A família morava em Bento Ribeiro. Segundo ele, o combinado era o pai pagar o aluguel, e um dia chegou um oficial de justiça com ordem de despejo. A mãe, enfermeira, conseguiu um lugar na Cidade de Deus, e eles foram morar num barraco de madeira.
Já adulto, ele reencontrou o pai por telefone. A primeira coisa que disse foi que o perdoava. Um mês depois, segundo o Márcio, o pai morreu. Ele também contou que, quando começou a lutar, olhava para a arquibancada procurando o pai, mesmo sabendo que ele não estava lá.
Quando virou professor, percebeu que a história se repetia. Inventou um treino com os pais no Dia dos Pais e o tatame ficou cheio de criança acompanhada da mãe, da avó ou do irmão mais velho. Foi aí que decidiu assumir o papel.
“Quem é o pai? Sou eu. Eu sou o pai de geral.”
Márcio, no Pura Connection · 0:32:58
Na prática, isso quer dizer cobrar honestidade, devolver troco errado, falar direito em vez de gíria pensando na entrevista de emprego, estudar inglês. A lógica que ele usa com os alunos é simples: quem quer ser campeão tem que ter caráter.
Gabrieli Pessanha, a garota do bombom
A Gabi estava no começo de tudo. O Márcio lembra dela bem pequena e gordinha nas primeiras turmas. Em 2015, segundo ele, ela foi a primeira aluna do projeto a lutar fora do país, no Pan Kids nos Estados Unidos, e pagou a viagem vendendo bombom e trufa em campeonato, numa caixinha de sapato. Ele a chama de primeira garota do bombom do Rio de Janeiro. Hoje, pelas contas dele, 47 alunos da favela já lutaram nos Estados Unidos.
O Márcio deu a faixa-preta para ela logo depois de uma derrota na final do absoluto da marrom. Disse que a graduação não tinha a ver com medalha, e sim com ela estar pronta. Segundo ele, a Gabi faz três ou quatro treinos por dia, mais preparação física, e entra num modo competição em que larga o celular. Ele contou uma cena que resume isso: depois de vencer um evento internacional, ainda com a medalha no peito, ela foi para o tatame corrigir uma raspagem que tinha sofrido na luta.
“Não se iluda com os elogios, com as críticas. Só trabalha.”
Márcio, no Pura Connection · 0:57:10
O colete amarelo e a cabeça baixa
Para acompanhar os alunos no Mundial sem ter dinheiro, o Márcio passou a trabalhar como árbitro. Mas o sonho era outro: entrar na Pirâmide no domingo das finais vestindo o colete dos técnicos, como ele via André Galvão e Fábio Gurgel fazendo.
Quando chegou a vez da Gabi, ele contou que chorou antes e decidiu entrar de cabeça baixa, lembrando de um sermão sobre humildade que tinha ouvido. Ela lutou, finalizou e foi campeã mundial. Ele manteve a cabeça baixa enquanto as outras equipes gritavam junto. Na academia, a regra vale para todo mundo: quem ganha título importante chega na segunda-feira e recebe balde e rodo para limpar o tatame dos colegas.
O projeto agora virou instituto, com planos de buscar patrocínio pela lei de incentivo ao esporte e um prédio novo de dois andares, doado por uma empresa. E a Gabi já dá aula de drill às terças e quintas. O Márcio fecha lembrando que o jiu-jitsu brasileiro se espalhou por causa de uma família e pedindo que cada um cuide da sua. Para quem começou com papelão no chão, é uma boa lição.
“Eu tô realizando meu sonho, mas eu sei que eu sou pequeno.”
Márcio, no Pura Connection · 1:13:21
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.