Pura Connection · Fabrício Gaia
Fabrício Gaia conta como o jiu-jitsu o levou a treinar russos na Tailândia
De uma garagem no Espírito Santo ao porão de uma academia na Finlândia, o treinador virou head coach de uma equipe de MMA em Phuket.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 fev 2026 (1:33:50).
Numa academia nova da Tailândia, cheia de lutadores russos que quase não deixavam estrangeiro entrar, um campeão do Bellator apontou para um brasileiro e disse ao dono do lugar que aquele era o melhor professor de jiu-jitsu que ele já tinha visto. O campeão era Vadim Nemkov. O brasileiro, Fabrício Gaia, estava com o dinheiro acabando e sem emprego fixo.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a calma com que ele conta os perrengues. O Gaia tem 50 anos, saiu de uma garagem no Espírito Santo, morou no porão de uma academia na Finlândia, levou calote na Tailândia e hoje é head coach de uma equipe de MMA em Phuket. Segundo ele, foi o jiu-jitsu que deu a calma para atravessar cada uma dessas fases.
“Quando eu pensei que o desespero fosse tomar conta, a arte marcial justamente me deu aquela calma que eu precisava com aquele mata-leão encaixado da vida.”
Fabrício Gaia, no Pura Connection · 0:18:04
Do Bruce Lee à garagem no Espírito Santo
O Gaia se define como um menino que gostava dos filmes do Bruce Lee e passou pela capoeira e pelo judô antes de levar o jiu-jitsu a sério. Ele conta que a primeira aula de jiu-jitsu que assistiu foi do Marcelo Alonso, na academia do Carlson Gracie. Até ali, só tinha visto o Royce Gracie se embolar com os adversários, sem entender como aquilo se treinava.
Entre os professores que ele cita estão o Rilion Gracie, o Jamelão, o Hugo Duarte e o Daniel Gracie. Do Carlson, ele diz que nunca teve a chance de conviver, mas ouviu muitas histórias do lado humano do mestre: segundo essas histórias, o Carlson deixava morador de rua dormir no tatame e dava o que tivesse no bolso a quem pedisse.
No Espírito Santo, o Gaia montou uma equipe numa garagem da casa dele, ao lado do Augusto Ner, professor de kickboxing. Ele conta que os dois eram motivo de chacota: o hippie do MMA e o professor gordo. Aí começaram a ganhar, e as piadas viraram silêncio. Quando ele foi para a Finlândia, tentou manter a academia com outros professores, mas preferiu fechar para não ver o próprio nome mal usado.
O porão na Finlândia e o calote na Tailândia
Na Finlândia, ele morou no subsolo de uma academia em Oulu, perto do Círculo Polar Ártico, com dois metros de neve do lado de fora. Diz que pouca gente sabe disso. Durante anos ouviu a pergunta de quando ia arrumar um trabalho de verdade.
Da Finlândia, foi convidado para uma academia tailandesa de passado famoso, com promessa de salário, casa e visto de trabalho. Segundo o Gaia, quando chegou o dia do pagamento, recebeu uma desculpa. Professores que tinham passado por lá antes disseram para ele sair. Ele não brigou: continuou mais um mês ali, para não perder a casa, enquanto montava um plano B.
O plano B veio de um aluno particular, um sueco, que o levou para treinar em outra academia. O dono viu a aula e ofereceu pagar o visto de trabalho em troca de aulas de jiu-jitsu de segunda a sábado, deixando as aulas particulares para ele. Nessa academia havia muitos lutadores do UFC e do ONE Championship, principalmente russos, e o Gaia ficava depois do horário vendo o wrestling e dando palpite. O dono, conta ele, ficou com ciúme e pediu para ele parar de ensinar os russos.
O time russo
Foi aí que o peso pesado Anatoly Malykhin, campeão do ONE Championship, abriu a própria academia, a Dobrynya, e levou os russos junto. O Gaia passou na frente por acaso. Lá dentro estava o Nemkov, que ele já tinha treinado em aulas particulares. O Nemkov, aluno do Fedor, se curvou para cumprimentá-lo e fez a recomendação ao empresário que estava ali. No dia seguinte, o Gaia foi mostrar o trabalho com Nemkov, Malykhin e outros no tatame. Pegou um lutador famoso numa guilhotina, que ele preferiu não identificar, e saiu contratado com salário e visto.
No começo, ele conta, os russos desconfiavam e testavam tudo com perguntas do tipo e se eu fizer isso. Aos poucos, com bônus e finalizações, ele furou a bolha. O Gaia aprendeu russo suficiente para dar aula. Para ele, a contribuição que levou foi o refinamento técnico: mostrar onde pegar, onde cortar e como controlar sem se desesperar, onde os russos resolviam muito na força.
“Eu não sou forte, cara. Eu sei usar a gravidade ao meu favor. Eu sei encaixar os ossos e sei onde dói.”
Fabrício Gaia, no Pura Connection · 0:35:18
Hoje ele está em outra academia de Phuket, que chama de dream team. Entrou como treinador de grappling e, segundo ele, em dois meses a equipe ganhou tudo o que disputou. Achou que seria dispensado numa reunião, na baixa temporada, e saiu dela como head coach. Entre os atletas, ele destacou o Akbar Abdullaev, do Quirguistão, invicto em 13 lutas, com 10 nocautes e três finalizações.
O treinador que não grita
Uma parte que eu gostei muito foi quando o Gaia falou do jeito de treinar. Ele diz que quase não levanta a voz e quer que o atleta entenda o motivo de cada coisa. No corner, fala pouco. Trata cada lutador de um jeito: para uns, detalha a estratégia; para outros, só manda ir resolver. E pede que o atleta lute primeiro por si mesmo, sem medo de decepcionar o mestre.
Ele também contou que aprendeu a perder como treinador. No começo, se cobrava demais. E lembrou de um encontro com o Marco Ruas, de quem sempre foi fã, no hotel da última luta do Pedro Rizzo. Segundo o Gaia, o Ruas contou o que passou no Rio, onde era visto como traidor e teve portas fechadas para abrir academia, e falou de tudo isso sem rancor. Isso fez muito bem a ele. Outra história de superação que ele trouxe foi a do Jamelão, que ele entrevistou no próprio canal.
“O cara morou debaixo da ponte aqui. O jiu-jitsu salvou mesmo.”
Fabrício Gaia, no Pura Connection · 1:31:35
O que fica
O Gaia admira dois mestres acima de todos: o Carlson Gracie e o Abdulmanap Nurmagomedov, pai do Khabib, que ele chama de o Carlson do Daguestão por ter formado crianças pobres sem cobrar. Para o Gaia, os dois são lembrados pelo que fizeram pelas pessoas.
É o que ele tenta repetir. Contou o caso de um lutador japonês que chegou ao camp em depressão e saiu outra pessoa, e disse que isso valeu mais do que a vitória. Para quem acha que MMA é só porrada, o Gaia dá a própria vida como resposta: quanto mais ele treina e estuda, mais em paz fica.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.