Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Fepa Lopes
Fepa Lopes conta como nasceu o BJJ Stars e por que sempre pagou atletas
O criador do evento lembra o primeiro Desafio Black Belt, em 2002, e a época em que São Paulo ia ao Rio apanhar para aprender jiu-jitsu.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 30 jun 2021 (0:48:23).
Em 2002, um faixa-preta paulista resolveu que lutador de jiu-jitsu tinha de sair do tatame com dinheiro no bolso. Fepa Lopes alugou uma casa de espetáculos em São Paulo, montou um card com nomes como Saulo Ribeiro e Marcelinho Garcia e pagou cada atleta: 500 reais para quem perdesse e 1.500 para quem vencesse. Foi o primeiro Desafio Black Belt, e é dali que sai a ideia do BJJ Stars, o evento que ele comanda hoje.
Assisti à conversa dele no Muito Mais Ação e o que mais me chamou atenção foi como ele liga as duas pontas da carreira. O Fepa atleta, que pagava para competir e voltava com uma medalha, virou o organizador que decidiu mudar essa conta. Segundo ele, a razão é simples: quem ama o esporte e vive dele precisa tratar o lutador como profissional.
“Paga, paga, paga e, se tudo der certo, você ganha uma medalha pintada de dourado.”
Fepa Lopes, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:22:39
Da Companhia Athletica à faixa-preta com Roberto Godoy
O Fepa nasceu em Santos, mas foi criado desde pequeno na zona sul de São Paulo. Ele contou que sempre gostou de luta e que chegou ao jiu-jitsu em 1988, na Companhia Athletica, uma academia grande da cidade. As primeiras aulas experimentais foram com Marcelo Behring. Um mês depois, quando voltou para se matricular, quem tinha assumido a turma era Valdomiro Peres Júnior, faixa-coral, e foi com ele que o treino ficou sério.
Na mesma academia estava um faixa-azul recém-graduado que ia marcar a vida dele: Roberto Godoy. Anos depois, segundo o Fepa, foi pelas mãos do Godoy que ele recebeu a faixa-preta, em 1998, na mesma leva de Macaco e Celso Brito. Ele e o Macaco, contou, pegaram todas as faixas juntos.
O Fepa descreveu o Godoy como o grande nome do jiu-jitsu paulista daquela época, o cara que ia ao Brasileiro no Rio e ganhava. Lembrou até de uma luta casada no Tietê, as duas faixas-roxas, em que o Godoy finalizou o ator Luciano Szafir com uma kimura. Por volta de 1994, os dois, junto com o Macaco e o Valdomiro, davam aula numa academia pequena em Moema, a Companhia Paulista de Jiu-Jitsu.
Apanhar no Rio para aprender
Como competidor, o Fepa diz que foi campeão paulista em todas as faixas, nove vezes no total. Lutou o primeiro Mundial, em 1996, e soma quatro pratas no Pan-Americano. No Brasileiro de 1998, na faixa-marrom, ficou com o bronze depois de ser desclassificado por uma cabeçada numa luta que vencia por 9 a 0. Ele lamenta até hoje: podia ter fechado a categoria com o companheiro de equipe.
O título de que mais se orgulha, porém, é um Paulista absoluto. Ele pesava cerca de 70 quilos e lutava na categoria pena, onde se cobrava demais. No absoluto, disse, o peso saía das costas. Naquele ano o Macaco caiu antes, e quando o Fepa foi campeão o amigo entrou no tatame para levantar o braço dele.
O Rio, naquela época, dominava o jiu-jitsu. Segundo o Fepa, a turma de São Paulo que gostava de competir viajava para treinar nas academias cariocas e tomava pau.
“A gente ia para o Rio literalmente apanhar para aprender.”
Fepa Lopes, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:10:24
Ele se lembra do carpete roxo do hotel, onde o grupo repetia à noite a posição em que tinha sido pego no treino. Nessas viagens iam ele, o Godoy, o Macaco e Marcelo Krause.
Macaco, o guerreiro da turma
O Macaco aparece em quase toda história que o Fepa contou. Ele o chamou de guerreiro nato, um competidor que crescia absurdamente na hora da luta e que foi buscar desafio no vale-tudo quando o negócio era sinistro, indo sozinho a Belém do Pará para lutar. No Brasileiro de 1993, segundo o Fepa, o Macaco perdeu uma luta, pegou o microfone e avisou o público.
“Vocês vão ouvir falar muito desse cara.”
Jorge Patino, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:17:53
O Fepa também contou que a equipe tinha uma filial chamada Senzala, nos fundos da casa do Roberto Godoy. Segundo ele, era ali que treinavam os caras mais bravos de briga de rua de São Paulo, e a academia ganhou fama de gostar de porrada.
O primeiro Desafio Black Belt
O Fepa é publicitário de formação. O pai, executivo, queria que ele trabalhasse numa agência, mas ele preferiu um negócio movido por paixão. Em 2002, já faixa-preta e com a filha pequena, decidiu montar o evento. O lugar foi o Palace, casa de espetáculos famosa em Moema. O card, segundo ele, tinha Saulo Ribeiro, a estreia do Marcelinho Garcia na faixa-preta contra o Pé de Chumbo, Bibiano Fernandes e o próprio Macaco.
O risco era alto. Pelas contas dele, se tudo desse certo ele ganharia 3.000 reais; se desse errado, o prejuízo seria enorme. O ingresso era uma camiseta, divulgada com cartaz e flyer de academia em academia, porque não existia rede social. No dia do evento, havia uma sala cheia de camisetas até o teto e só uma parte tinha saído. No fim, a casa lotou. E o apresentador contratado não apareceu: o Fepa subiu ao palco de regata da Companhia Athletica e apresentou ele mesmo.
Foram sete edições do Desafio. Depois vieram campeonatos com premiação em dinheiro, com finais disputadas num teatro e 5.000 reais para o campeão da faixa-preta, vencido por nomes como Rodolfo Vieira. Vieram também eventos de vale-tudo, um deles na praia, quatro edições do Show Fight e o Capital Fight, em Brasília. Pelas contas dele, são perto de 50 eventos.
Do programa na TV ao BJJ Stars
Depois do primeiro Desafio, a Band Sports o chamou para fazer um programa de lutas de jiu-jitsu dentro do estúdio. Ele ficou dois anos e meio no ar, e Serginho Moraes foi, segundo o Fepa, o maior vencedor. Foi a única vez em que os atletas não receberam: não havia patrocínio, e ele topou pelo espaço de ter jiu-jitsu na televisão.
O BJJ Stars surgiu quando o amigo e sócio conhecido como Sheik perguntou por que eles não voltavam a fazer aqueles eventos. Dois investidores de fora do jiu-jitsu, o Carlão e o Márcio, bancaram as primeiras edições. Na plateia de uma delas estava o empresário Maurício Sirotsky, que, por intermédio do faixa-preta André Macedo, procurou o Fepa para entrar no negócio. Os primeiros sócios preferiram sair, e a partir da terceira edição o evento virou empresa. Hoje são quatro sócios, e o Fepa diz ser o único que vive só do BJJ Stars.
A pandemia pegou o evento no meio da venda: as cadeiras VIP tinham esgotado em dois dias, e cerca de 500 ingressos ficaram na mão do público, guardados para quando as portas reabrissem. Quem pediu o dinheiro de volta, contou ele, recebeu.
Por que pagar o atleta
Perto do fim, o apresentador perguntou de onde vinha a insistência em remunerar os lutadores. O Fepa voltou a 2002. Segundo ele, praticamente todos os eventos que fez desde então pagaram quem lutou, uns mais, outros menos.
“Para mim, esses caras são as estrelas do Brasil.”
Fepa Lopes, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:41:42
“Se eu tô escolhendo isso para ser a minha profissão, eu preciso tratar o cara do outro lado como profissional também.”
Fepa Lopes, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:43:46
Ele disse ainda que concorrência obriga todo mundo a melhorar e que, quando a maré sobe, sobem todos os barcos. O que fica da entrevista é isso: o organizador que hoje comanda o BJJ Stars ainda pensa como o faixa-marrom que viajava ao Rio para apanhar. Ele sabe quanto custa chegar ao tatame, e acha justo que o atleta saia de lá recompensado.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.