Pura Connection · Feu
Feu BJJ: o judoca que apanhou de faixa azul e virou fenômeno no YouTube
Faixa-preta de judô, ele começou no jiu-jitsu aos 28 anos, criou um canal para os alunos e hoje fala para mais de um milhão de pessoas.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 mar 2022 (1:17:23).
Um faixa-preta de judô, com mais de 200 medalhas, apanhando de faixa azul de jiu-jitsu. Foi assim que o Feu contou o começo dele no jiu-jitsu, aos 28 anos. Hoje, com 17 anos de jiu-jitsu segundo ele, comanda o FEU BJJ, tem mais de um milhão de seguidores e, segundo o André, um dos maiores canais de jiu-jitsu do YouTube no mundo.
Assisti à conversa no Pura Connection e o que mais me marcou foi o contraste entre o tamanho do alcance dele e o jeito como ele se apresenta. O Feu se descreve como um lutador mediano, de cidade pequena, que nunca ganhou um Mundial.
“Eu sou um cara pequeno de uma cidade pequena, com pequenas pretensões.”
Feu, no Pura Connection · 0:01:55
35 anos de dojô antes da internet
O Feu começou no judô com oito anos. Ele credita ao primeiro professor a base de tudo: foi quem colocou na cabeça dele, ainda criança, os valores de Jigoro Kano, como ética, moral, honestidade e superação. Ele compara isso a um programa instalado num HD de computador. Toda vez que tentou pegar o caminho mais fácil, conta, aquele programa o puxava de volta.
Ele gosta de lembrar que ninguém chega à internet do nada. Segundo ele, foram 35 anos de caminhada dentro do dojô. E a carreira de atleta foi longe de ser fácil. O Feu contou que tentou o título mundial a vida inteira e não conseguiu. Perdeu por lesão, perdeu para gente muito boa, perdeu porque o campeonato era longe demais, em outro país. O título sul-americano veio aos 28 anos, 20 anos depois de começar.
“O cara que resolve as coisas dentro do tatame consegue resolver qualquer coisa na vida dele lá fora.”
Feu, no Pura Connection · 0:09:13
Para ele, todo pai deveria colocar o filho numa arte marcial, qualquer que seja. O motivo: a luta ensina que uma hora você está por cima e outra por baixo, e quem vive isso no tatame aguenta melhor uma demissão, uma derrota ou um relacionamento que acaba.
Faixa-preta de judô apanhando de faixa azul
A troca veio quando ele parou de competir no judô. O Feu contou que foi para uma academia de clube onde o professor era faixa-preta de judô e de jiu-jitsu, e ouviu dele que precisava treinar jiu-jitsu também. Foi ali que levou o primeiro sacode.
“Faixa-preta de judô apanhando de faixa azul de jiu-jitsu. Foi algo que mexeu no meu ego.”
Feu, no Pura Connection · 0:13:57
Ele diz que hoje não tem mais essa vaidade e que, treinando com os atletas profissionais da equipe, mais apanha do que bate. Mas admite que, na época, o orgulho ferido foi o que o fez se dedicar. Entrou no jiu-jitsu já como faixa azul, lutou muito até a marrom e competiu pouco de preta, porque já estava casado, com filho e dando muitas aulas. Na data da gravação, ele disse que ia receber o terceiro grau na faixa-preta de jiu-jitsu e o quarto na de judô.
Tem uma imagem dele que eu gostei muito. Quem tenta fazer tudo ao mesmo tempo vira pato: tem asa, nada e anda, mas não faz nenhuma dessas coisas direito. Por isso ele escolheu se dedicar ao jiu-jitsu só quando o judô competitivo ficou para trás.
Um canal que nasceu como lição de casa
Segundo o Feu, o reconhecimento veio pelo jiu-jitsu porque ele levou para lá a metodologia do judô: entrada de golpe, uchi-komi, repetição e fundamento técnico. O canal começou há cerca de 12 anos, de forma espontânea. Os alunos tinham dificuldade de memorizar as técnicas, então ele passou a filmar a aula de segunda-feira e postar no YouTube como lição de casa para a aula de quarta.
O método dele é trabalhar variações. Ele contou que, se começa fevereiro ensinando chave de braço, termina o mês fazendo a mesma chave do joelho na barriga, das costas, por baixo, da montada e da lateral. Hoje, segundo ele, são mais de 1.500 videoaulas e cerca de 500 vídeos de reação.
O Feu contou que recebe relatos de pessoas que chegaram à faixa-preta depois de começar a treinar por causa do canal, e que isso às vezes gera ciúme de professor. A resposta dele é que está mandando aluno para a academia dos outros. Ele disse ter 50 escolas, atleta no Bellator e atleta na seleção brasileira de judô, e que se sente mais realizado como professor do que como competidor.
Jiu-jitsu, terra de ninguém
A parte mais polêmica da conversa veio quando o André perguntou por que a disciplina do judô parece ter se perdido no jiu-jitsu.
“Eu acho o jiu-jitsu terra de ninguém.”
Feu, no Pura Connection · 0:25:54
O Feu explicou o raciocínio comparando com o judô, onde foi atleta, técnico e árbitro. Lá, segundo ele, para subir de faixa é preciso fazer curso de primeiros socorros, de ética e filosofia, de fundamento técnico e de história, e passar por uma banca examinadora. No jiu-jitsu, ele diz, cada professor faz o que quer, do kimono à forma de graduar. Até a origem da arte vira confusão: ele contou já ter ouvido mestres com décadas de prática defenderem versões diferentes.
Ele reconhece o lado bom disso: o jiu-jitsu segue vivo, muda o tempo todo e deixa espaço para a espontaneidade de cada um. Mas critica o que chama de barbaridades que aparecem na internet. E fez uma crítica dura ao judô também: para ele, as regras foram parar na mão dos europeus e a proibição da catada de perna tirou golpes clássicos como o kata-guruma do ensino.
A saída que ele propõe passa pelo professor. Quem só quer montar time de competição, segundo ele, morre de fome. É preciso entender se o aluno é executivo, médico, criança ou um guerreiro nato, e montar o trabalho a partir daí.
Malibu, Mica e o risco de rolar em seminário
O Feu contou que conheceu Sérgio Malibu pelas redes sociais, quando estava deixando a antiga equipe para montar o FEU BJJ. Ele queria uma identidade própria, sem ficar à sombra de um time grande, mas precisava de um mestre que o corrigisse. Segundo ele, o Malibu primeiro o colocou à prova num treino, e só depois a parceria nasceu. Hoje, diz, a relação passou da de professor e aluno.
“Eu sinto o cheiro de jiu-jitsu no Malibu.”
Feu, no Pura Connection · 1:02:03
Ele também falou de Micael Galvão, com quem treina desde que o Mica era faixa verde e que, segundo o Feu, faz camps na academia dele e dorme lá com a equipe. O Mica contou a ele que, quando rola em seminário, é para valer, porque todo mundo quer dizer que finalizou o Mica. O Feu vive o mesmo problema: aos 45 anos e depois de uma cirurgia que o deixou oito meses parado, diz que precisa parar de aceitar desafio em seminário. O próprio Malibu, segundo ele, cobra isso.
Palavra dada e o arrependimento nas redes
O Feu contou que o projeto social dele começou dentro de uma igreja, sem nada, e que hoje tem um barracão de 500 metros quadrados com tatame de 40 por 10 metros, tudo erguido com doações de amigos e seguidores. Ele atribui o alcance à credibilidade: diz que nunca prometeu nada que não cumpriu.
Ele também admitiu erros. Contou que foi um adolescente problemático, que se envolveu com cigarro, droga e briga de rua, e que os ensinamentos do tatame o trouxeram de volta. E disse se envergonhar de uma fase do canal em que reagia a vídeos de professores que erraram. Apagou esses vídeos e hoje só reage a coisas engraçadas.
Saí da conversa com a sensação de ter ouvido um professor antes de tudo. O Feu virou referência sem um Mundial no currículo, repetindo técnica, gravando aula e cumprindo o que prometia. Isso diz muito sobre o que o jiu-jitsu pode ser fora dos pódios.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.