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Pura Connection · Alex Souto Maior

Fisiologista Alex Souto Maior defende liberar o esteroide no MMA

Alex Souto Maior conta como treinou a cabeça de Rogério Minotouro com um detector de estresse e diz que o problema do doping está na dose.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 27 jan 2025 (1:17:05).

Há cerca de dez anos, numa reunião na academia dos irmãos Nogueira, um representante do UFC foi falar para os lutadores sobre reidratação depois da pesagem. O fisiologista Alex Souto Maior estava na sala e levantou a mão. Primeiro, perguntou como aquilo seria controlado. Depois, disse o que pensava: libera o esteroide. Ele contou essa história no Pura Connection, num episódio sobre doping, e sustentou a posição até o fim.

“Eu falei pros caras: libera o esteroide. Se o cara quer tomar, libera.”

Alex Souto Maior, no Pura Connection · 0:43:55

Assisti à conversa e o que chama atenção é a bagagem de quem fala. O Alex é doutor e pós-doutor em fisiologia, defendeu a tese de doutorado em 2010, e disse que o doutorado foi todo sobre esteroide. Ele conhece o assunto por dentro, inclusive o lado ruim.

O argumento para liberar

O raciocínio dele começa por uma frase que disse ao representante do UFC: o MMA nunca vai ser esporte olímpico. Para o Alex, é esporte de exibição, os gladiadores modernos. E, se é assim, ele não vê motivo para proibir. Quem tomar e subir de peso sobe de categoria, e quem não tomar fez sua escolha.

Ele comparou com as grandes ligas americanas de basquete e futebol americano, que, segundo ele, têm alguma liberação porque o público quer ver velocidade e agressividade. Mas fez uma ressalva que repete o tempo todo: o uso tem que ter responsabilidade e um profissional conduzindo.

“Você é contra esteroide? Jamais. Se eu fosse contra, ele nem existiria.”

Alex Souto Maior, no Pura Connection · 0:44:56

Na mesma reunião, contou, ele questionou a regra nova de limitar o soro na reidratação pós-pesagem. Como pesquisador, disse que não há como medir no sangue quanto o atleta repôs. Estavam ali, segundo ele, Minotauro, Minotouro, Erick Silva e Rafael Feijão, entre outros.

Onde o esteroide mata

O outro lado da conversa é o risco, e aqui o Alex fala com a autoridade de quem publicou sobre isso. Ele explicou que o esteroide atravessa a barreira que protege o cérebro e mexe com o sistema que controla o coração, deixando o corpo sempre acelerado. Segundo ele, é por isso que quem abusa de esteroide morre principalmente do coração, de infarto e morte súbita.

A diferença, para ele, está na dose. Repor testosterona que está baixa, com exame de sangue e acompanhamento, ajuda a saúde do coração, do cérebro, dos ossos e das articulações. O problema é o cara que já está com a taxa normal e quer dobrar. Aí vem a dependência, porque o próprio corpo para de produzir e a pessoa fica presa àquilo para o resto da vida.

“Ele só é ruim como qualquer coisa. Se tu tomar dez aspirinas, vai passar mal.”

Alex Souto Maior, no Pura Connection · 0:49:39

Ele também criticou quem ensina uso sem controle nas redes para ganhar curtida, e contou como é fácil comprar anabolizante na fronteira com o Paraguai: basta atravessar a ponte para ouvir ofertas no ouvido. O apresentador lembrou que a IBJJF começou a fazer controle antidoping nos campeonatos, e que Gordon Ryan publicou recentemente que, fora desse ambiente, o uso é indiscriminado.

O treino mental de Minotouro

A melhor história do episódio é sobre o Rogério Minotouro. O Alex contou que, quando era fisiologista do time profissional do Flamengo, o Rogério pediu para ser preparado para uma luta contra Pat Cummins, um americano que vinha batendo em brasileiros. O Minotouro voltava de lesão. O treino foi no Ninho do Urubu, e o Alex avisou que ali não dava para chegar atrasado, porque o meio-dia do amigo, brincou, costuma ser às quatro da tarde.

Além da parte física, ele usou um aparelho de condutância da pele, parecido com um detector de mentiras, que mede se o corpo está em alerta ou relaxado. Com o aparelho no dedo do Rogério, o Alex xingava, dizia que o boxe dele era fraco, que o adversário ia embrulhá-lo. O ponteiro subia. Dia após dia, contou, chegou um momento em que ele ouvia tudo e nada se mexia.

“Chegou uma hora que ele escutava aquilo e o negócio não se mexia.”

Alex Souto Maior, no Pura Connection · 0:18:44

Ele também colocava a voz do Bruce Buffer anunciando o nome do Rogério no fone durante o treino e ensinou uma respiração para ativar o diafragma. Na entrada do octógono, contou, o Rodrigo, que narrava a luta, disse que o irmão estava tão emocionado que chorava. Era a respiração. O Minotouro venceu.

Das brigas de rua ao princípio do homem

O Alex começou a treinar por causa das brigas. Contou que, na Barra da Tijuca, havia os conflitos entre a turma da Barra Gracie e a do Carlson, e que já se ia para festa sabendo que ia ter briga. Ele treinava no Carlson, em Copacabana, na época em que estudava administração e fazia estágio no Banco do Brasil. Largou o curso, foi para a educação física e descobriu a fisiologia.

Hoje, coordenador de saúde de um clube de futebol, ele contou uma briga num amistoso em que um jogador do outro time deu uma voadora nas costas de um atleta dele. O Alex foi até o rapaz, andando devagar, e disse que ele tinha rompido o princípio do homem ao atacar por trás. Para ele, é a calma que a arte marcial dá: saber que pode machucar e escolher não fazer.

O que fica da conversa é essa mistura de ciência e tatame. O Alex defende uma coisa que muita gente no esporte não diz em voz alta, mas insiste que o problema do doping está no exagero, na falta de exame e no mercado paralelo. Concordando ou não com a liberação, é difícil sair do episódio sem pensar duas vezes antes de tratar esteroide como atalho.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.