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Pura Connection · Gabriel Sousa, Lipe Machado

Gabriel Sousa: do tatame numa cela em Fortaleza à briga com Mikey Musumeci

O faixa-preta cearense conta a infância pobre, a mudança para os Estados Unidos e dá a sua versão da confusão com o americano no ONE.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 fev 2025 (1:36:15).

O primeiro tatame de Gabriel Sousa ficava dentro de uma cela. Era um projeto social num batalhão da Polícia Militar em Fortaleza, num espaço onde já não havia preso, com uma porta de lado para ventilar. Anos depois, o menino franzino que apanhava dos colegas maiores virou um dos faixas-pretas leves mais comentados do jiu-jitsu e entrou numa das rivalidades mais quentes do esporte, contra Mikey Musumeci.

Assisti à conversa dele no Pura Connection, ao lado de Felipe Machado, o Felipinho, que também já enfrentou o Mikey. O que mais me chamou atenção foi a franqueza. O Gabriel conta a infância pobre, o luto, a faixa-preta antecipada e dá a sua versão da confusão com o americano sem medir palavras.

“Eu tive várias pessoas que foram me ajudando ao longo do caminho em troca de nada.”

Gabriel Sousa, no Pura Connection · 0:24:50

Um projeto social que segurou a molecada

Segundo o Gabriel, o projeto era tocado por um cabo da PM e pelo professor Jefferson Teixeira, fundador da Bravos, que na época era filiado à Gracie Barra. Caçula de sete irmãos, de família muito pobre, ele conta que a família nunca pagou uma inscrição de campeonato para ele. Quem ajudava eram o professor e alunos com mais condição, que davam quimono, suplemento e comida.

Ele cresceu numa comunidade perigosa e diz que muitos garotos da idade dele não chegaram aos 16 anos. Para ele, o que fez diferença foi a mãe no pé, o exemplo dos irmãos, que começaram a trabalhar cedo, a igreja aos domingos e uma rotina sem folga: escola, treino às cinco da tarde, volta às sete. Aos 15 ou 16 anos, ainda faixa-azul, ele e quatro amigos abriram um projeto social na própria favela para retribuir o que tinham recebido.

No começo ele era o menor e o mais fraco do treino, e os amigos zoavam. O gosto pela coisa veio quando a galera parava de treinar, voltava e ele começava a ganhar de todo mundo. Era assim que ele media a própria evolução.

O visto, o Mundial e a mudança para os Estados Unidos

A virada veio pela internet. Uma americana achou o projeto no Facebook, mandou dinheiro para camisas e inscrições das crianças e, quando soube que o Gabriel queria ir aos Estados Unidos, arrumou uma carta de patrocínio de uma empresa. Ele conta que no consulado ouviu só duas perguntas, o que ia fazer lá e quem pagava a viagem, e saiu com o visto aprovado sem acreditar.

Com 18 anos, faixa-azul e recém-campeão brasileiro no peso galo, finalizando todo mundo, ele foi lutar o Mundial. Perdeu a final estrangulado, apagou e acordou chorando. Nessa viagem conheceu Lucas Rocha. Cansado de fazer rifa e de pedir ajuda, disse ao mestre Zé Radiola que queria ficar nos Estados Unidos, e o Zé o mandou falar com o Lucas. Ele se mudou em 2016 e morou três meses dentro da academia. Rindo, conta que academia americana limpinha era luxo perto do que se vê em muita academia do Rio e de São Paulo.

Duas semanas depois da mudança, ganhou o Mundial de faixa-roxa. Logo em seguida a mãe morreu, ele teve de voltar ao Brasil e passou um ano treinando sem conseguir lembrar do próprio treino. Hoje ele faz acompanhamento com psicóloga e diz que, naquela época, procurar ajuda nem passava pela cabeça.

Faixa-preta antes da hora?

De marrom, já com o Lucas, ele ganhou o Europeu, o World Pro e ficou em segundo no ranking de Abu Dhabi. Num Mundial em que ninguém do time tinha ganhado, o Lucas perguntou se ele queria continuar de marrom ou ir para a preta. Ele escolheu a preta. A ideia, segundo ele, era começar logo a apanhar dos melhores, porque dali em diante tudo é experiência.

O apresentador puxou a discussão sobre faixa-preta dada cedo demais, e o Gabriel concordou em parte. Contou que só agora percebeu o peso de ser exemplo: a molecada da academia copia a técnica, a postura e até a brincadeira. O modelo dele é o professor Jefferson, que ele descreve como um faixa-preta íntegro, que não se vende.

“Quando tu pega a faixa preta, tu não tá preparado para ela. Tu aprende esses atributos quando pega.”

Gabriel Sousa, no Pura Connection · 0:38:43

A guerra com Mikey Musumeci

Segundo o Felipinho, a primeira luta entre Gabriel e Mikey, em setembro de 2021, foi um massacre: o Gabriel infernizou a guarda do americano e finalizou. Na revanche, no ONE, na Tailândia, o resultado virou. O Gabriel conta que fez o melhor camp da vida: quase três meses, preparação física que ele detesta, peso batido sem sauna para passar no teste de hidratação e o joelho recuperado de uma cirurgia de menisco. E perdeu numa chave de panturrilha.

“A última coisa no mundo que eu pensei que ele ia fazer era uma panturrilha.”

Gabriel Sousa, no Pura Connection · 1:03:11

O que mais o incomodou veio fora do tatame. Na versão do Gabriel, o Mikey disse depois da primeira derrota que estava doente, e antes da revanche ficou bolado porque o Gabriel curtiu no Instagram uma foto de uma ex-namorada dele. O Gabriel diz que nem sabia do namoro, que o Mikey foi várias vezes ao privado reclamar e que, na fila da pesagem, veio para cima dele. No discurso depois da luta, ainda segundo o Gabriel, o Mikey disse que ele o perseguia havia anos e passava dos limites com a família, coisa que ele chama de mentira. O Gabriel diz respeitar a carreira do rival, mas o chama de falso humilde.

Ele conta que, logo depois da finalização, o Mikey veio falar em amizade. O Gabriel respondeu que os dois ainda vão se enfrentar de novo e chamou o americano para conversar a sós, fora do octógono. Depois do discurso, recebeu uma enxurrada de mensagens de fãs do rival. Sobre a terceira luta, diz que ainda não há data.

“Eu não consigo ter amizade com quem eu vou lutar.”

Gabriel Sousa, no Pura Connection · 1:09:25

Felipinho no UFC e a conversa sobre doping

O Felipinho também encarou o Mikey. Ele conta que estava fechado com outro evento quando o empresário Samir encaixou a luta no UFC, como luta principal. Antes, mandou mensagem para o Gabriel pedindo conselho. Perdeu, mas diz que a derrota o levou mais longe do que um título levaria. Num 2024 que ele mesmo chama de fraco em resultado, lutou com Diogo Reis, o Baby Shark, perdeu na semifinal de uma seletiva do ADCC e foi reserva no evento principal.

“Eu perdi ali e me impulsionou muito mais, às vezes até do que se eu tivesse ganhado o Mundial.”

Lipe Machado, no Pura Connection · 1:34:50

A conversa também passou por esteroides. Os dois dizem que não tomam. O Felipinho se considera fisicamente privilegiado e diz que nunca sentiu um adversário forte demais. O Gabriel conta que faz exame de sangue com a nutricionista há sete anos e que a testosterona saiu em 650 sem tomar nada. Ele diz que não apoia o uso, mas que, diante de uma lesão séria, usaria com acompanhamento médico para voltar mais rápido. E acha que atleta conhecido precisa falar do assunto com clareza, porque tem criança olhando.

“A conta chega para todo mundo.”

Gabriel Sousa, no Pura Connection · 1:27:33

O que fica da conversa

Na época da gravação, o Gabriel já tinha o primeiro semestre de 2025 quase todo planejado: luta no ONE, na Tailândia, em 8 de fevereiro, outras superlutas e um evento por equipes no Cazaquistão, com prêmio de 500 mil dólares para o time campeão. Ele diz que superluta tem dado mais retorno do que campeonato, mas quer lutar o Mundial de quimono para poder dizer que é campeão mundial.

Saí da conversa com a sensação de que o Gabriel carrega a mesma lógica do projeto social de Fortaleza. Ele ainda paga inscrição de moleque que treina de graça com o antigo professor, porque um patrocinador lá atrás só pediu isso em troca: um dia, ajudar outro atleta que não pode pagar.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.