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Pura Connection · Gustavo Ximu

Gustavo Ximu relembra treinos com Georges St-Pierre e a luta mais dura

Aluno de Marco Ruas e lutador da Gracie Barra conta o vale-tudo sem caneleira, o tapa no córner e o método que usa até hoje.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 jun 2025 (1:25:54).

Em 2004, Georges St-Pierre veio ao Rio treinar e, segundo Gustavo Ximu, colou nele. Os dois treinaram juntos na Gracie Barra, e depois disso Ximu foi seis vezes ao Canadá fazer camp com o canadense em Montreal. É uma das histórias que ele contou no Pura Connection, numa conversa sobre vale-tudo, defesa pessoal e disciplina.

Assisti à entrevista e o que ficou para mim foi o retrato de uma geração que aprendeu a lutar sem caneleira, sem protetor e sem saber quando vinha a próxima faixa. Ximu fez MMA de 2000 a 2015, somou 37 lutas pelas contas dele e segue competindo de kimono no master.

Do judô ao exame de faixa de Marco Ruas

Ximu contou que começou no judô, no colégio, e ficou anos nele. Depois passou pela capoeira e foi para o boxe tailandês, como se chamava o muay thai na época. A virada veio quando assistiu a um exame de faixa de Marco Ruas.

Segundo ele, o exame tinha parte física, golpes e, no fim, luva. Só luva: sem capacete, sem protetor de boca e sem caneleira. O jeito de Ruas tratar os alunos era mais agressivo, quase militar, e Ximu se identificou na hora. Migrou para a academia de Ruas no Leme, no Chapéu Mangueira.

“Gostei desse aqui, treino agressivo.”

Gustavo Ximu, no Pura Connection · 0:08:22

Ele disse que, onde treinava antes, havia muita parte física e técnica e pouco combate. Com Ruas juntou tudo: técnica, físico e agressividade. Foi também pelas mãos de Ruas que chegou, em 1996, ao boxe com Claudinho Coelho.

Gracie Barra, Carlinhos e o treino com Georges St-Pierre

No jiu-jitsu, Ximu entrou na Gracie Barra em 2001 ou 2002. Contou que havia receio dos dois lados, porque ele vinha de outra tribo, mas que Carlinhos Gracie fez a ponte e montou ali uma equipe que treinava muay thai, chão e boxe. Os treinos, disse, eram meio que um confere.

Ele botou a faixa-branca, mas já tinha muita luta agarrada. Segundo Ximu, o pessoal quis pular a faixa dele na hora. Treinava o dia inteiro, a ponto de o kimono branco ficar cinza.

Foi nesse ambiente que St-Pierre apareceu. Ximu contou que o canadense tinha perdido para Matt Hughes e veio ao Brasil para treinar. A academia estava cheia, muita gente queria amassar o visitante, e St-Pierre deixava.

“O que importa para mim é lá dentro do cage. Aqui na academia eu vim para aprender.”

Gustavo Ximu, no Pura Connection · 0:53:51

Ximu contou que ficou um mês treinando com ele no Rio e que depois St-Pierre voltava por duas semanas antes das lutas. Quando o canadense ficou mais famoso, era Ximu quem ia para lá, com carta de recepção assinada por St-Pierre. Os dois ainda conversam por WhatsApp. Ele também lembrou que lutadores do K-1, como Jérôme Le Banner e Mark Hunt, treinaram na Gracie Barra naquela época.

A luta mais difícil e o tapa no córner

Ximu estreou no Japão e, segundo ele, nocauteou o adversário em um minuto. Ia enfrentar Tamura, mas trocaram o oponente porque Tamura era mais famoso e queria ver primeiro quem era o brasileiro. Depois lutaram e Ximu contou que venceu.

A luta mais dura, disse, foi no Meca, em Curitiba: dois rounds de 10 minutos e um de 5. Ele apanhou muito no começo e chegou ao córner pedindo para parar. Quem estava lá era Beto Leitão.

“Parar por quê? Tu vai cair lá dentro, se vira lá.”

Gustavo Ximu, no Pura Connection · 0:58:28

Segundo Ximu, Beto deu um tapão no peito dele e o mandou de volta. Ele acertou uma joelhada que quebrou o nariz do adversário, a autoestima subiu e ele venceu no tempo extra, montado. Ximu chamou essa luta de divisor de águas: foi ali que entendeu que o cansaço era psicológico.

Ele citou ainda vitórias no King of the Cage, na Califórnia, e em Natal contra Alan Góis, que ele descreveu como o cara que mais pegava braço na Carlson Gracie.

Da academia casca-grossa à escola de jiu-jitsu

O André, que é da mesma geração (os dois nasceram em 1975), perguntou como foi virar a chave de lutador casca-grossa para professor numa associação organizada como a Gracie Barra. Ximu disse que no começo estranhou, mas foi seguindo, fez os cursos da equipe e entendeu o recado. Até a lycra por baixo do kimono, contou, ele passou a ver como sinal de respeito, para a mulher entrar e treinar sem medo.

Ele lembra que antigamente ninguém sabia quando ia ganhar faixa. O professor graduava do nada. Hoje há presença contada, graus e metodologia, e ele acha bom, desde que o aluno viva o processo. Ximu usa a imagem da árvore: com raiz forte ninguém derruba; com raiz fina, qualquer vento leva.

Sobre o passado de briga, ele não passa a mão na cabeça nem se arrepende. Disse que naquela época a briga era mano a mano, ninguém matava ninguém, e que tudo fez parte para chegar onde o jiu-jitsu está. A diferença, segundo ele, é que hoje ele passa na academia e vê 200 faixas-brancas, quando antes via 10 malucos se matando.

Mente de campeão e defesa pessoal

Hoje Ximu dá aula na Barra, compete no super-pesado (100 kg de kimono, 97 sem) e diz que já treinou 190 vezes num mês. O método dele tem nome, mente de campeão: no treino, sem avisar o parceiro, ele se coloca em situação ruim e tenta virar. Deixa o parceiro pontuar e tem um minuto para ganhar. Ou deixa montar e pegar as costas.

“Eu só me boto em todas as situações ruins tendo que virar o jogo.”

Gustavo Ximu, no Pura Connection · 1:04:50

Na defesa pessoal, ele contou o caso de uma aluna, no exterior, que foi seguida na rua. A orientação foi olhar para trás, encarar e mostrar atitude, porque quem se encolhe faz o agressor crescer. Ele compara com o freio do carro: você pisa porque não quer bater, e se defender é isso. Para Ximu, quem saiu do zero já está bom.

Ele também é contra faixa-azul e faixa-roxa dando aula como professor: para ele, são ajudantes. Com 21 parafusos no corpo e duas cirurgias, diz que viveu o processo e que é isso que ensina. O que fica da conversa é um lutador da velha guarda que abraçou a academia cheia de faixa-branca sem largar a essência.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.