Pura Connection · André Seabra, Alan de Oliveira
Jiu-jitsu inclusivo: André Seabra e o aluno cadeirante que ficou de pé
Há 30 anos dando aula para alunos com deficiência, o professor conta histórias do tatame ao lado de Alan de Oliveira, faixa-preta com paralisia cerebral.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 jul 2026 (1:30:42).
O Guilherme chegou à aula de jiu-jitsu numa cadeira de rodas, com paralisia e o corpo bem travado. Logo no começo disse ao professor que tinha um sonho: andar. Um profissional de saúde já tinha dito a ele que isso nunca ia acontecer. Meses de treino depois, segundo o professor André Seabra, o Guilherme ficou uns 10 segundos de pé sozinho no tatame, com a mãe emocionada na arquibancada.
Essa foi uma das histórias que o André contou no Pura Connection, ao lado do faixa-preta Alan de Oliveira, que tem paralisia cerebral. Assisti à conversa e fiquei com a sensação de que ela ensina muito para qualquer professor de jiu-jitsu, tenha ele aluno com deficiência ou não.
“Aí eu soltei, e ele conseguiu ficar uns 10 segundos sozinho em pé, coisa que nunca tinha acontecido.”
André Seabra, no Pura Connection · 0:23:54
Como começou o Fazendo a Diferença
O André tem 37 anos de jiu-jitsu e dá aula desde 1996. Ele lembra que naquela época quase ninguém falava de inclusão ou de autismo. O primeiro aluno com deficiência foi Jonathan Pitbull, que tem síndrome de Down e que ele chama de seu número 01. O Pitbull começou criança, parou por um tempo, voltou depois de 2010 e hoje é faixa-preta e embaixador da federação que organiza os eventos de luta adaptada em que eles competem.
O André faz questão de dizer que a faixa-preta do Pitbull não veio fácil, porque ele não facilita graduação. Depois dele vieram as turmas de educação especial num CIEP perto da casa do professor e, com o tempo, tantos alunos que o trabalho ganhou nome: Fazendo a Diferença no Jiu-Jitsu. Hoje ele também dá aula num projeto da prefeitura de Itaguaí, onde começou com quatro alunos e já está com 45.
Ele acredita que a empatia vem de casa. O irmão dele, um ano mais velho, descobriu aos 2 anos uma retinose pigmentar e hoje praticamente não enxerga. O André cresceu cuidando dele na escola, na rua e na igreja.
Todo mundo na mesma turma
O método do André mistura tudo. Na turma da tarde treinam juntos alunos com autismo, síndrome de Down, síndrome do X frágil, TOD e TDAH. Na turma convencional da noite ele faz o que chama de inclusão invertida: os alunos com deficiência mais experientes, como o Pitbull, treinam com os outros e fazem o mesmo treino, com drill, flexão e tudo.
A regra principal, segundo ele, é que cada pessoa tem seu tempo. Ele contou o caso do Luís, que tem síndrome do X frágil e levou quatro anos para conseguir passar a guarda. Se passou com o joelho cruzado ou não, para o André pouco importa.
“O importante é ele poder executar no tempo dele, na hora dele.”
André Seabra, no Pura Connection · 0:14:29
Ele pede o mesmo aos pais: nada de comparar um filho com o outro, e qualquer evolução tem que ser muito elogiada em casa. E conta que dá autonomia aos alunos aos poucos. Teve pai relatando que o filho, que não colocava nem o short sozinho, agora não deixa ninguém ajudar a vestir a roupa.
O André também contou o caso do Davi, autista com nível dois de suporte, que na segunda e terceira aula entrou em crise e se batia na parede. O professor foi descobrindo o que disparava a crise e passou a evitar esses gatilhos. Na quarta aula as crises pararam. Hoje, diz ele, o Davi chega querendo puxar o treino e gravar vídeo.
Alan de Oliveira, faixa-preta com paralisia cerebral
O Alan contou que começou a treinar escondido, porque os pais tinham medo de que ele se machucasse. Um amigo insistiu que ele conseguiria, e ele foi devagar, faixa por faixa, até a preta. Segundo ele, um médico chegou a dizer que ele não ia andar nem falar. Hoje ele anda sozinho e fala, e brincou com isso no programa.
O André lembra que o Alan já lutou várias vezes nas categorias convencionais, de igual para igual, e também nas lutas adaptadas. Agora ele faz o papel de exemplo: lutou contra alunos iniciantes com síndrome de Down para mostrar que eles são capazes. Dois alunos do Alan também têm deficiência, e ele diz que quer que eles olhem para ele e pensem que conseguem chegar lá.
Sobre preconceito, o Alan contou que ouviu que não ia conseguir fazer faculdade. Respondeu que queria tentar. Fez duas faculdades e hoje trabalha como personal. O André completou lembrando uma frase que ouviu de Cleber Maia, já falecido: essas pessoas, com menos recursos, fazem igual ou melhor que os outros.
A semente e a árvore
Para dar conta dessa turma, o André fala de três pilares: ser um bom faixa-preta, estudar as deficiências e ter amor. Ele fez pós-graduação em psicomotricidade, em autismo e em neurociência. Também trabalha como técnico em radiologia num hospital e, desde 1995, é barbeiro no mesmo bairro onde dá aula há 31 anos. A esposa, faixa-preta que treina com ele desde 1996, ajuda nas aulas das crianças.
A maior dificuldade, segundo ele, sempre foi dinheiro: kimono, tatame e espaço. Ele ainda não tem local próprio, e esse é o sonho declarado para o futuro. Um tatame novo chegou por doação de uma empresa de São Paulo, depois que o dono viu os vídeos do projeto na internet.
O que mais me marcou foi a imagem que ele usa para as famílias que chegam desacreditadas. O aluno é uma semente, diz o André, e o potencial dela depende de alguém acreditar. Foi assim que ele olhou para o Pitbull na primeira aula, e hoje, nas palavras dele, essa árvore virou uma floresta.
“Eu acredito em você, você é meu campeão desde a primeira aula.”
André Seabra, no Pura Connection · 0:58:22
O Alan fechou a conversa do jeito dele. Disse que não coloca a mão onde sabe que não consegue, mas que, onde pode ir, vai de cabeça.
“Aonde eu posso ir, eu vou colocar a mão. Eu vou de cabeça.”
Alan de Oliveira, no Pura Connection · 1:23:11
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.