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Connect Cast · Jonathas Gracie

Jonathas Gracie conta como ganhou o nome Gracie e saiu da rua para o UFC

Sem parentesco com a família, ele dormiu em ponto de ônibus aos 12 anos, foi adotado duas vezes e venceu no evento de grappling do UFC.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 21 dez 2023 (3:07:17).

Jonathas Gracie tem um dos sobrenomes mais famosos do jiu-jitsu e nenhum parentesco com a família que criou a arte suave no Brasil. O Gracie dele veio de uma aposta do pai, no Rio Grande do Norte. Assisti à conversa dele no Connect Cast e confesso que o nome acabou sendo o detalhe menos impressionante da história.

Aos 26 anos, recém-saído de uma vitória no evento de grappling do UFC, o potiguar contou que viveu no meio do tráfico aos 8 anos, dormiu em ponto de ônibus aos 12, foi acolhido por uma família que conheceu na escola e teve a guarda assumida pelo professor para conseguir tirar passaporte. E ainda falou sem rodeio da suspensão por doping que tirou ele das competições da IBJJF.

“Foi uma homenagem que meu pai fez pros Gracie.”

Jonathas Gracie, no Connect Cast · 0:02:34

Um nome que veio de uma aposta

Segundo Jonathas, o pai era professor de kickboxing e serviu o Exército com um homem ligado aos Gracie. Esse colega disse que o nome daria sorte ao filho. Pela versão que ele ouviu em casa, o pai perdeu uma aposta e registrou o menino como Jonathas Gracie, nome composto, sem ser sobrenome.

Ele só entendeu o peso do nome quando colocou um DVD do Pride da coleção do pai e viu uma luta de Ryan Gracie. Perguntou se era da família e ouviu que não, mas que aquele nome ainda ia abrir muitas portas. Jonathas contou que tem amizade com quase todos os Gracie, que conheceu Daniel Gracie quando ele tinha filial em Santo André e que tirou foto com Roger Gracie num seminário, ainda criança e faixa-verde.

O mais próximo é Renzo Gracie. Segundo Jonathas, depois de ser campeão mundial de faixa-roxa, ele voltou ao Brasil e postou uma foto na musculação. Renzo mandou mensagem pedindo o passaporte, e dois dias depois ele estava nos Estados Unidos: uma semana em Miami com Renzo e depois passagem paga para San Diego. Em Abu Dhabi, contou ele, Renzo o levou até o sheik e o apresentou como representante dele.

Da rua ao tatame em Santo André

A parte mais pesada da entrevista veio cedo. Jonathas contou que a mãe o teve entre os 13 e os 14 anos e foi embora para a Espanha quando ele tinha um ano. O pai, com 18, cuidou dele como pôde. Segundo ele, o lado da família do pai era do Exército e o lado da mãe era do tráfico. Aos 8 anos, levava coisas para os tios na rua em troca de dinheiro para o videogame.

Aos 10, depois de muita briga, o pai deu duas opções: sair de casa ou ir morar com a avó em Santo André, no ABC paulista. Lá ele dormia no chão da cozinha e conheceu o jiu-jitsu num projeto social ligado a Ryan Gracie, com os professores Fran do Carmo e Jabá. Tinha 11 anos e, segundo ele, treina no mesmo ritmo desde então.

Numa semana parado por lesão, reparou que a avó deixava de jantar para sobrar comida para ele. Saiu de casa. Passou a dormir num ponto de ônibus entre a escola e a academia, pulando para um parque atrás quando precisava. Para comer, contou que pegava notinhas esquecidas nos carrinhos do supermercado, enchia um saco com os mesmos produtos e saía.

A virada veio de um colega de escola, o Mateus, que o via subindo a pé todo dia e passou a pagar a passagem dele. Um almoço virou uma noite e a noite virou morada. Duas semanas depois, a mãe do Mateus sentou com ele à mesa e disse que, se ele quisesse, a partir daquele dia seria mãe dele. Hoje ele chama o Mateus de irmão. Jonathas disse que parou com droga, roubo e briga depois disso.

O professor que pediu a guarda na Justiça

Já faixa-azul juvenil, os primeiros professores disseram que não tinham mais o que oferecer e o incentivaram a procurar uma estrutura maior. Ele chegou a Luiz Guilherme, o Guigo, que montou alojamentos dentro da própria academia em São Paulo, arrumava patrocínio de café e almoço e pagava a janta dos atletas. A regra era musculação de manhã, jiu-jitsu ao meio-dia e à noite.

“O jiu-jitsu me deu oportunidade, mas a minha disciplina me deu as coisas.”

Jonathas Gracie, no Connect Cast · 0:27:15

Em 2015, aos 17 anos, ele venceu a seletiva de Abu Dhabi na faixa-azul, categoria leve. Quando Guigo pediu o passaporte, Jonathas não sabia o que era isso, nem tinha RG, CPF ou certidão de nascimento. Ao tirar a certidão, descobriu que o aniversário era 9 de junho; a vida toda ele achou que fosse 9 de julho. Por ser menor, precisava dos pais. Segundo ele, Guigo achou o telefone do pai, que respondeu que se o filho ganhou sozinho, faria o resto sozinho, e desligou.

Uma semana depois, Guigo chamou o aluno na sala, pediu que assinasse um papel e disse que, a partir dali, era pai dele. Tinha ido à Justiça e conseguido a guarda. Jonathas perguntou o motivo.

“Eu ligava a câmera da academia 1h30 da manhã e você estava fazendo barra e subindo corda.”

Luiz Guilherme (Guigo), no Connect Cast · 0:36:13

Ele perdeu em Abu Dhabi, onde disse ter vomitado na primeira luta por causa da viagem, mas foi campeão brasileiro de faixa-azul adulto. No consulado americano, quatro colegas tiveram o visto negado e ele foi aprovado. Segundo Jonathas, o funcionário explicou que o motivo era estar sob a guarda de Luiz Guilherme, que tinha bom histórico nos Estados Unidos. Na Califórnia, em 2015, foi campeão mundial de faixa-azul no leve, ficou em terceiro no absoluto e recebeu a faixa-roxa no pódio.

Estados Unidos, Atos e a vitória no UFC

Em 2016, sem parceiros de treino, perdeu na primeira luta do Mundial, e Guigo pagou a passagem dele para os Estados Unidos. O primeiro acordo em San Diego não deu certo. Num torneio pequeno, um americano de Las Vegas chamado James ouviu o moleque reclamando em português que queria finalizar e ofereceu casa e treino. Jonathas contou que James abriu mão da guarda da filha para ceder o quarto dela a ele.

De Vegas veio o convite para a Atos, de André Galvão. Treinando com faixas-brancas da academia de James, ele montou um camp de um mês e meio inspirado no que ouviu de Roger sobre treino específico e foi campeão mundial sem kimono na faixa-roxa, com seis lutas e Galvão no corner da final. Desde o fim de 2016, nunca saiu da equipe.

A luta no UFC foi contra Nick, planejada desde janeiro pelo empresário Vitor, o Dória. Segundo Jonathas, ele e Galvão estudaram o adversário e viram um lado mais fraco: a ideia era começar com a perna direita na frente, frustrar os ataques e trocar de perna quando Nick cansasse. O plano esbarrou nas punições por falta de ação, que o obrigavam a se mexer quando queria pressionar.

“Esse juiz não entende jiu-jitsu.”

Jonathas Gracie, no Connect Cast · 1:21:46

Fora a arbitragem, ele só elogiou o evento: hotel cinco estrelas, comida de atleta, sauna, banheira de gelo e massagista. Aos 26 anos, fez maquiagem pela primeira vez na vida.

A punição por doping, sem esconder nada

Em janeiro de 2022, no Atlanta Open, Jonathas disse que teve o menisco rompido numa posição ilegal com lapela. Estava em processo de green card, não podia vir ao Brasil operar e, nos Estados Unidos, só os exames custaram caro. Ele contou que, com acompanhamento médico, fez um ciclo de uma variante de testosterona aplicada perto da lesão, parou antes do Mundial de kimono e repetiu o procedimento depois. Foi testado após ser campeão e recebeu a carta da Usada.

“Eu não sou hipócrita, não vou falar que eu nunca usei nada.”

Jonathas Gracie, no Connect Cast · 1:35:24

Segundo ele, a pena podia cair se entregasse o médico ou outros nomes, e ele recusou. A suspensão na IBJJF é de três anos. Para ele, o controle antidoping deveria valer para todo mundo, com a federação investindo antes de punir. A um colega de 20 anos que pensou em usar, disse que antes corrigisse sono, comida e treino.

O curioso é o que ele sentiu com a punição. Desde os 11 anos, de janeiro a junho, tudo girava em torno do Mundial. Sem isso, contou, voltou a treinar feliz e teve o melhor ano da carreira.

“Quando eu tomei a punição, saiu um peso das minhas costas.”

Jonathas Gracie, no Connect Cast · 2:13:14

O que fica da entrevista é a lista de gente que apostou num moleque sem documento: a avó, a mãe do Mateus, Fran e Jabá, Guigo, James, Renzo, Galvão. Jonathas terminou dizendo que quer os campeões de Abu Dhabi e os melhores do ranking em 2024, e que, quando a suspensão acabar, pretende voltar e ganhar o Mundial.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.