Pura Connection · Juninho Cabral
Juninho Cabral conta como o parajiu-jitsu o levou à seleção brasileira
Nascido com uma malformação nos braços e nas pernas, o professor de educação física de Mato Grosso conheceu o jiu-jitsu em 2019 e já tem vaga para o Mundial em Abu Dhabi.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 12 ago 2021 (1:04:26).
Juninho Cabral demorou para aceitar o convite de conhecer o jiu-jitsu. Em 2019, ele pediu patrocínio a um professor de Mato Grosso e ouviu uma contraproposta: o apoio vinha, mas ele devia uma aula. Ficou enrolando, achando que ia só levar abraço no tatame. Quando finalmente foi, voltou na segunda aula e se apaixonou. Hoje, contou ele ao André no Pura Connection, faz parte da seleção brasileira de parajiu-jitsu.
“Fui a primeira vez, fui a segunda, me apaixonei. Ele me apresentou o jiu-jitsu, onde eu faço parte da seleção brasileira.”
Juninho Cabral, no Pura Connection · 0:48:53
Assisti à conversa e fiquei impressionado com a alegria do cara. O Juninho tem 30 anos, é de Itiquira, cidade de uns 15 mil habitantes em Mato Grosso, e nasceu com uma malformação congênita nos braços e nas pernas. Ele mede menos de um metro. Segundo ele, os médicos disseram que ele não passaria de uma semana de vida. Ele se formou em educação física, é palestrante e compete no jiu-jitsu.
Uma infância de adaptação
Para entender o atleta, vale ouvir como foi a infância. O Juninho contou que aprendeu a andar com dois anos, com a ajuda da irmã mais velha, que ele chama de segunda mãe. A mãe não tinha paciência de dar comida na boca, então ele aprendeu a comer sozinho. Para escrever, pegou o lápis da irmã escondido e descobriu que conseguia prender o lápis entre o rosto e o ombro.
Segundo ele, o pai foi decisivo por não passar a mão na cabeça. A frase da casa era sempre a mesma: deixa ele tentar. Na escola, os professores de educação física não o deixavam jogar bola com medo de que se machucasse. Ele entrava na quadra mesmo assim.
O esporte de verdade começou com o handebol, pelas mãos de uma professora chamada Doca. Ela teve que assinar um termo de responsabilidade para ele poder jogar os Jogos Escolares e praticamente implorar à mãe dele para deixá-lo viajar. Com 15 anos, ele ganhou a camisa 10, e conta que chorou a noite inteira de alegria.
Ele contou que o que mais o incomodava na infância era o olhar de pena das pessoas na rua. Hoje, diz, dá risada, porque sabe do que é capaz. Na faculdade, um adversário num jogo amistoso entre turmas zombou do time dele por ter o Juninho em quadra. Na jogada seguinte, ele deu um chapéu no rapaz de 1,80 metro, e o cara pegou a bola e foi embora.
“Eu sou o cara mais feliz do mundo por ter nascido com deficiência.”
Juninho Cabral, no Pura Connection · 0:19:28
Da educação física ao tatame
Quando disse ao pai que ia cursar educação física, ouviu que a profissão precisava de corpo. A resposta dele foi que o principal ali era a cabeça. O Juninho contou que ganhou bolsa e foi o primeiro deficiente físico a fazer o curso naquela faculdade, de 2009 a 2014, viajando de ônibus cerca de 150 quilômetros de ida e volta. Depois de formado, passou a treinar o time feminino de handebol da cidade.
Foi aí que apareceu o jiu-jitsu. O professor que o convidou, segundo o Juninho, é Mário Torquetti, da equipe que ele chama de Cowboy Jiu-Jitsu. No tatame, o trabalho foi o mesmo da vida inteira: adaptar. Ele contou que foi adaptando o armlock e as passagens de guarda ao próprio corpo, sem abrir mão de nada.
Antes da pandemia, a rotina era puxada: aula particular às segundas e quartas, treino no projeto às terças e quintas e, às vezes, rola às sextas. Com a pandemia, ficou cerca de um ano sem treinar e voltou em fevereiro. A preparação física ele monta junto com o professor Mário e o instrutor Jorge, dividindo as horas de físico e de técnica. Como educador físico, ele também dá palpite na carga.
Como funciona o parajiu-jitsu
Uma parte da conversa que me chamou atenção foi a explicação sobre as categorias. No parajiu-jitsu, segundo o Juninho, os atletas são divididos por classe de deficiência. Peso e faixa ficam de lado. Na prática, ele, faixa azul, já enfrentou faixa-marrom e faixa-preta na mesma chave.
“Eu já peguei faixa-preta, já peguei faixa-marrom. Todo mundo junto, porque é a deficiência.”
Juninho Cabral, no Pura Connection · 0:50:56
Para ele, é aí que entra a superação: se o adversário é mais graduado, ele precisa aprender a se defender. O Juninho contou que existe uma federação voltada só para pessoas com deficiência, presidida por um para-atleta, e que há um trabalho para levar o parajiu-jitsu às Paralimpíadas no futuro. Os atletas trocam informações em grupos e se ajudam entre si.
Títulos e a meta em Abu Dhabi
O currículo, contado por ele, já é respeitável para quem começou em 2019. O Juninho disse que foi vice-campeão brasileiro em Florianópolis em 2019, campeão de um Internacional Pro em Cuiabá e campeão Pan-Americano no Uruguai, resultado que garantiu a vaga para o Mundial em Abu Dhabi. Por causa da pandemia, ainda não conseguiu ir. Também lutou uma vez no jiu-jitsu convencional, num estadual em Cuiabá, e ficou em segundo.
Pouco antes da gravação, ele tinha voltado do Brasileiro Centro-Oeste, em Brasília, com mais uma prata. Ele brinca que o segundo lugar está incomodando, mas trata a medalha com carinho: diz que ela representa cada treino no frio, no sol e na chuva.
“Esse segundo lugar me dá força para ser campeão lá na frente.”
Juninho Cabral, no Pura Connection · 0:58:06
A meta ele já deixou clara para o professor desde o começo: ser campeão mundial e, se tudo der certo, chegar às Paralimpíadas. O que fica da entrevista é a filosofia dele de reclamar menos e agradecer mais. Vindo de um faixa azul que já encara faixa-preta sem medo, fica difícil discordar.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.