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Pura Connection · Jurandir Conceição

Jura BJJ conta como o jiu-jitsu o ajudou a superar a perda do pai

Do luto aos 15 anos às três cirurgias na faixa-marrom, o professor paulista explica como virou a chave e construiu a Templo.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 19 out 2023 (1:11:07).

Jurandir Conceição, o Jura, tinha um mês de jiu-jitsu e estava no primeiro campeonato quando o pai, que vivia uma depressão profunda, tirou a própria vida. Ele tinha 15 para 16 anos, dois irmãos mais novos, e diz que naquele momento teve duas escolhas: ficar se lamentando ou treinar para esquecer. Escolheu o tatame.

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a franqueza. O Jura, hoje dono da Templo, em São Paulo, e com quase 200 mil seguidores ensinando posições na internet, conta sem floreio que o jiu-jitsu foi primeiro uma válvula de escape, depois quase o destruiu fisicamente e só então virou missão.

“O jiu-jitsu, nesse momento, foi mais uma válvula de escape pra minha vida. Eu treinava loucamente.”

Jurandir Conceição, no Pura Connection · 0:18:36

Competir para ser feliz

Segundo o Jura, até a faixa-marrom ele só se sentia bem quando ganhava medalha. Lutou com os melhores da geração dele e acumulou títulos: campeão pan-americano, campeão brasileiro, vice mundial e vários paulistas. Ele admite que nessa fase fazia muita besteira e era briguento.

O preço veio no corpo. Ele conta que treinava três a quatro vezes por dia e, só na faixa-marrom, passou por três cirurgias. Operou o ombro direito e ficou um ano parado. Voltou, rompeu o ombro esquerdo e operou de novo. Depois, lutando um Brasileiro, estourou o joelho e foi para a terceira cirurgia.

Cada parada tirava dele a válvula de escape, e com ela voltavam a angústia e a tristeza. Foi aí que ele se perguntou se o jiu-jitsu era só aquilo, ganhar medalha e ser campeão. Segundo o Jura, ele passou a cuidar da espiritualidade e a estudar qual seria a verdadeira missão da arte marcial.

A virada: dar aula ainda de marrom

A resposta que ele encontrou foi ensinar. Ainda faixa-marrom, começou a dar aula e formou uma turma. Pegou a faixa-preta em dezembro de 2012 e, em janeiro de 2013, o mestre dele na época, Roberto Godói, o convidou para abrir uma academia junto.

O Jura diz que errou muito nessa sociedade por não saber separar os sentimentos. O Godói tinha para ele um papel forte de pai, porque ele tinha perdido o dele na adolescência, além do papel de mestre e de sócio. Na visão do Jura, no tatame existe hierarquia, mas numa sociedade é preciso ser racional e ter respeito mútuo. Os dois acabaram se separando, e ele fala do assunto sem mágoa: diz que procura não falar mal e pensar no que pode melhorar.

Depois da separação, saiu da equipe em que viveu a vida toda. Podia entrar em outra equipe já pronta ou criar a sua. Olhou para quem já tinha construído equipes, como Fábio Gurgel, e se perguntou por que não poderia fazer o mesmo. Em 2019 nasceu a Templo, com a ideia de cuidar de corpo, mente e espírito. Ele faz questão de explicar que espiritualidade ali tem a ver com caráter, sem ligação com religião, embora ele próprio seja ministro na igreja que frequenta.

“A verdadeira missão da arte marcial é te ajudar a se tornar um ser humano melhor.”

Jurandir Conceição, no Pura Connection · 0:15:56

Aula para a cadeira na pandemia

Poucos meses depois de abrir a equipe, veio a pandemia. O Jura tinha acabado de assumir compromissos financeiros e diz que foi dificílimo. Formado em educação física, começou a dar aula online. Mandava o aluno pegar uma cadeira, segurar como se fosse o quadril do adversário e fazer drill. Ele lembra que teve gente dizendo que ele estava maluco, dando aula para cadeira.

Segundo ele, os alunos continuaram pagando a mensalidade e isso segurou a academia. Hoje ele vê aquele período como o pontapé do trabalho digital. Diz que dando aula particular sofria para fazer uns 2 mil reais, com vários rolas pesados por dia, e que no mês anterior à entrevista faturou entre 36 e 40 mil reais no digital, sem anúncio pago. Ele passou de 20 mil para 100 mil seguidores em seis meses e credita isso à constância de postar posições todo dia.

“Não existe constância sem renúncia.”

Jurandir Conceição, no Pura Connection · 0:48:35

A renúncia, no caso dele, tem nome. Ele conta que acorda às cinco da manhã, dá um beijo nas duas filhas e muitas vezes só volta a vê-las acordadas no dia seguinte.

O básico que funciona

A marca do Jura na internet é o que ele chama de básico que funciona: três quedas, três passagens, três reposições de guarda e três saídas de cada situação ruim, como armlock, triângulo, montada e costas. Ele diz que não ensina só o básico, mas que aluno sem alicerce é prédio que cai. Cita o berimbolo como exemplo de técnica incrível e conta que já tomou um berimbolo que o levou para as costas numa luta, mas insiste que o conceito vem antes.

Ele pensa muito em quem mora no interior, em cidades com uma academia só e nenhum faixa-preta. Para essa pessoa, receber online o ajuste de passagem que ele levou 18 anos para construir vale muito, segundo ele.

Na Templo, conta, 95% dos alunos não competem. O plano agora é a expansão por filiados, com material e quimonos, para que o professor consiga viver do jiu-jitsu. Ele diz que não aceita a ideia de um professor que transforma vidas ganhar 500 reais.

Perder e pedir uma pizza

Mesmo com a agenda cheia, o Jura segue competindo. Diz que nunca passou um ano sem lutar, fora a pandemia, e que em janeiro de 2020 competiu o Europeu e o Floripa. Ele nunca foi campeão mundial adulto de faixa-preta e usa isso como prova de que título não define sucesso de academia.

A diferença é a cabeça. Até a marrom, perder o fazia chorar e se sentir um lixo. Hoje, se perde, vai para casa, pede uma pizza com a família e na segunda-feira faz o melhor treino da semana, bravo com o erro.

O que fica da conversa é um professor que olha para trás sem culpar ninguém. O Jura resume assim: toda situação difícil tem dois lados, e a escolha de qual deles puxar é sempre de quem está passando por ela.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.