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Pura Connection · Gesias Cavalcante

JZ Cavalcante conta como saiu da luta livre de Campo Grande para o MMA

O lutador lembra do mestre que o levou à Carlson Gracie, da chegada aos Estados Unidos com menos de 200 dólares e das noites dormindo debaixo do ringue.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 16 mar 2022 (1:31:14).

Gesias Cavalcante, o JZ, tinha 20 anos quando largou a família em Campo Grande, na zona oeste do Rio, e embarcou para os Estados Unidos sem falar inglês e com menos de 200 dólares no bolso. O destino era a American Top Team, na Flórida. No começo, segundo ele contou ao André no Pura Connection, ele dormia debaixo do ringue da academia.

Assisti à conversa e o que mais me pegou foi o jeito como o JZ fala de quem abriu as portas para ele. Tem o mestre de luta livre que, em vez de segurar o aluno, o levou pessoalmente à academia do Carlson Gracie. Tem o amigo que emprestou o dinheiro da passagem. E tem uma visão muito clara sobre controlar a emoção antes de lutar.

Do judô aos quatro anos à luta livre

O JZ contou que começou no judô com quatro anos e competia com seis. Desde então, nunca parou. Foi ali que aprendeu, sem perceber, a dominar a emoção. Para ele, a emoção sempre vem, e o trabalho do lutador é dominá-la.

“A emoção vem. A única coisa que tu consegue fazer é dominar a emoção, e isso eu aprendi na luta.”

Gesias Cavalcante, no Pura Connection · 0:01:49

A disciplina para o treino veio cedo, a da escola nem tanto. Segundo o JZ, ele começou a matar aula para treinar e, perto do carnaval, avisou aos pais que ia sair do colégio particular e estudar à noite para se dedicar à luta. Ele diz que os pais sempre foram amigos antes de serem pais, e que isso fez diferença. O pai trabalhava vendendo na praia no verão, e o menino dormia numa caixa de isopor, achando tudo diversão.

Na adolescência, a escolha foi a luta livre. O JZ contou que a rotina era pesada: saía de Campo Grande de trem para treinar, fazia luta olímpica em Piedade e às vezes ainda voltava a Botafogo para a preparação física, segunda, quarta e sexta.

O mestre que o levou à Carlson Gracie

A história mais bonita da entrevista é a do Corval, o professor de luta livre de Campo Grande. Segundo o JZ, alguém ligado à academia do Carlson viu ele e o parceiro de treino, o Maicon, lutando e fez o convite: se quisessem crescer, deviam ir treinar com o Carlson. Numa época de rivalidade forte entre jiu-jitsu e luta livre, o JZ tinha medo de como o mestre ia reagir.

O Corval surpreendeu. Disse que ia junto, que levaria os dois lá pessoalmente, e fez uma pergunta que o JZ nunca esqueceu: se ele queria ser o rei de Campo Grande ou ganhar o mundo.

“O cara que eu achava que ia surtar pela rivalidade foi o cara que chegou e falou: tem uma oportunidade boa, vamos lá.”

Gesias Cavalcante, no Pura Connection · 1:01:57

O JZ diz que foi o Corval quem colocou nele o espírito de luta, e que o Carlson também aceitou recebê-lo mesmo com o clima entre as duas artes. Na academia do Carlson, ele pegou uma fase de transição, com alguns remanescentes da geração antiga. O jiu-jitsu de kimono, segundo ele, entrou de verdade depois de uma lesão no joelho, que o obrigou a treinar de forma mais cadenciada e aprender a ficar confortável em posição ruim.

Ele também tem uma visão tranquila sobre a velha briga. Lembrou, citando um escritor, que já nos anos 1940 luta livre e jiu-jitsu eram as lutas mais conhecidas, e mencionou a polêmica luta entre Carlos Gracie e Rufino. Para o JZ, essa rivalidade foi boa: sem oposição, o vale-tudo e o MMA não teriam evoluído como evoluíram.

Dormindo debaixo do ringue na American Top Team

A viagem só aconteceu por causa de um amigo, o Vitor, parceiro de treino que depois abriu academia em Campo Grande. Segundo o JZ, ele pediu dinheiro emprestado e ouviu que não precisava devolver: era um investimento para ele viver o sonho dos dois.

Na Flórida, a American Top Team já tinha muitos brasileiros e queria abrir espaço para americanos. Mesmo assim, contou o JZ, um colega chamado Boca abriu a porta, dava carona de manhã e ajudava a arrumar comida. Ele ficava na academia, dormia debaixo do ringue e tinha preparação física, boxe e MMA de graça. Na época havia rivalidade com outra academia da região, e ele chegou a pedir para lutar num evento local contra um atleta de lá.

“Com 20 anos larguei família, larguei tudo, fui para um país onde eu não falava a língua, com menos de 200 dólares no bolso.”

Gesias Cavalcante, no Pura Connection · 0:53:37

Ele disse que só percebeu o tamanho do que tinha feito quando contou a história numa palestra para crianças nos Estados Unidos e a diretora veio agradecer pela coragem. Até ali, ele nunca tinha visto aquilo como sacrifício.

A pausa no MMA e a volta pelo grappling

Com 38 anos, o JZ contou que nunca se aposentou, mas deu um tempo do MMA. Estava aceitando lutas só por lutar, sem a preparação certa, e achou que isso era arriscado demais. Nesse período, só dando aula, perdeu a forma e ficou, nas palavras dele, chato em casa.

A volta veio pelo grappling. O amigo Wagner Rocha, da luta livre, pediu ajuda para uma competição, e o JZ descobriu o tamanho que a luta sem kimono tinha ganhado. Ele passou a treinar uma vez por semana na academia do Cyborg e voltou a competir. Na última seletiva do Abu Dhabi, em São Paulo, o voo foi cancelado e ele foi de ônibus para conseguir bater o peso.

Sobre o trash talk, que chegou ao jiu-jitsu competitivo, o JZ não gosta. Reconhece que Gordon Ryan usa isso como estratégia para entrar na cabeça do adversário, mas prefere resolver no tatame. Para ele, quem não gosta deve parar de seguir, porque xingar na página do cara só dá mais audiência.

O que fica da conversa é gratidão. O JZ repete que árvore sem raiz está morta e faz questão de dizer de onde veio: Campo Grande, luta livre, o Corval e o Carlson. Vale a pena ouvir essa parte com calma.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.