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Pura Connection · Léo Vieira

Léo Vieira conta como o Jacaré tirou o filho do porteiro da faxina

O fundador da Checkmat fala do mestre que mudou sua vida, das rupturas da Alliance e da Brasa e do trabalho criando as regras de grappling do ONE.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 13 jan 2025 (1:24:22).

Léo Vieira era gago, tímido e filho de porteiro. Estudava em escola pública e já estava virando faxineiro quando o professor dele, Romero Jacaré, percebeu que o garoto tinha sumido do tatame e fez uma proposta: vem trabalhar na academia que eu te pago o mesmo. Ali, segundo o Léo, caiu a ficha de que ele podia ser professor de jiu-jitsu.

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o tema que atravessa tudo é esse, o peso de ter o professor certo. O Léo virou campeão, fundou a Checkmat, treina Buchecha e hoje ajuda o ONE Championship a montar o grappling do evento. Mas a história que ele conta começa sempre no mesmo lugar: com o Jacaré.

“Eu queria ser a fusão do meu pai com o Jacaré.”

Léo Vieira, no Pura Connection · 0:28:10

O filho do porteiro

O Léo começou no jiu-jitsu com 8 ou 9 anos. Em casa, conta ele, aprendeu os valores com os pais, católicos que ajudavam muita gente e chegaram a levar morador de rua para dentro de casa. Na rua, os amigos eram meninos do morro e ele era o filho do porteiro, sem saber direito onde se encaixava.

Foi o jiu-jitsu que deu a ele confiança para se posicionar, disse o Léo. Com o tempo todo mundo começou a treinar e os mundos se misturaram. O pai, que veio do interior da Paraíba, trabalhava o dia inteiro e não tinha tempo nem de ir à praia. O Léo queria os valores dele, mas o estilo de vida do Jacaré.

Um detalhe me marcou. Ele admitiu que por muitos anos nem gostava de lutar. Treino e campeonato eram uma tortura, e o que o mantinha no topo era o medo de voltar a ser o que era antes. Chegou a se formar em fisioterapia para ter outra saída, mas percebeu que lá encontrava as mesmas frustrações e decidiu aprender a gostar de jiu-jitsu.

“O que me fez chegar e me manter foi o medo de não querer voltar pro que eu era.”

Léo Vieira, no Pura Connection · 0:47:53

Um mestre que era atleta de verdade

Segundo o Léo, ele deu sorte de começar com um professor fora do padrão da época. O Jacaré era formado em educação física, triatleta, e chegou a fazer a prova do Havaí com os recursos que tinha. Cuidava do treino, dos valores e do exemplo dentro da academia.

Quando o Jacaré foi para Atlanta, o Léo ainda era faixa-marrom. Depois de graduado faixa-preta, foi para São Paulo trabalhar com Fábio Gurgel e, como ele mesmo contou, esperava encontrar ali outro pai. Encontrou um parceiro de trabalho, e os dois montaram uma potência de atletas numa cidade que não tinha quase nenhum.

Sem pai por perto, o Léo virou o irmão mais velho da turma. No time de São Paulo, com nomes como André Galvão e Lucas Leite, ele diz que já botava os atletas para ter nutricionista, preparador e até psicólogo esportivo durante o camp, há mais de 20 anos. Naquele tempo, lembra ele, o professor fazia tudo sozinho.

Da Alliance à Checkmat

O Léo contou que sofreu em todas as separações que viveu. A primeira foi a saída da Alliance, por diferença de valores e por uma liderança em que uma pessoa decidia por todos. A turma foi para a Brasa, onde todo mundo tinha a mesma voz, e também deu problema. Ele diz que saiu de um polo para o outro sem se ver em nenhum dos dois.

A resposta foi a Checkmat, e o modelo veio da Bíblia. O Léo conta que sempre leu as escrituras para lidar com nervosismo de campeonato e com briga de academia, e que usou o jeito como Jesus preparou os apóstolos para pensar em liderança e em como espalhar a equipe. Ele faz questão de dizer que não prega, mas usa os mesmos exemplos nas palestras para professores.

Na Checkmat, segundo ele, nem o fundador está acima dos valores. Se ele errar, sai, e a equipe continua. E a competição, diz o Léo, representa só 5 a 10% de quem treina, por isso o foco é o desenvolvimento das pessoas.

“O maior é aquele que serve.”

Léo Vieira, no Pura Connection · 0:58:24

A volta do pai

A parte mais bonita da entrevista foi sobre a relação com o Jacaré depois das brigas. O Léo diz que sempre foi um soldado dele e que só usou o nome da nova equipe porque o Jacaré autorizou. Mas a distância cresceu e eles ficaram sem se falar como antes.

Quem reaproximou foi o irmão, Ricardinho, sempre muito próximo do Jacaré. Na pandemia, ele ligou dizendo que o Jacaré tinha pegado covid. O Léo, que tinha montado uma empresa de álcool e máscaras para não faltar para a galera do jiu-jitsu, passou a levar material para ele. Depois o Jacaré se mudou para o Brasil e, segundo o Léo, ia à academia uma vez por semana tomar café especial com ele.

Buchecha, Jansen e o grappling do ONE

Hoje o Léo diz que o trabalho com o Buchecha é muito mais mental do que físico: conhecer o atleta a ponto de perceber pelo corpo quando ele está eufórico ou abalado e deixar ele em estado de alerta na hora da luta. Chama o Buchecha de seu maior evangelista, o cara que conecta pessoas pelo mundo.

Foi o Buchecha, aliás, que apresentou o Léo a Chatri Sityodtong, dono do ONE, quando o Léo fazia o corner dele no MMA. Segundo o Léo, o Chatri, faixa-preta de Renzo Gracie, quer fazer pelo jiu-jitsu o que o evento fez pelo muay thai. O Léo ficou responsável por criar a regra, treinar juízes e educar o público: premiar o ataque e a finalização, punir a amarração, sem perder a pontuação por controle.

Sobre Jansen Gomes, apontado como o novo Buchecha, ele foi claro: não vai ter outro Buchecha. O Jansen é aluno direto do Ricardinho e morou com o Léo de faixa-azul juvenil até a preta, treinado para enfrentar problemas cada vez maiores.

O que fica da conversa é uma ideia que o Léo repete de vários jeitos. O Jacaré ajudou um garoto que não tinha nada para oferecer em troca. A Checkmat, diz ele, existe para fazer o mesmo, e a única cobrança é passar adiante.

“Não me paga nada, não me deve nada. Só faz valer a pena, passa adiante.”

Léo Vieira, no Pura Connection · 0:59:58

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.