Pura Connection · Márcio Cromado
Luta livre: Márcio Cromado revela o erro que quase custou sua carreira
O treinador de MMA conta por que largou o emprego de carteira assinada, como ganhou as faixas lutando e o que tenta evitar que os alunos repitam.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 23 mar 2026 (1:30:10).
O Márcio Cromado é um dos nomes mais conhecidos da luta livre esportiva no Rio e hoje passa o dia preparando atletas de MMA. No Pura Connection ele abriu o jogo sobre uma coisa que muita gente da geração dele não gosta de admitir: errou, e errou feio, numa carreira que não dá segunda chance.
Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a sinceridade. Segundo o Cromado, no fim dos anos 90 havia muita oportunidade e muito oba-oba, e ele se deixou levar. A carreira de atleta de alto rendimento é curta, lembrou ele, e quem vacila naquela janela não recupera o tempo.
“Eu tinha que ter parado e ter escutado mais os conselhos dos mais antigos.”
Márcio Cromado, no Pura Connection · 0:10:25
Hoje, contou ele, é exatamente isso que tenta passar para os garotos. E disse que muitos amigos daquela época tiveram de ir embora do país para não se perder, e ele fala de perder mesmo: ir para o lado errado da vida.
O dia em que ele pediu as contas
O outro lado da história é a dúvida que ele carregou por anos. O Cromado contou que chegou a trabalhar de carteira assinada numa época em que já lutava no Japão, porque ser lutador era malvisto e não parecia profissão. Quando chegava na academia, alguém perguntava: "Vem cá, tu não trabalha, não?". E a dúvida crescia.
Até o dia em que ele foi pedir as contas. O chefe quis saber o que estava errado ali, e a resposta dele virou a frase do episódio.
“Tá de errado que eu tô trabalhando aqui todo dia sentado dentro do escritório e eu sou lutador.”
Márcio Cromado, no Pura Connection · 0:33:35
Ele contou que passava o expediente inteiro pensando na hora de bater o cartão para ir treinar, e às vezes fugia na hora do almoço para isso. Esse conflito, segundo ele, durou muito tempo na cabeça dele. Imagina na cabeça dos pais.
Do judô no clube ao tatame do Eugênio Tadeu
O começo foi quase por acaso. O Cromado é de Botafogo, da rua Assunção, a mesma rua onde, segundo ele, moravam o mestre Eugênio Tadeu e boa parte da turma da luta. Ele queria ser sócio do clube Sírio Libanês, mas não tinha dinheiro. O jeito era entrar como sócio atleta. Não sabia jogar bola, o basquete também não deu certo, e sobrou o judô.
Quem o levou foi o mestre João Bosco, que morava na mesma rua e, segundo o Cromado, é presidente da Confederação Brasileira de Luta Livre. Ganhou um kimono fininho e na segunda aula já sabia que tinha achado o lugar dele. Com uns 12 anos, passou a frequentar o Boqueirão, onde a luta livre treinava, e viu de perto gente como o mestre Hugo Duarte. Os caras treinavam de sunga, e ele lembra que a cena era meio medonha para um moleque.
Depois, contou ele, o Eugênio Tadeu viu que a molecada da rua estava fazendo besteira e chamou todo mundo para treinar à tarde. A isca era a sauna e a regata na Lagoa depois do treino. Quando o mestre abriu academia própria, o Cromado foi junto e nunca mais parou. Só ficou longe do tatame alguns meses, no quartel.
Tem uma história do Eugênio que resume aquele tempo. Segundo o Cromado, ele só foi usar cueca depois dos 20 anos, porque o mestre mandava andar de sunga.
“Lutador de verdade não anda de cueca, não, porque na hora que tiver que sair na porrada vai abaixar e sair na porrada.”
Márcio Cromado, no Pura Connection · 0:27:25
Praia, boate e a rivalidade com o jiu-jitsu
O Cromado fala dessa época sem enfeitar. Ele contou que nos anos 80 e 90 cada praia do Rio tinha dono, e entrar no território dos outros podia acabar em briga. Nas boates era igual. Segundo ele, aquilo era errado, mas na cabeça da época era a honra da academia e do mestre. Hoje, diz, o cara que não gosta do outro se inscreve na chave e resolve lutando, e isso é bom.
Sobre a rivalidade com o jiu-jitsu, ele lembrou que a luta livre andava junto com o pessoal do boxe tailandês, como Marco Ruas, e citou a luta contra Renan Pitanguy, em 83 ou 84, como o ponto em que tudo começou. Para ele, as brigas foram duras, mas todo mundo amadureceu e hoje entende que aquilo ajudou o esporte a chegar onde chegou.
Ele também contou que, depois que José Moraes deixou a secretaria de esporte do Rio, a luta livre deu uma caída muito grande, e ele ficou alguns anos praticamente sozinho, viajando com os alunos para lutar MMA para não deixar a modalidade morrer. A maior referência dele como lutador de luta livre é Alexandre Cacareco, que, segundo ele, foi finalista do ADCC mais de uma vez, no peso e no absoluto, enfrentando os melhores do jiu-jitsu.
Faixa se ganha lutando
Quando o assunto virou graduação, o Cromado foi direto. Ele nunca fez exame de faixa. Segundo ele, o Eugênio Tadeu mandava lutar em campeonato, e no absoluto.
“Eu nunca fiz um exame. Eu sempre ganhei a faixa na porrada.”
Márcio Cromado, no Pura Connection · 0:58:41
Ele contou que pegou a roxa numa luta contra o Johil, apanhando e virando no fim, e a marrom no absoluto contra o Cacareco, que tinha mais de cem quilos quando ele pesava uns 70. Hoje repete a regra com os alunos: quem some o ano todo e aparece em novembro esperando faixa fica sem.
O que o incomoda é a banalização. Ele disse que vê, principalmente fora do Brasil, lutador que nunca vestiu kimono sendo graduado faixa-preta de jiu-jitsu, e teme que em 10 ou 20 anos se perca a história que veio de Carlos Gracie, de Hélio e da família Gracie. Curiosamente, quem mais pergunta de história para ele é um russo, professor universitário, a quem o Cromado deu a faixa-preta de luta livre e que manda mensagem todo dia querendo saber quem foi fulano e quem foi beltrano.
O treinador que faz papel de pai
A parte mais bonita da conversa é o Cromado treinador. Ele disse que tenta tirar o moleque da comunidade e levar para dentro da academia, para ele se sentir abraçado, e que se sente horrível quando descobre que perdeu um deles para o crime. Contou também que convenceu a mãe do Marcelo Brigadeiro, que treinava com ele desde os 12 ou 13 anos, de que o filho ia passar no vestibular sem largar o treino. Segundo o Cromado, o Brigadeiro passou para veterinária na federal, e foi ele quem deu o apelido.
“Eu fico mais com o meu atleta do que com a minha própria família.”
Márcio Cromado, no Pura Connection · 1:12:16
Em viagem, ele leva fogãozinho elétrico e cozinha no quarto para o atleta não errar na dieta antes da pesagem. Ele citou o Moçambique, que trabalhava de segurança das 10 da noite às 6 da manhã e voltava para treinar às 9, e que hoje está no UFC. E trabalha a parte de grappling de uma equipe feminina, a MSP, que ele descreve como meninas muito duras, algumas mães, que largaram a família para lutar.
No fim, a mensagem que fica é simples. Segundo ele, no início a luta não paga nem a passagem de ônibus, e só chega longe quem pensa grande e continua treinando depois de conquistar. É o que ele diz todo dia para o Todinho, garoto invicto da comunidade Santa Marta. É o conselho que o próprio Cromado gostaria de ter ouvido lá atrás.
“No início a luta não te dá dinheiro, vai te dar é prejuízo.”
Márcio Cromado, no Pura Connection · 1:22:13
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.