Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Micael Galvão
Mica Galvão conta como vive vegetariano e por que rola forte de primeira
Aos 17 anos e faixa-marrom, o atleta de Manaus falou de dieta sem carne, fé, visitas a academias e do dia em que decidiu viver do jiu-jitsu.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 28 jun 2021 (1:46:06).
Quem recebe Mica Galvão numa academia já sabe o que esperar: no primeiro treino, ele vai forte. Não importa se do outro lado está um faixa-preta, uma criança ou um senhor de idade. Aos 17 anos, faixa-marrom e no meio de uma temporada de três meses nos Estados Unidos, ele explicou no B-Cast por que faz isso.
“Meu primeiro treino com qualquer pessoa, eu vou forte.”
Micael Galvão, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:26:56
Assisti à live e o que mais me chamou atenção foi a tranquilidade dele para falar de tudo: da dieta sem carne, da fé, do dia em que decidiu que o jiu-jitsu seria profissão e do papel do atleta nos eventos. Ao lado dele, o tempo todo, aparece a figura do pai e professor, Melqui Galvão, que ele chama carinhosamente de velhinho.
Vegetariano e sem perder força
A apresentadora Mayara abriu o assunto lembrando que muita gente acha que atleta de alto rendimento não pode cortar carne. O Mica contou que tem uma alimentação bem regrada e que hoje, dos alimentos de origem animal, come só ovo. Segundo ele, a força não caiu em nada depois da mudança.
“Eu não tive nenhuma contrapartida na minha força.”
Micael Galvão, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:13:02
A diferença que ele percebeu foi na resistência e na recuperação. Ele disse que consegue comer e, duas horas depois, estar pronto para treinar pesado de novo. O começo, admitiu, foi difícil: no primeiro dia comeu um prato de grão-de-bico com alface, abacate e tomate e achou horrível. Depois de uma ou duas semanas, e cozinhando ele mesmo, passou a gostar. O que não consegue tirar da comida, complementa com suplemento.
O Mica também contou que corta quase todo o glúten, evita fritura e fica longe de comida processada. Um dos apresentadores brincou que, num almoço em Manaus, mal dava para ver o outro lado do prato dele.
Por que ele vai forte na primeira vez
O professor conhecido como Feu, um dos apresentadores, contou rindo que o Mica visitou a academia dele na faixa-azul, na roxa e na marrom, e em todas as vezes bateu nele e nos alunos. Disse ainda que o problema tem nome: quando o pai grita da beira do tatame, o menino acelera.
O Mica respondeu com calma. Ele explicou que, quando alguém ganha um pouco de nome, vira alvo, e todo mundo quer tirar uma casquinha. Nas visitas e nos seminários, sempre aparece quem queira pegá-lo. Por isso a regra é ir forte no primeiro rolo, sempre com educação e sem tentar machucar. Se o parceiro se mostra duro, ele segue no mesmo ritmo; se percebe que é um pai de família que só quer treinar, diminui na segunda rodada.
“A pessoa do outro lado vai esperar o Mica que ela vê na competição.”
Micael Galvão, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:27:28
Fé, família e o peso do exemplo
O Mica disse que é cristão e que cresceu com esses princípios em casa, com o pai e a mãe. Quanto mais seguidores ganhou, mais percebeu que não podia mostrar qualquer coisa nas redes, porque criança copia. Ele contou que o pai estuda o tempo todo, é muito próximo de Deus e que os dois conversam antes de qualquer decisão.
“Eu preciso ser respeitoso com o meu público.”
Micael Galvão, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:22:13
A fé apareceu também quando ele falou de competição. Segundo o Mica, um GP de oito atletas que tinha acabado de disputar foi a melhor competição da vida dele em termos de cabeça. Ele entrou sem se ver como favorito e, pouco antes de lutar, recebeu uma mensagem da mãe dizendo que tinha sonhado com ele. Contou que aquilo mexeu muito com ele naquele momento.
O dia em que o jiu-jitsu virou profissão
Um dos apresentadores perguntou quando o jiu-jitsu deixou de ser brincadeira. O Mica voltou à primeira viagem aos Estados Unidos, aos 12 anos, com o pai e a irmã. Foi a primeira vez que saiu do país, e o pai vendeu a moto para bancar a viagem. No campeonato, ele viu meninos da idade dele sendo patrocinados, recebendo salário e tirando foto com fãs, enquanto a família dele ficava de favor em casa de amigos.
Ele disse que ali decidiu que queria o mesmo. De volta a Manaus, a rotina mudou: o jiu-jitsu passou a ser a profissão dele, e o pai, nas palavras do Mica, botou para quebrar. Vieram novas viagens em 2016 e 2017, e um dos momentos mais felizes da vida profissional, segundo ele, foi quando começou a receber salário de um patrocinador no Brasil.
Sobre o futuro, ele foge das promessas longas. Diz que pensa no futuro de vez em quando, mas não se prende a ele, e que os objetivos de quando era mais novo já mudaram.
“O que tá acontecendo agora é que vai decidir o futuro.”
Micael Galvão, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:40:32
A live trouxe ainda uma notícia: a organização do ADCC tinha anunciado a edição de 2022 em Las Vegas. O Mica contou que da última vez não pôde participar por causa da idade e que agora, pela primeira vez, vai poder disputar.
Atleta pago precisa dar show
Na parte final, o assunto foi a relação entre atleta e evento. O Mica, já confirmado no BJJ Stars de 1º de agosto, disse que percebeu a diferença durante a temporada nos Estados Unidos. Num GP em que o atleta paga inscrição, só um sai com o prêmio. Num evento que paga hotel, passagem e cachê, o papel do lutador muda.
“Você tá sendo pago para dar um show.”
Micael Galvão, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:21:43
Para ele, amarrar a luta só para vencer num evento desses é esquecer o combinado, e divulgar o evento faz parte do trabalho. Os apresentadores aproveitaram para elogiar a forma como ele trocou de equipe: segundo eles, Mica e Diogo foram apresentados pela nova casa numa entrevista coletiva nos Estados Unidos, com o patrocinador Victor Dória ao lado, algo que lembrou a eles o futebol.
O que fica da conversa é a imagem de um garoto de 17 anos que já trata o jiu-jitsu como carreira, mas que, fora do tatame, gosta de videogame, de andar de bicicleta, dos três cachorros e do gato que deixou em Manaus, e de um treino livre no fim de semana só para sair na porrada com os amigos. Ele disse que devia voltar ao Brasil em agosto e ficar por um mês e meio a dois meses.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.