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Pura Connection · Paula Sack

Paula Sack, pioneira no UFC, conta como chegou a Abu Dhabi sem visto

A apresentadora do BJJ Stars relembra a aposta que a tirou do Canal Combate, o perrengue no aeroporto e a derrota por vantagem que nunca engoliu no jiu-jitsu.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 19 set 2022 (1:19:48).

A Paula Sack foi a primeira jornalista brasileira contratada pelo UFC, numa época em que ainda não existia UFC Brasil nem categoria feminina no evento. No Pura Connection, ela contou como saiu do Canal Combate no auge para apostar nessa vaga, como embarcou para o primeiro UFC em Abu Dhabi sem visto e como foi competir no jiu-jitsu de faixa-branca.

“Eu entrei no UFC como a primeira jornalista brasileira da organização, a primeira mulher brasileira também.”

Paula Sack, no Pura Connection · 0:13:30

Assisti à conversa e gostei do jeito franco dela. A Paula conta os acertos e os perrengues com a mesma naturalidade e admite que é péssima perdedora. Hoje ela comanda as apresentações do BJJ Stars, e boa parte da entrevista explica como alguém que começou falando de skate foi parar no centro do mundo das lutas.

Do skate ao Canal Combate

A Paula é jornalista e começou a trabalhar ainda na faculdade, apresentando um programa de skate na TV que logo virou um programa de esportes radicais. Depois passou num teste da Globosat para o Premier Combate, que ela lembra ser o nome original do Canal Combate.

Ela achava que entendia de luta. Já tinha acompanhado um pouco do Pride e até entrevistado o Minotauro no programa de esportes radicais. Quando entrou no canal, percebeu que não sabia nada. Era programação 24 horas por dia, com equipe pequena, externa a semana inteira, estúdio e eventos ao vivo.

Pelo relato dela, o momento era o da passagem do vale-tudo para o MMA, com a profissionalização dos atletas e do mercado. Havia resistência da mídia e até da família e dos amigos, que não entendiam por que ela tinha trocado os esportes radicais pela luta. Numa viagem de férias, escolheu Las Vegas para ver um UFC ao vivo e voltou com mais certeza do caminho.

A aposta no UFC

Depois de seis anos como uma das principais apresentadoras do Canal Combate, veio o convite do UFC americano. O contrato era de exclusividade, e ela contou que tentou conciliar os dois trabalhos, mas não conseguiu. Saiu da Globosat no auge e foi para a internet, produzindo conteúdo em português, inglês e espanhol para o mundo todo. Isso foi em 2010, quando a internet ainda não tinha a força de hoje no Brasil. Muita gente achou loucura.

Sobre ser mulher num ambiente masculino, a resposta dela surpreende. A Paula disse que, no começo, foi abraçada pela comunidade das lutas. O problema apareceu quando chegou mais longe, no UFC, e passou a ocupar um lugar que um homem poderia estar ocupando. Aí vieram as tentativas de desvalidar o trabalho dela.

“Eu trabalhei talvez o dobro do que um homem trabalharia para mostrar a minha força, o meu valor.”

Paula Sack, no Pura Connection · 0:19:20

Ela faz questão de dizer que não veste o papel de vítima, mas que se solidariza com as mulheres que passam por isso. Contou também que costumava repetir em entrevistas que queria ser a jornalista mulher mais importante de lutas do mundo, até que dois colegas, nos bastidores do UFC, sugeriram que ela talvez já tivesse chegado lá. Foi quando parou para pensar.

Sem visto rumo a Abu Dhabi

A melhor história da conversa é a do primeiro UFC em Abu Dhabi, com três cinturões em jogo e evento a céu aberto. A Paula ainda negociava o contrato quando os futuros chefes avisaram, por telefone, que não conseguiriam levá-la: estavam tendo muito problema para tirar o visto dos atletas brasileiros.

Ela não aceitou o não. Pesquisou tudo sobre a entrada no país, preencheu a papelada do visto, que levaria dez dias para sair, comprou a passagem mesmo assim e passou um dia inteiro gravando no estúdio do Canal Combate, com uma câmera emprestada e a promessa de trazer uma matéria. No check-in, sem visto, lembrou ter lido que brasileiro em trânsito podia ficar dez dias. O atendente disse que ela não estava em trânsito. Ali mesmo, na fila, ela comprou pelo telefone uma passagem de Abu Dhabi para a Jordânia e virou brasileira em trânsito.

Ela contou que ouviu que poderia ser deportada assim que chegasse e que foram 15 horas de terror no avião. Deu certo. Os chefes americanos não acreditaram quando a viram lá.

“Eu avisei que eu ia, mas não tinha como chegar sem o visto. Mas eu cheguei.”

Paula Sack, no Pura Connection · 0:32:22

Hoje, fazendo psicanálise, ela olha a história de outro jeito. Disse que deu certo, mas poderia ter dado muito errado, e que se colocou em riscos de que não precisava.

Faixa-branca, WO e uma derrota por vantagem

O jiu-jitsu, curiosamente, foi o último esporte que ela começou a praticar, por causa do trabalho. Quando a amiga Kyra Gracie organizou o Gracie Pro, a Paula apresentou o evento ao vivo, também para o Canal Combate, e a Kyra sugeriu que ela competisse. Ela lutou no sábado e apresentou no domingo.

Chegou confiante demais. Aqueceu, ouviu a música, entrou no clima de atleta, e as duas adversárias não apareceram. Ganhou a medalha de ouro por WO, sem lutar. Insatisfeita, pediu à Kyra para arrumar uma luta e escolheu uma menina de São Paulo que tinha acabado de perder, guardeira e 8 quilos mais pesada. Foram cinco minutos apanhando, ouvindo o córner gritar para ela ter calma e respirar. Perdeu por vantagem.

“Saí dessa luta com uma derrota e descobri que eu sou uma péssima perdedora.”

Paula Sack, no Pura Connection · 0:53:09

Um ano depois, na edição seguinte do Gracie Pro, ela foi atrás da revanche. Achou a adversária, Samanta, pelo Instagram, e até subiu uns seis ou sete quilos para a luta. A Samanta não foi, e a revanche nunca aconteceu. As duas viraram amigas, mas a Paula diz que ainda não resolveu essa história.

Do MMA para o mercado do jiu-jitsu

Por volta de 2015, segundo ela, o mercado do jiu-jitsu começou a esquentar e a absorveu. A Paula foi convidada para apresentar a Copa Pódio, ao lado do Leandro Lo, depois foi para o Gracie Pro e hoje comanda as apresentações do BJJ Stars, que ela chama de maior evento de lutas casadas de jiu-jitsu do planeta, transmitido para mais de 70 países.

Ela dá o crédito da constância ao Fepa, idealizador do evento. Contou que já viu muita gente investir pesado, fazer um ou dois eventos incríveis e parar porque a conta não fechava. Para a Paula, o jiu-jitsu tem outro público, outra linguagem e menos dinheiro envolvido que o MMA, e ainda está se profissionalizando. O MMA, na visão dela, se explica sozinho; o jiu-jitsu você só entende treinando.

“O mercado de jiu-jitsu não é a mesma galera do MMA. É uma outra linguagem, é outro mercado.”

Paula Sack, no Pura Connection · 0:56:44

Uma curiosidade que ela carrega da carreira é entender como um campeão mantém a motivação no topo. Contou que fez essa pergunta ao Anderson Silva numa das últimas entrevistas com ele. E admitiu que já tentou dar uma pausa nas lutas, mas o mercado sempre a puxa de volta. Pelo que ouvi, ela nem faz muita força para resistir.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.