Pura Connection · Toti Jordan
Pitoco, pioneiro do jiu-jitsu na Barra, admite que expulsava alunos
Toti Jordan conta como o jiu-jitsu cresceu na Barra da Tijuca, o que aprendeu nos Estados Unidos e por que parou de ensinar defesa contra faca e arma.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 21 ago 2023 (1:13:21).
Poucos professores falam com tanta franqueza sobre o que faziam de errado. Toti Jordan, o Pitoco, dá aula de jiu-jitsu desde 1988, foi um dos que ajudaram o jiu-jitsu a crescer na Barra da Tijuca e, no Pura Connection, contou sem rodeio que chegou a expulsar aluno do treino por atraso e a dizer na cara de quem tinha dificuldade que estava tudo errado.
“Essa técnica eu usava, não tenho vergonha de falar. Eu estava massacrando o ego dele, a autoestima dele.”
Toti Jordan, no Pura Connection · 0:25:29
Assisti à conversa e gostei justamente disso. O Pitoco fala do jiu-jitsu das bandeiras e da rivalidade entre academias, mas também de gestão, de criança, de mulher no tatame e de duas histórias de violência na rua que mudaram a forma como ele ensina defesa pessoal.
Da casa do Paulinho ao Clã com Jorge Pereira
Pitoco contou que treina desde pequeno e que no Rio começou a treinar em 1976. Depois foi para a zona sul treinar com o Jacaré e, segundo ele, era muito amigo de Renzo Gracie desde garoto.
As primeiras aulas foram improvisadas. Pelo relato dele, a turma empilhava uns quatro tapetes na casa de um amigo, o Paulinho, e botava a garotada para treinar, numa época em que quase não existia jiu-jitsu infantil. Depois ele passou a dar aula no Espaço Vital, que ele descreve como o lugar onde a Barra Gracie cresceu. Quando Carlinhos Gracie teve um problema no espaço onde ensinava, contou Pitoco, assumiu o lugar dele no Espaço Vital.
Pitoco lembrou que, naquela época, um professor da zona sul dizia que o pessoal da Barra era tudo playboy e não ia dar em nada. Deu no que deu. Ele passou pela Oficina do Corpo, com a bandeira Pitoco Barra, e depois se juntou a Jorge Pereira para montar o Clã Jiu-Jitsu, que ele chama de período muito legal. Segundo ele, a parceria durou uns quatro anos. Em seguida veio a Infight, que ele levou para o ABC Paulista por volta de 1994 e 1995, numa região onde, pelo que ele achava, não havia academia de jiu-jitsu. Os primeiros faixas-pretas dele, contou, foram Rogério e Paulinho.
O que os Estados Unidos ensinaram
A virada veio fora do Brasil. Pitoco contou que um tal Rafael, o Gordinho, assumiu a turma infantil da academia de Roberto Gordo Correa na Barra e em poucos meses juntou uns 50 alunos. Quando o Gordinho se mudou para os Estados Unidos, Pitoco foi dar aula com ele e ficou uns quatro ou cinco anos por lá. Chama o Rafael de mentor em administração de academia.
O que ele aprendeu parece simples. O professor já está no tatame quando o aluno chega, conversa antes da aula, começa e termina na hora certa. Quando Gordo foi para Abu Dhabi e a academia dele na Barra ficou nas mãos de empresários que não conseguiram tocá-la, contou Pitoco, ele voltou para assumir. Hoje, segundo ele, são 11 professores de jiu-jitsu, uma ficha de frequência que ele chama de coração da academia e uma avaliação técnica e social dos alunos a cada três meses.
Ele também trocou a repetição pelo tempo. Em vez de mandar cada um fazer a posição dez vezes, dá dois ou três minutos, para que o aluno com menos facilidade não olhe para o lado, veja todo mundo terminado e desista.
“Cada aluno tem um caminho diferente a seguir. Cabe ao professor descobrir qual é.”
Toti Jordan, no Pura Connection · 0:11:52
O tiro na véspera de Ano-Novo
A história mais forte do episódio aconteceu num 31 de dezembro. Pitoco contou que estava de carro com Renzo, que se recuperava de um tiro na perna e ainda andava de muleta, quando viu numa rua escura da Barra um homem agarrado a uma moça. Desceu do carro, a moça gritou por socorro e ele correu atrás. Segundo ele, o homem se virou e deu dois tiros na direção dele. A moça era namorada de um amigo; o homem estava com uma faca na barriga dela.
Para Pitoco, o problema começou antes, quando ela percebeu que estava sendo seguida e teve vergonha de reagir. É por isso que ele fala tanto em ler os sinais antes da briga. A regra que ele repete tem três passos: evitar, sair e, só se a vida estiver em risco, lutar.
O aluno que morreu e a aula que ele cortou
A outra história é triste. Em São Paulo, contou Pitoco, ele ensinava defesa contra faca e arma de fogo, e um aluno chamado Marconi, faixa-branca que treinou uns seis meses, foi rendido ao abrir o portão de casa no ABC. Segundo ele, o rapaz reagiu e levou dois tiros. Depois disso, Pitoco decidiu nunca mais ensinar a civil defesa de faca ou de arma.
“O cara vem com uma faca, não existe defesa pessoal. Vira as costas e sai correndo.”
Toti Jordan, no Pura Connection · 1:09:39
Com as crianças, o caminho foi outro. Pitoco contou que o filho entrou no carro de um desconhecido na saída da escola, e só não aconteceu nada porque o homem percebeu que tinha pegado a criança errada. Daí nasceu um programa que ensina os pequenos o que fazer quando se perdem num shopping ou num parque e a quem pedir ajuda. Na academia dele, segundo ele, tem aluno de dois anos e meio.
Jiu-jitsu com nome em português
No fim, Pitoco defendeu a raiz brasileira. Ele contou que, dando aula nos Estados Unidos, percebeu que o americano dá nome a toda posição, enquanto no Brasil quase nada tem nome: segundo ele, sobra o Ezequiel, que veio do judô, e a baiana. Para ele, a contagem e as posições deveriam ser ditas em português lá fora, senão o jiu-jitsu perde a essência. E ele não vê outro país passando o Brasil tão cedo, nem em cinco anos.
“Acho que toda criança tem que ler e escrever, nadar e lutar.”
Toti Jordan, no Pura Connection · 0:40:07
O que fica da conversa é o retrato de um professor que viveu o jiu-jitsu da rivalidade e da pressão e mudou de ideia sem esconder o passado. E fica a ideia que os dois repetiram na conversa: muita gente que o sistema antigo jogou para fora poderia ter chegado à faixa-preta, se alguém tivesse cuidado dela.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.